Travessias – o meu jeito

O tema Travessias esteve comigo por muitos meses, desde que eu fui convidada, a participar desta mesa em homenagem aos candidatos que hoje celebram o encerramento da primeira etapa do Curso de Formação de Analista junguiano do IJBsb.

Um leque de possibilidades abriu-se à minha frente, e andei por muitos lugares buscando a melhor maneira de expressar a minha homenagem hoje a vocês.

Depois de vagar por muitas ideias, rascunhos, desistências e recomeços, decidi que a minha homenagem viria da minha própria travessia, embora ainda muito receosa com tudo o que passava na minha cabeça.

Mas…
Ontem, ganhei de vocês um moedor de sal e um delicado pote de sal do Himalaia, como agradecimento e símbolo da travessia nesse tempo de estudos, vivências e muitas trocas.
O sal simboliza a fixação, vocês me disseram, o conhecimento que fixa pela experiência. Emocionada compreendi que durante todos esses anos de Formação percorremos juntos não somente o caminho do conhecimento teórico/clínico mas uma travessia de experiências. A experiência que acontece quando o espírito encarna na matéria, na linguagem alquímica, quando o conhecimento se traduz na vida. É nessa psicologia que eu sempre acreditei, incondicionalmente. É nessa psicologia que eu acredito e credito todas as minhas fichas.
Se em algum momento eu tive dúvida sobre o que falaria nesse momento, naquele instante, eu tive a certeza que só poderia falar da minha experiência, do meu jeito.

Deixei as imagens surgirem espontaneamente em minha mente, e na sequência das cenas, a história foi se compondo
e começa assim

…………………
Há alguns meses tivemos o privilégio de receber no Instituto Junguiano de Bsb, o maestro Eduardo Ostergren, regente da orquestra sinfônica de Sorocaba, para um seminário que aconteceria durante todo um dia de sábado.

A princípio eu pensei:
Meu Deus!
O que eu estou fazendo aqui?
O que terá um maestro para dizer durante todo este dia?
O que ligaria o maestro à psicologia?
E eu queria saber sobre as atividades de um maestro?
Eu tinha tempo para isso?
Confesso que vivi minutos de curiosidade e muitas dúvidas com o vir a ser daquele dia.
Enfim, o maestro inicia a sua palestra contando o seguinte:
Um dia … perguntaram ao maestro:
O que faz um maestro?
Ao que o maestro respondeu:
“O maestro é aquele que
desperta no músico
o desejo de tocar o seu instrumento
da melhor maneira possível ”.

Sem mais perguntas, (eu pensei)
Já sei o que estou fazendo aqui
Esse é também o grande fazer do analista:
- Despertar no paciente o desejo de tocar a sua vida da melhor maneira possível.
Despertar no paciente o desejo de cuidar de si
Despertar no paciente, a paciência necessária ao tempo da alma e da Individuação.

O que o maestro falou, tocou-me profundamente, misturou-se aos ritmos da minha travessia e, a meu jeito, fui me encantando e criando combinações, nos sons, na clínica, na vida.

Sem desejo / sem orquestra
Sem desejo / sem análise
Essa é a mais pura verdade, soube disso.

O maestro falou dos sons, dos tons, das escalas, das partituras.
Tons graves, agudos, médios, fortes, bemóis, sustenidos, muitas composições.
Graves? O tom dos conflitos
Médios e neutros? O tom dos desânimos e dos desanimados.
Baixos? os tons melancólicos
Bemóis? as depressões
Fortes? são as opiniões,
Agudos? O som das críticas e das vítimas
A escala maior traz as sensações de alegria, enquanto a escala menor ressoa a tristeza.
O sol é uma nota livre, aberta, iluminada é uma nota que alegra.
O lá é nostálgico, lunar, fechado e entristece.
A nota dó (pensei eu) deve ser a nota do dó-de-si-mesmo. Quando nos sentimos vítimas, quando nos fazemos vítimas e não aceitamos a própria vida, entonamos o “dó de nós mesmos”.

