A Natureza da Inveja.

EM “A COBRA E O VAGA-LUME”

“Era uma vez uma cobra que começou a perseguir um vaga-lume. Ele fugia com medo da feroz predadora, mas a cobra não desistia. Um dia, já sem forças, o vaga-lume parou e disse à cobra? Posso te fazer 3 perguntas? Podes. Não costumo abrir esse precedente, mas já que vou te comer, podes perguntar – Pertenço à tua cadeia alimentar? Não. Fiz-te alguma coisa? Não – Então porque é que queres me comer? PORQUE NÃO SUPORTO VER-TE BRILHAR!!!”
Outro dia, ouvi esta fábula, contada por uma grande amiga – daquelas que se guarda no coração – como um conto de fadas que nos acompanha “desde e para sempre”. Fui convidada a pensar e me debruçar nos símbolos que dão vida à esta história. Como não poderia deixar de ser, deslizei no mesmo momento para a inveja, afinal esta fábula “transborda inveja”. Algumas questões inspiraram esta reflexão, entre elas: Por que as pessoas reagem rápido e negativamente frente a possibilidade de serem invejosas? Por que é tão mais fácil reconhecermos a inveja nos outros? Por que quando – sem saída – somos forçados a reconhecer a nossa própria inveja, lançamos mão de imediato do epíteto inveja-branca? Por que é tão difícil reconhecer a face negra da inveja? Afinal – qual é a natureza da inveja?
Ao ouvir um conto, uma fábula, um mito – penetrar em seu drama, acompanhar os seus personagens, mergulhar em suas peripécias e desfecho – somos transportados ao mundo da imaginação criativa, lugar onde habita valiosos ensinamentos sobre os conflitos e questões da alma humana. A este respeito, há que se pensar nos povos não letrados:eles não educam os seus filhos com intermináveis discursos ou longos conselhos, eles “contam histórias”; e através delas revelam os padrões morais, éticos e religiosos que regem a sua comunidade. Daí a importância de contar histórias às crianças e ajudar os adultos a compreenderem os símbolos instrumentais contidos nos dogmas, religiões e mitologias, mediante os quais, são introduzidos conteúdos inconscientes na consciência, para aí serem interpretados e integrados. As mitologias (contos e parábolas) representam disposições humanas de onde ressalta a essência da experiência interior. A este respeito, podemos pensar que os contos de fadas servem como ensinamento e possibilidades de lidar com nossos fantasmas, medos, e elementos sombrios por meio de seus personagens – verdadeiros modelos – que perpetuam desde sempre, na história da humanidade.
Na fábula “A cobra e o vaga-lume”, a inveja é o conteúdo sombrio e central do drama. Um conteúdo que transparece como elemento dotado de vida – e de morte – certamente sugerindo que estamos diante de um importante componente humano; de difícil aceitação sim, mas que precisa ser reconhecido se almejarmos uma vida mais consciente e harmoniosa.
Tal como se mostra diariamente na vida das pessoas, inúmeras são as situações em que encontramos a inveja no núcleo dos sintomas, dos distúrbios neuróticos e sofrimentos psíquicos. Aqui me refiro à inveja de todas as ordens, e explico: A inveja entre amigos, entre irmãos, colegas, inveja do saber, da coragem e das conquistas do outro. A mãe que inveja a juventude da filha, o pai que deseja a virilidade do filho. A mulher que não aceita o sucesso do marido, enquanto ela enreda-se em suas escolhas, o analista que inveja a vida do paciente (porque isto também acontece). Inveja da fertilidade, da saúde, da cultura e do conhecimento. Inveja do humor e do amor! Enfim…são tantas as facetas que se reveste a inveja – disfarçada, escrachada ou sorrateira, em maior ou menor intensidade, ali está ela – tentando comunicar algo que por algum motivo não estamos conseguindo (querendo ou podendo) reconhecer.
Neste espaço apresento a inveja como expressão de uma disposição humana instintiva, um elemento tirado da natureza, cujo significado é difícil de ser captado pelos sentidos. “Nas coisas naturais, existe uma verdade oculta que não podemos ver com os olhos do corpo” – diziam os sábios alquimistas. Assim, é lícito pensar que existe um segredo oculto na inveja que necessita ser libertado das cadeias que o aprisionam. Trata-se de um tesouro a ser revelado na imagem projetada, que resulta de uma necessidade humana de conscientização. O conteúdo projetado é o tesouro contido na inveja.
A experiência, no entanto, nos oferece provas abundantes de que é muito difícil aceitarmos a própria inveja. Preferimos manter a crença que o mal está no lado de fora, a face sombria, a estupidez e tudo aquilo que nos incomoda e irrita no outro – não nos pertence! Jung brinca com as palavras ao referir-se à dualidade humana dizendo que somente um homem infantil é capaz de pensar que o mal não está presente sempre e em toda parte, e quanto mais inconsciente estiver disto, tanto mais o diabo lhe subirá na garupa. Não podemos esquecer que não há realidade sem polaridades. A própria sombra traz de um lado uma fragilidade deplorável e condenável e, do outro, um caráter instintivo sadio e condição indispensável ao bem viver.