Eros havia me flechado. Eu estava encantada pelos sons e absorvendo profundamente os ensinamentos do maestro e as minhas viagens sonoras borbulhavam em alto ritmo.
Segundo Von Franz, só aprendemos verdadeiramente uma matéria se estivermos apaixonados. Sem paixão apenas retemos o conhecimento utilitário, pronto para o descarte.
Talvez por isso mesmo eu não tenha me tornado uma pianista, apesar dos muitos anos de estudo, desde a infância. Eu não era apaixonada pelo piano, era apenas disciplinada e as pessoas confundiram com vocação.

Mas agora, o mundo dos sons voltava
com muita intensidade em minha vida e eu sabia que não era em consequência à minha carreira interrompida de pianista. Algo mais forte devia estar mexendo comigo desde a palestra do maestro e ainda que eu não tivesse a menor ideia do que era, aos poucos fui combinando fatos e desvendando novas faces da minha travessia.

E assim começa uma nova parte da história
Há alguns anos atrás, após uma pesquisa muito longa e incansáveis exames eu fui diagnosticado de perda severa de audição no ouvido esquerdo. Jamais passou em minha cabeça a possibilidade de perder um órgão do sentido e o momento exato do diagnóstico definitivo e irreversível ainda hoje reverbera em mim.
Anos de luta, adaptação de aparelho auditivo, inúmeros constrangimentos, vergonha e preconceito. Muito preconceito. Não das pessoas, mas o meu próprio preconceito. Eu também jamais imaginei que poderia haver tanto preconceito dentro de mim. É lindo usar óculos, (eu pensava), permite mudar e renovar o visual e isso é bem legal. Mas aparelho auditivo?
Sem palavras…
Incansavelmente testei muitos aparelhos, na busca desesperada de uma escuta minimamente parecida com a que eu perdera. No entanto, a meu tempo eu entendi que isso era impossível de acontecer e a meu jeito venho aprendendo a lidar todos os dias com isso.
Eu não tinha opção quanto à perda auditiva mas tinha a opção de não me entregar à tristeza e de não perder a minha alegria. Optei por isso, não perder a minha alegria.
Alegria é uma coisa, tristeza é outra pensei, e elas podem sim conviver em harmonia, desde que eu faça a meu jeito.
Muitos desafios se passam por esses tempos, entre eles também, o cuidado continuo com o equilíbrio, pois ele tenta me tirar da linha reta dos meus caminhos. Interessante isso, mexer com o equilíbrio, cuidar o equilíbrio e viver diariamente, o desafio do desequilíbrio.
Enfim, sem respostas. Só perguntas.

Voltando à travessia
Hoje, sinto uma conexão incrível entre a linguagem musical aprendida com o maestro e a minha escuta. Como se, uma cuidando da outra, seguissem juntas na minha travessia.

Escutar delicadamente os sons do mundo, da clínica, dos alunos, da vida, tem feito enorme diferença em tudo que faço e vivo. Tem me transformado como pessoa e a analista em mim me mostrado que a travessia se faz todos os dias naquilo que está posto e compõe a história de cada um, desde que enxerguemos e façamos as combinações possíveis.
Então queridos colegas, essa é a mensagem que deixo a vocês.
Que despertem em si mesmo o desejo de cuidar e levar a vida da melhor maneira possível e, a seu jeito.
Que cada um reverencie a sua trajetória transformando fatos em vivências, vivências em experiências com uma pitada de sal e amor incondicional.
Que ouçam o som da vida, do mundo, do coração.
E para concluir os convido a escutar o som que eu escolhi para representar esse momento.
My Way Elvis Presley

Dia do Psicólogo, hoje escolhi a gratidão

Hoje escolhi a gratidão para homenagear a psicóloga que vive em mim.
Gratidão à psicóloga que, ainda insipiente, habitou a minha escolha profissional, sem que eu mesma imaginasse para onde, ela e eu, estávamos nos conduzindo.
Gratidão à psicóloga em mim que soube esperar por mais de 15 anos enquanto precisei sair pelo mundo, vivendo experiências outras que nem a incluíam.
Gratidão à psicóloga em mim que participou ativa e silenciosamente de uma grande crise, que por fim, a traria de volta à minha vida.
Gratidão à psicóloga em mim que, como um amálgama aproxima-me, a cada instante, das pérolas que encontro no caminho.
Gratidão à psicóloga em mim que mostra-me que escolha é autoria, é liberdade e determinação. Que de maneira alguma é vitimização e submissão.
Gratidão à psicóloga em mim que presentea-me com lucros inesperados como uma profissão renovada em vocação e auto-realização.
Gratidão à psicóloga em mim que conduz-me sempre e de novo a novos caminhos, lugares e experiências.
Gratidão à Psicóloga em mim que possibilita o encontro com alunos, colegas e pessoas que confiam à mim as suas histórias.
Gratidão à psicóloga em mim que mostra à minha filha, também psicóloga, que é possível sim, vivenciar aos 64 anos uma vida rica em possibilidades, desafios e envolvimento.
Gratidão à psicóloga em mim que mostra-me todos os dias que a Psicologia pode ampliar-se para além dos consultórios e instituições e tornar-se delicadamente uma maneira de viver.
Gratidão à psicóloga em mim que não me abandona, e a par e passo dança comigo esta grande aventura chamada vida.