Amy Winehouse poetiza Jung

No dia 23 de julho de 2011 o mundo foi notificado da morte de Amy Winehouse. Grande perda. Uma vida que se vai prematuramente. Sob o mito de uma das maiores revelações musicais de nossos dias, encontrava-se simplesmente uma garota tateando o mundo em busca de viver um grande amor.
A mídia não poupou notícias, vídeos, fotos e comentários de todas as ordens. Este parece ser o preço que pagam os grandes mitos. Foi esta mesma mídia que me colocou em contato com a letra de suas músicas, agora de forma mais atenta, possivelmente numa tentativa de compreender a alma de uma pessoa que me encantou profundamente desde a primeira vez em que a ouvi cantar.
Stronger Than Me, o primeiro single lançado por Amy Winehouse em 2003, foi a música que, em especial, me chamou atenção e norteou esta reflexão.

(“Mais forte que eu”)
Você devia ser mais forte que eu
Você não sabe que deveria ser o homem
Por que você sempre me deixa no controle?
Tudo de que preciso é que meu homem assuma seu papel (…)
Sempre tenho que te confortar, todo o dia
Mas é isso que eu preciso que você faça – você é gay?
Esqueci tudo da alegria do amor novo
Me sinto uma dama, mas você é meu garoto.

A poesia, a música, o cinema e a arte em geral são importantes referências para entendermos os fenômenos psíquicos, uma vez que ilustram, nas mais variadas formas, os enredos da vida humana. Assim, parto desta música, por achar que ela revela de modo crucial, um momento psicológico pelo qual passam homens e mulheres em nossos dias.
Embora o propósito desta reflexão parta da psicologia da mulher, não me distanciarei dos homens, pois é na dinâmica masculino/feminino, quer seja a que acontece no interior de cada indivíduo, ou no relacionamento com os parceiros amorosos, que encontramos um dos maiores mistérios da natureza humana – tema amplamente aprofundado por Jung em sua teoria psicológica.
Segundo Jung, homens e mulheres, independente do sexo, carregam em si um aspecto masculino e outro feminino. A mulher é conscientemente feminina, sua natureza física e instintiva é feminina, mas no inconsciente carrega um par complementar masculino (animus). Importante condição para a conscientização da mulher, a masculinidade feminina vem se fortalecendo ao longo da historia da humanidade, conferindo-lhe assertividade, capacidade crítica, objetividade e o que mais for importante para estabelecer e alcançar suas metas.
No homem o fenômeno se inverte, enquanto se move e é movido no mundo pelo masculino, o seu inconsciente é preenchido por uma mulher (anima/alma) sedenta para se expressar e lhe mostrar novas formas de viver, de se relacionar, de lidar com a vida, de se entusiasmar. A palavra entusiasmo vem do grego antigo ethos que significa Deus. Viver entusiasmado é o mesmo que viver animado, in anima nas palavras de Jung, esta forma de viver que emerge do universo feminino.
Para Jung, é ponto fundamental no amadurecimento da personalidade, a união destas duas instâncias no interior de cada indivíduo, um casamento ou encontro com seus pares interiores. Assim, os homens dariam expressão à sua feminilidade (a anima), tornando-se
mais abertos, sensíveis e reflexivos, e as mulheres, passo a passo com os seus homens interiores (animus), colocariam-se no mundo de forma mais objetiva, a serviço da autorrealização. Coniunctio é o termo empregado por Jung para a união da dualidade masculino/feminino afirmando ser esta uma das obras mais complexas e importantes da vida humana.
No entanto, não é esta união citada por Jung que nos deparamos no dia-a-dia da clínica psicológica, e sim um distanciamento ou até mesmo um desconhecimento deste parceiro interior, de seu par complementar, tanto por parte das mulheres como dos homens. E esta parte não vivida vai sempre buscar uma maneira de se expressar, quer seja em projeções sobre os outros, onde as escolhas amorosos ocupam importante lugar, quer seja em atos inconscientes, doenças, compulsões ou perturbações psicológicas.
Por inconsciência de si mesmo, por ignorar suas potencialidades e recursos psíquicos e emocionais, e por não se comprometer com o próprio desenvolvimento e amadurecimento, o indivíduo busca ou projeta no parceiro (a) fora de si, o que poderia encontrar em seu companheiro interior, caso lhe desse valor, reconhecimento e expressão.
Os versos de Amy Winehouse retratam muito bem este conflito. A busca do outro, e no outro, da própria felicidade, da sustentação emocional. É assustador como ouvimos pessoas cujas vidas estão diluídas na vida do outro, cuja história encontra-se enterrada na história do outro.
Nesta música temos a expressão de uma mulher em busca do amor alegre, que ela refere ter se distanciado ao assumir o controle da relação, e com isto possivelmente assumido também, o controle da vida outro. Controlar a vida de uma pessoa é uma das principais formas de se perder e se distanciar de si mesma, de suas responsabilidades, do autoconhecimento e realização. Ao nos diluirmos na vida do outro, misturamo-nos de forma indiferenciada e comprometemos seriamente a nossa existência.
Em seus sonhos, a mulher busca o amor romântico e protetor de um homem que a conforte e ampare, mas quando olhamos bem de perto, o que vemos com freqüência são mulheres que não sabem, não querem ou não desejam abrir mão deste queixoso controle que no fundo preenche a sua vida. Ela não quer ser o lado forte da relação, mas resiste fortemente a abrir mão deste papel. Atribui seu poder à fraqueza e ausência do homem mas o que desconhece é que o que é negligenciado é o seu feminino, que fica sufocado na ação, no poder, nas opiniões inquestionáveis e inflexíveis. Ela vê o homem como ausente e fraco, chega até mesmo a duvidar de sua masculinidade. Como resultado, encontramos mulheres fálicas, masculinizadas, tirânicas, de espírito crítico e agressivo. Mulheres deprimidas, enfurecidas, adormecidas por remédios, álcool e drogas.
Todo este cenário é muito triste sim, mas não podemos virar as costas para ele. Olhar para dentro de nós mesmos resgatando partes inconscientes, potencialidades subdesenvolvidas, imagens perdidas, com responsabilidade e coragem é um recentramento necessário que pode nos libertar para uma vida de maior sentido e significado.
Mas…e Amy Winehouse?
Apenas uma mulher que teve a vida interrompida na busca incessante de viver um grande amor.

Saber amar!