Perguntaram-me outro dia

Como posso estar feliz neste instante se ando tão triste em minha vida? Estarei fingindo? Fugindo? Representando? Mas quem sou eu afinal?
Ao que respondi: E quem disse que alegria e tristeza não podem coabitar o mesmo espaço? Quem disse que não somos feitos de tristezas e alegrias que mesclam-se o tempo todo e que nada em si têm de contraditório a não ser o fato de não permitirmos que elas se aproximem, conversem, escutem uma à outra e empaticamente nos libertem às possibilidades da vida? Quem disse que não podemos pedir licença às tristezas enquanto brindamos alegres à vida de um amigo? Enquanto experimentos instantes de alegria e de felicidade?
Isto é fuga? Contradição? Ou será exatamente o seu oposto? Saúde, aceitação e criatividade?
Sim, a felicidade se apresenta assim mesmo, tantas vezes lado a lado à tristeza, tantas vezes feita em rasgos de alegria, de surpresas e emoções fugazes. Certo é que, por natureza, a felicidade esquiva-se do “para sempre” e nega-se ao determinismo e aos deterministas. Percebê-la em sua sutileza e aceitá-la, assim mesmo, do jeito que ela é e se apresenta, é estar vivo, é aproveitar o momento, é pegar o trem que rapidamente para na estação. É desafio e desafiante, mas também é o que temos e podemos enquanto percorremos o enorme desafio do viver.

A rua de duas mãos

Dia desses, andei escrevendo sobre o lugar onde moro: a moça da bicicleta, o rapaz da livraria, as árvores que se esparramam em múltiplas cores e o barulho do colégio em frente à minha casa, um exercício diário de paciência.
No entanto, naquela ocasião, não falei da “rua de duas mãos”, que desafia a minha atenção todos os dias, quando não, várias vezes no mesmo dia. E agora aqui estou para falar dela.
Rua perigosa, carros de lá, carros de cá, olhar atento, movimento intenso e inquietante, onde todo o cuidado é pouco enquanto se espera o momento exato para atravessá-la (de carro ou a pé).
Nada foi diferente aquela noite quando toda atenção e olhar — de lá e de cá — não impediram que meu coração disparasse junto ao movimento abrupto que fiz para não colidir o meu carro com o motoqueiro que trafegava com o farol apagado, na rua de duas mãos. Felizmente, ele, eu e as pessoas ao redor, saímos ilesos, apesar do enorme susto.
De imediato lembrei a minha proposta de andar mais a pé no lugar onde moro, o que ainda não saiu do projeto. Mas quem disse que andar a pé é garantia de não ser atropelada pela moto de farol apagado?
Perguntas sem respostas, gosto muito delas…
Fato é que a pé, de carro ou de moto os cruzamentos são muitos, são perigosos e estão por toda a parte nas tantas ruas de muitas mãos.
Mas não parei por aí. O alívio que senti pelo mal “não acontecido”, convidou-me à imaginação. Vislumbrei as esquinas da vida, os cruzamentos, as ruas de duas mãos, as imprudências e os perigos que são tantos e tão complexos que nem a imaginação dá conta.
No trânsito da vida, facilmente nos distraímos, invadimos pistas, ultrapassamos limites, adentramos semáforos. Conduzimos o veículo de nossas ideias e ideais como se fôssemos o senhor das pistas. Um carro de faróis altíssimos (ou apagados?), carregado de certezas, críticas e opiniões inquestionáveis, tudo isso cega a via por onde todos trafegam. O trânsito se enche de poderes engarrafados e condutores poderosos. Nada flui, as idas não deslancham, as vindas emperram, os (mau) humores atropelam-se e nessa frequência ninguém vai, ninguém vem.
No trânsito de muitas vias e sons, não ouvimos o outro nem consideramos que aquela buzina pode ser muito mais do que provocação ou impaciência. Pode ser o sinal de um perigo iminente. Aviso que estamos indo rápido demais ou devagar demais? Sinal que logo ali à frente vamos encontrar uma moto com o farol desligado? Ou ainda, que se aproxima uma rotatória de curvas bem fechadas, daquelas que a vida não sinaliza, enquanto, sem constrangimento altera o rumo e provoca novo prumo, queiramos ou não?
E assim é o trânsito da vida, na vida que levamos e que nos leva todos os dias para tantos lugares, para tantas histórias e mistérios. Parar, olhar e seguir com cuidado, parcimônia e delicadeza é o esperado na rua de duas mãos, na vida de tantas mãos e seus surpreendentes motoqueiros de faróis apagados.