Amor, amar, ser amado (a). Dores do amor, à espera de um amor, amor romântico, possessivo, ingênuo, amor de infância, o verdadeiro amor…a perda de um amor! Tantos epítetos para o amor e tantas formas de representá-lo: pintado, versado, em rimas, histórias, dramas, tragédias, na mídia, na música…
Na música dou uma parada para pensar sobre o amor. Parada que iniciou no instante em que ouvi os Paralamas do Sucesso cantarem “Saber amar”, e pensei: Quem de nós, não tem minimamente uma questão a lhe cutucar a vida – sobre o amor? (…) Sobre sua complexidade, a singularidade com que se apresenta na vida de cada um de nós? Em seu caráter universal que desliza ao longo da história da humanidade?
O que percebo em minha prática clínica é que as pessoas verdadeiramente comprometidas com o seu processo de auto-conhecimento, em algum momento (ou em muitos), confrontam-se com questões do amor. Inúmeras são as faces deste confronto: há os que esperam um amor, sem o qual não encontram sentido de viver. Aqueles que tem um amor, mas que passado o tempo da paixão, começam a ver o outro desnudo da projeção que os encantou. Há aqueles que vivem o desafio de transpor a rotina. Sim, o amor traz rotina sim, diferentemente da paixão que não a abriga. Alguns traem, outros são traídos, dor que dilacera a auto-estima e coloca o indivíduo em pedaços. Há pessoas que se perdem na personalidade do outro e misturados – esvaziam-se de si mesmas.
Muito também já se ouviu falar sobre “saber amar”.
Saber amar é…doar-se, cuidar, respeitar, entregar-se, desejar, admirar, compartilhar, sacrificar, esperar, dividir, compreender, tolerar, curtir, brigar, negociar…beijar, e todas virtudes que nos são ensinadas no decorrer dos tempos…sobre o amor. Um acervo de sentimentos (atitudes) direcionadas ao bem viver amoroso.
No entanto, os Paralamas do Sucesso me provocaram um outro olhar. Eles cantam em seu coro: “Saber amar é Saber deixar alguém te amar”. Eu gostei disto que ouvi e pensei – Mas de que saber eles estão falando…cantando -?
Penso que não se trata, neste refrão, do saber altruísta, das virtudes voltadas ao outro como citei acima, mas de um saber auto-reflexivo, que conduz às nossas profundezas de onde podemos indagar: como queremos ser amados? Como desejamos e permitimos que nos amem? Assim asseguramos, (antes de qualquer outro valor) que o caminho de nossa vida amorosa começa em nós mesmos, que somos autores e os grandes responsáveis pelo seu script e desfecho.
Também me perguntei se estas questões participam de nossas vidas amorosas. Admitimos que são tão importantes quanto todas as disposições necessárias à vivência do amor? Certificamos o valor do auto-conhecimento na subsistência do amor?
Me arrisco a dizer que raramente. Que pouquíssimas vezes nos aventuramos na árdua tarefa do auto-conhecimento, uma vez que ela anda em direção contrária às ilusões que circundam o amor desde as mais antigas civilizações até os dias de hoje. É comum observarmos a idealização, a busca de felicidade e a expectativa de bem-estar, andarem de mãos dados com amor, o que nem sempre corresponde à sua vivência. Compreender a nós mesmos e aos outros gera sofrimento.
Lembro a cena de um filme, que utilizo até hoje em meu consultório quando acho oportuno. Uma jovem mulher após alguns anos de casamento se separa do marido que a trai com a vizinha e melhor amiga. Num desabafo com a mãe, conta-lhe: “quando me apaixonei por ele, olhei em seus olhos, me enxerguei neles e pensei – daqui para frente, me tornarei a mulher de seus sonhos. E assim aconteceu, fui a melhor esposa, me dediquei inteiramente para fazê-lo feliz. Vivi a minha vida através de sua vida, mas quando me busquei novamente em seus olhos, na tentativa de compreender o que tinha acontecido, eu não estava mais lá”. É impressionante como a arte imita a vida, reproduzindo nossos dramas reais.
Outro dia ouvi um jovem desolado que decididamente não entendia o final de seu relacionamento. “Como isso aconteceu? – dizia ele – eu me entreguei totalmente à esta relação, me joguei de cabeça nela” (aí está o seu problema, pensei eu). “É preciso usar a cabeça” (mas jamais se jogar) diz um antigo provérbio, para que o coração possa ouvi-la e juntos, entrarem em cooperação.
Observando jovens mulheres, (sonhadoras em busca de seu par amoroso), percebo que tantas desperdiçam etapas importantes de suas vidas, vivendo-a como terra devastada, desprovida de sabedoria e da alegria de sua própria experiência. Há pessoas que na ânsia por um amor – no qual projetam o seu bem maior – vivem uma vida inautêntica, tantas vezes em descompasso com seu próprio sistema de valores. Não percebem que a distância que mantêm de si-mesmas corresponde à mesma que as distancia do grande e esperado amor.
Vale a pena perceber que na direção de um relacionamento amoroso, é preciso viver a experiência individual, ter fé na própria vida, sustentar as decisões nas próprias mãos, ser autor e objeto da auto-realização. Compreender a si mesmo gera sofrimento, mas é da união do indivíduo consigo mesmo que emerge a paz, de onde advém o relacionamento harmonioso. E no final das contas – íntimos de nós mesmos – podemos saber como desejamos ser amados, como permitimos que nos amem e alcançar a alegria do “saber amar”.