Fale mais sobre mim

Uma manhã, ainda cedo, ele surpreendeu-me ao perguntar por que eu sempre deixava a pasta de dente aberta? E assim nasceu esta crônica, pois não consegui parar de pensar na questão. Não sei se é porque eu deveria mesmo escrever sobre o assunto, ou porque ainda continuava deixando a pasta de dente aberta…
Como assim? pensei na ocasião: esse era mesmo um (mau) hábito meu? Detalhe que eu até então não percebera? Desde sempre, como ele falara? Ou tratava-se de um daqueles deslizes que se desalinham através dos anos? Ou algo que somente agora o incomodara?
Meu Deus! São mais de quarenta anos juntos e ele ainda conseguia me surpreender mostrando-me algo novo sobre mim? Sim, podia não ser o melhor “algo novo sobre mim”, mas era algo surpreendente, inquietante e por que não dizer até irritante? Mas algo que certamente me pôs a pensar. E, afinal, quem é que disse que só as melhores coisas são surpresas e surpreendem? E que todas as surpresas são ótimas? E que boas ou más elas não conduzem a um propósito? E foi nesta lida que respondi: “eu não tenho a menor ideia se deixo a pasta de dente aberta ou não ”. De fato, o que eu estava dizendo era a verdade, a minha verdade.
O que fazer com isso era a segunda parte da questão, porque entre o isto ou o aquilo da revelação, a situação ganhava múltiplos cenários.
A começar, impressionou-me sobremaneira o quanto percebermos e sermos percebidos pelo outro é um fator dinâmico na vida e nas relações, independentemente do tempo e da intimidade que se tenha. E o resultado pode ser um emaranhado de atritos ou a renovação (de um, de outro, de ambos e quiçá da relação).
Outro cenário da situação foi: o que fazer diante da surpresa? Para isso, um instante de silêncio, de não-ação, uma leitura rápida (mas não rasa) da mesma, fizeram-se necessários e imprescindível.
Poderia defender-me? negar? corrigir (o outro ou a mim)? emburrar? esperar? Estas eram algumas das opções que se descortinavam à minha frente e estavam totalmente a meu dispor. Tudo isso, é claro, não esquecendo o humor, que segundo Schopenhauer é um atributo divino e a única coisa capaz de manter a alma em liberdade, e eu queria muito manter a minha alma em liberdade.
Escolhi então não explicar, não me defender ou justificar, nem tampouco ir atrás da razão e floreios que rebuscassem a verdade do fato. Iria pensar e observar.
E assim seguiram-se dias de mais atenção e menos re-ação, não se falou mais em pasta de dente (nem aberta, nem fechada). Contudo, a cena permaneceu ali, rodopiando meus pensares, o que possibilitou que eu me percebesse melhor e o que eu vi, pasmem, foi: eu deixando a dita pasta de dente aberta, quase que diariamente.
Mas que raios eu teria de aprender e empreender a partir deste cenário, a princípio tão simples e corriqueiro, perguntei-me? Sim! Prestar atenção aos detalhes, cuidar dos pequenos e grandes desafios, gentileza ao outro, à mim e à relação, que tantas vezes tropeça nas pequenas causas.
Mas, sobretudo (eu soube disto), precisava desenvolver a arte de ouvir, especialmente ouvir o que o outro “fala sobre mim”. Soube que “ouvir sobre mim” é um saber de grande valia, mas também um grande desafio, e por isso ensurdecemos. Os ruídos do desconhecido, do negado e rejeitado, do feio e do caótico em nós são francamente um convite à negação e à surdez. Não se quer ouvir. Antes, se quer gritar, espernear, jogar a bola fora, caia ela onde cair. E é exatamente aí que se perde o jogo. O jogo da vida em que o vencedor não é aquele que vence o outro, mas o que melhor reconhece e vence as próprias barreiras.
E a verdade nesta história é que eu realmente deixava a pasta de dente aberta, e que diante disso eu escolhi me colocar mais atenta, especialmente nos grandes desafios da vida: a rotina, a intimidade e a convivência.
Por fim, o que experimentei ao olhar o inusitado a partir de mim mesma e da minha responsabilidade, foi a mais pura sensação de liberdade com que vivi aquele momento. Um estado de ser, que nos deixa confortáveis para dizer ao outro “fale mais sobre mim”. E disso nos falou o filósofo Sêneca no século I: O que quer que um outro disser bem é meu, e que este bem seja visto como a forma de dizer e não como conteúdo, afinal a alma pede delicadeza.

*Esta crônica é dedicada ao Marcus, que há 42 anos divide a pasta de dente comigo.

O lugar onde vivo

O lugar onde vivo não é um bairro Hollywoodiano, nem encontro nas ruas Hugh Grant ou Julia Roberts. Não é “Um lugar chamado Notting Hill”, mas como num filme, vejo passear por aqui celebridades, protagonistas, coadjuvantes, diretores e espectadores. Vejo passar pessoas que vivem e fazem vida numa diversidade incrível, cenas e roteiros que alteram-se ininterruptamente.
O lugar onde vivo, traz consigo um espetáculo de árvores multicoloridas que, no degradê do roxo ao amarelo, passam suavemente pelo branco, deixando um toque sutil de leveza. Encantar-me ou não, é uma questão de presença e escolha.
O lugar onde vivo renova-me em curiosidades todos os dias: o que estará lendo hoje, o rapaz da pequena livraria, enquanto aguarda, sentado no pequeno banco em frente ao estabelecimento, abrirem-se as portas para mais um dia de trabalho? Ele que encontro todas as manhãs na mira da minha curiosidade, quando chego para mais um dia de trabalho: que leitura o absorve tanto? E que encantador é, deixar-se encantar de tal maneira numa leitura, enquanto espera-se algo, seja lá o algo que for?
O lugar onde vivo tem a “moça da bicicleta”. Por que ela insiste em atravessar a rua na contramão do trânsito? E dizer que mais de uma vez já fez isso em direção ao meu carro? E o dia em que carregava uma criança na carona e ainda assim atravessou na contramão? Por que ela não faz uso da faixa de segurança? Mesmo sem saber as respostas decidi redobrar os cuidados ao virar a esquina onde encontro a moça da bicicleta, e torço para que nada de mal lhe aconteça e que ela se torne mais responsável com a própria vida e com as de quem ela coloca em ameaça, inclusive a minha. No lugar onde vivo, as coisas acontecem em tempo dinâmico, não há espaço para novas tomadas e reprises. Em tempo real não se brinca de viver nem se vive de brincar. Talvez um dia a moça da bicicleta entenda isso.
O lugar onde vivo tem ruas planas que possibilitam ir e vir a pé (o que nem sempre faço ) pelos lugares cheios de cantos e encantos. Usufruir esta riqueza, de se pôr em movimento em calçadas planas e ruas arborizadas são múltiplos valores aqui presentes. Basta uma parada, um rápido olhar e uma escolha. Quiçá um dia eu escolha andar mais a pé no lugar onde vivo.
O lugar onde vivo me desafia todos os dias com o barulho e o movimento de carros (mal estacionados), crianças e pais, que chegam à escola em frente à minha casa. Se por um lado saboreio o silêncio dos finais de semana e das férias escolares, por outro, entendo que o burburinho é cenário vivo deste espaço de aprendizagem, educação e desenvolvimento das crianças e jovens que ali chegam. Paciência é arte e desafio.
O lugar onde vivo tem um rio que, generosamente, oferece sua margem à plateia que assiste o espetacular final de tarde, quando o sol, radiante e misterioso, se retira para o outro lado da terra. Estar ali é uma escolha, participar do espetáculo é um brinde.
O lugar onde eu vivo é o lugar que em mim vive, e somente enquanto assim o for, os personagens se farão celebridades, a natureza se mostrará multicolorida, a curiosidade transbordará em possibilidades e os fatos se tornarão narrativas. E tudo assim, é “o lugar onde eu vivo”.

Escada rolante, um convite ao devaneio

No deslizar de um andar ao outro,
uma parada em movimento.
Um nada a fazer.
Ou um muito a fazer?
Um muito a ser?
Esperar
Pensar
Inquietar
Programar
Desejar
Lembrar
Preparar
Fato é que
Entre o em cima e o embaixo ,
Entre o ainda não chegamos
E o não estamos mais no “de onde viemos”
Existe um estar sem estar
Um rolar entre espaços
Um não tempo de partidas e chegadas.
Um entre-linhas
Um entre-espaços de possibilidades,
E emoções
De quiçá, instantes “olho no olho”
De dizer “eu te amo”
De lembrar “como é bom estar contigo” (comigo)
De saudar a vida
De pegar na mão
De abraçar
De cheiro no cangote
E quem sabe da pausa para um beijo rápido?
Sim, tudo isso e tanto mais em segundos
Neste tempo de não-tempo, de não-apego
Pois simples assim, chegamos ao nosso destino
E rolam as escadas e rola a vida, que ganha uma escala a mais,
embalada em devaneios.

O Meu “Pé de Pitangueira”

Nos galhos altos de um “pé de pitangueira” (assim chamávamos o pé de pitangas), que reinava absoluto em meu quintal, eu me ocupava demais em minhas brincadeiras de infância e me deliciava com suculentas pitangas, para entender a atmosfera tensa que reinava entre os adultos ao meu redor. Eram os anos 60 e a primeira vez que eu ouvia falar em política, revolução, democracia, ditadura e tantas outras estranhezas.
À noite, já recolhidos, o assunto continuava, mas então na voz do Repórter Esso, noticiário histórico do rádio e da televisão brasileira, que foi apresentado do ano de 1952 até 1970.
O tom grave na voz do radialista me amedrontava e levava a pensar que muito em breve estouraria uma grande guerra em minha cidade. Aquela pequena cidade era todo o meu mundo e por minúscula que fosse, era o meu universo particular e tudo o que eu poderia sonhar. A possibilidade de vê-la em guerra era o pavor daquelas noites.
Muitas vezes fui pé ante pé, até o quarto dos meus pais para desligar o rádio que ficava ao lado da cama deles, com a esperança de que já estivessem dormido e nem percebessem. Na verdade, eu precisava silenciar o radialista para que as minhas fantasias (fantasmas) me deixassem dormir. Mas de imediato o meu pai dizia: estou acordado, e ligava o rádio novamente. Eu voltava frustrada para a cama, certa de que a guerra deveria estar muito próxima mesmo, afinal o meu pai vigiava incansavelmente os perigos anunciados pelo radialista. (Ou ele estaria dormindo como eu suspeitara? Ah … quantas dúvidas pairam no painel da nossa infância.)
Mas que alegria! A guerra não aconteceu e a minha pequena cidade permaneceu viva no reduto das minhas memórias e no interior do Rio Grande do Sul, e eu segui a minha vida, em busca de sonhos outros que não estiveram nos galhos (altos para mim) da pitangueira.
Lembranças à parte, hoje nos confrontamos com um outro cenário político. (Ou nem tão outro assim?) Eleições presidências e governamentais que acompanhamos ao vivo e a cores, notícias e noticiários, informações que chegam de todos os lados, mídias de altíssima complexidade (diferente dos tempos do Repórter Esso), resultados de pesquisas (nem sempre fidedignas) debates (nem sempre civilizados) de onde escolho a democracia para um olhar mais próximo.
Símbolo vivo nos sonhos de todos os tempos — de ideal político e civilidade, de educação e evolução do povo, de saúde social e da arte de falar e ouvir — a democracia hoje, assustadoramente assombra-nos em pesadelos. Contaminada por emoções fortes, ela tem-se distanciado de seu desígnio maior (a liberdade de expressão baseada no respeito), e assim adentra lares, consultórios, amizades, vida profissional e pessoal. Transfigura-se em fantasmas.
Contrário aos seus verdadeiros princípios, pratica-se desatinos causados pela unilateralidade com que muitas vezes defende-se pensamentos, opiniões e pontos de vista. A sombra humana enreda o verdadeiro intuito da democracia acorrentando-a em distorções, ressentimentos e impertinências. Tempos difíceis estes em que, distanciados da alma democrática (alma aqui que sugere flexibilidade, conexão, ligação e relação), não permitimos questionar as impertinências e impertinências são despropósitos, são exigências e inconveniências. Somos tomados de jeitos e gestos que ojerizam a democracia.
Tempos difíceis em que pensares tornam-se opiniões, necessárias sim, desde que sejam flexíveis e contemplem a diversidade, se abram à escuta, à moderação, ao respeito e à liberdade. Sem liberdade não há democracia, e sim o seu reverso, a contramão onde podemos colidir com a ditadura do pensar e agir, a possessão, o julgamento, o poder e com o adoecimento.
Desde que deixei a minha pequena cidade, preparei o meu tempo para o cuidado da saúde e das dores que ameaçam a vida humana — a doença das emoções —o vazio, (ou o barulho interno ensurdecedor?). Pouco me dediquei a aprofundar conhecimentos sobre a política dos sistemas governamentais, no entanto, olhar o ser humano sobre a perspectiva psíquica mostrou-me que o cenário externo é similarmente conecto ao cenário interno, subjetivo, que todos carregamos, (a contento ou que nos carrega à revelia). A política interna, os nossos órgãos governamentais individuais, são igualmente regidos por um sistema muito delicado e complicado de complexos e fantasmas pessoais, que se apresentam ao mundo ao seu modo e jeito, muitas vezes encharcados de emoções que criam guerra e ressecam solos.
Dedicar-me ao contexto psíquico mostrou-me que jamais será possível alcançar a regra número 1 da democracia (inspirar e expirar liberdade) enquanto o homem não re-visitar os seus mistérios e ministérios, não tiver consciência de suas reações, não curar cisões internas e externas, não escutar em profundidade seus humores, interesses, afetos e diversidades. Enquanto não souber de si e comprometer-se com o seu quinhão.
Penetrar profunda e primorosamente em sua individualidade, em sua responsabilidade ética é substancial para que o ser individual não desapareça no rebanho das massas, ou se isole em solidão para sobreviver.
É indispensável que as suas verdades sejam coerentes às suas atitudes, que se torne uma pessoa verdadeira e não um reformador massificado.
É vital que primeiro, cada indivíduo responsabilize-se com os próprios fantasmas, experimentando subjetivamente a democracia, se desejar estendê-la para a conquista de um mundo melhor. Rainer Rilke, num deslizar de palavras, poetiza que não há meio pior de atrapalhar o desenvolvimento humano do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo possa responder.
Talvez o meu pai já soubesse dessa verdade, lá nos anos 60. Talvez já soubesse, que mais cedo ou mais tarde, eu teria que me confrontar com as minhas assombrações se quisesse conquistar autonomia, a minha própria visão de mundo e alcançasse o que para mim, seria o mais puro sentido de democracia. Sou-lhe grata sempre, e ainda que hoje não possa mais voltar para debaixo das cobertas para encobrir o medo das notícias que ouço no meu dia a dia, confesso que (as vezes) é para lá que eu sonho voltar, pois pela manhã, lá estaria o “pé de pitangueira” a me esperar com suculentas pitangas. Mas … e à noite? Ah… à noite … quem sabe lá estaria o Repórter Esso e o meu pai?

O próximo Ato

A vida seguia feita em lamentos e queixas que respingavam por todos os lados, do amanhecer ao anoitecer dos seus dias. Nem mesmo os sonhos surpreendiam mais.
Acordar toda manhã – quase inevitavelmente na mesma hora – um cansaço.
Café da manhã, não vivia sem ele – mas saboreá-lo sem novidades – um tédio.
Levar os filhos para a escola – no piloto automático – desativado somente pelas buzinas ensurdecedoras do trânsito .
Lava louça, lava roupa, recolhe e guarda.
Arrumar as camas – mesmo sem grande esmero – mais um dia.
Colegas de trabalho, o chefe, relatórios, cobranças. Ah, e por falar nisso, as contas a pagar.
Os mesmos “sempres”.
O mercado, o jantar, e de volta à cama, e ao outro e mais outros dias quando a lista segue, dobra esquinas, amassa raivas, rumina ressentimentos, amarga lágrimas.
Mas um dia… as coisas podem mudar.
Uma inspiração atravessa o peito, e eis que abrem-se as cortinas para um novo Ato no cenário da vida e seu misterioso gradiente de tragédias, comédias, surpresas e sempres.
Neste Ato, a vida, antes tão árida, ganha companhia da imaginação podendo transformar-se no espetáculo desejado.
A imaginação afina tonalidades e prepara os próximos passos e compassos. Sugere novos lugares (ainda que no mesmo espaço). Altera o olhar de, e para cada papel vivido. Transforma certezas em reticências com infinitas possibilidades, tal como a própria vida.
Acompanhadas da imaginação as perguntas perdem a urgência por respostas imediatas e ganham o tempo do devaneio. Ganham calma, profundidade e se tornam tão interessantes que praticamente nem precisam respostas.
Ao lado da imaginação a vida lucra em proporção e perspectiva (uma nova história dentro da mesma história).
A imaginação transforma as repetições automatizadas e automatizantes em criatividade plurifacetada de um novo vir a ser. E no palco da vida passamos de atores cansados e desbotados a autores de um enredo instransferivelmente nosso.

Con-versar

Con-versar
Conta o conto que duas mulheres estiveram presas na mesma cela de uma penitenciária por 30 anos e, por coincidência, foram soltas no mesmo dia e hora . No momento tão esperado, frente ao portão que se abriria para a liberdade, uma olhou para a outra e perguntou: O que você vai fazer hoje à tarde?
- Ainda não sei, ao que a interlocutora arguiu: então passa lá em casa, eu tenho uma coisa para con-versar com você. Parece que o convite foi aceito e tudo indica que elas iriam con-versar por muitos outros anos, tal como o fizeram na cela da penitenciária.
Dia desses aconteceu algo que me fez lembrar as amigas do conto. Num daqueles presentes do acaso em que o universo mexe os dados a nosso favor, me vi num táxi com uma amiga* querida, que eu não via há alguns anos. No mesmo instante tivemos certeza que a distância não mudara em nada o carinho e admiração que sentíamos uma pela outra; e por poucos trinta minutos con-“versamos” histórias de nossas vidas. Alinhamos lembranças, atualizamos capítulos perdidos, revelamos novos projetos, dramas (sim, eles estiveram ali), lembramos amigos em comum. Recordamos as vezes que assistimos e apreciamos o trabalho uma da outra. Rimos e nos emocionamos. A saudade se fez presente, os minutos se foram. A despedida.
Inacreditável, pensei: Como podemos estar e con-“versar” com uma pessoa por tão pouco tempo (cronológico) e experimentarmos uma sensação tão forte de que o dia vais ser diferente? Que ganhou beleza e colorido especial? Que nos sentimos mais animados? Que experimentamos felicidade?
Diferentemente das amigas do conto, nós só tivemos aqueles trinta minutos no interior do táxi para con-“versar”, e nem mesmo podíamos nos ver à tarde pois estávamos longe demais de nossas casas para marcarmos novo encontro.
Mas naquele momento eu soube que em tempos de se estar verdadeiramente com alguém, em tempos de inteireza e intensa presença, o tempo não tem horas, conversa vira verso, vira poesia e arte. Mergulhamos na arte de con-“versar”, de revirar e voltar os fatos, de por em versos a história em prosa. Compreendi que conversa sem verso é perda de tempo, é protocolo, é necessidade, mas conversa em verso vira poesia e poetizados podemos nos perder (ou nos achar) no tempo de cada instante. E assim…passarmos dias, meses e anos envoltos na poesia do viver.

* Este texto é uma homenagem a todas amigas e amigos com quem tenho a graça de con-“versar” por muitos ou pequeníssimos instantes em minha vida.