Crônica de Eliane Berenice F. Luconi

Perder a voz. Um desafio ao psicoterapeuta?

Diz-se que nós gaúchos, moradores aqui no extremo sul do Brasil, somos privilegiados por podermos desfrutar das quatro estações do ano, que se apresentam de forma bem definida e com isto curtir o diferencial e beleza que cada uma nos proporciona (neste grupo eu me incluo).

No entanto, como nem tudo são flores, a natureza também mostra seu avesso nos tornando suscetíveis às intempéries das estações que se manifestam muitas vezes na saúde, alterando a nossa rotina e qualidade de vida.

Dia destes, uma situação assim aconteceu comigo, e fui surpreendida por um fortíssimo resfriado, que me fez “perder a voz”. É aqui que, simplificando, inicia a minha reflexão propriamente dita. Sem que houvesse tempo para reorganizar a minha agenda, fui para o consultório contando com a boa vontade dos pacientes que estariam comigo naquele dia. Um fato interessante aconteceu enquanto eu me dirigia ao consultório, que certamente reorganizou o meu pensar daquele e de vários outros dias. Estávamos no elevador, eu e uma vizinha de andar, colega psicóloga, e como de costume trocamos aquele rápido bate-papo próprio de elevadores, onde as variações climáticas se transformam em assunto interessante (sem aspas), quando queremos quebrar o gelo do silêncio. Eu, com muito esforço, praticamente sussurrando cumprimentei a colega psicóloga – que na verdade desconheço o nome, e lhe disse, após o pequeno “diálogo climático”: Imagina, trabalhar “sem voz”…? Ela olhou-me e tentando um conforto disse: “Ainda bem que nós (psicólogos) não precisamos muito da voz!”

Aquele foi o primeiro momento que desfrutei o prazer de “estar sem voz”, pois com ou sem voz eu não saberia o que responder. Felizmente o 5º andar foi sinalizado e eu, mais sorrindo do que falando me despedi da colega. Este episódio (re)significou o meu dia. Passei a pensar o quanto eu sou privilegiada por ter escolhido uma psicologia “com voz” para orientar a minha vida e profissão. Busquei (re)ver as bases desta escolha, que certamente norteiam a forma como compreendo o ser humano, e com isto o meu trabalho de analista. Talvez todos nós psicólogos devêssemos, vez por outra, fazer uma “revisão de escolhas” para que o esquecimento e o tempo não nos distancie de nossos votos. Alguns princípios foram determinantes na escolha da psicologia junguiana como guia de minha orientação pessoal e profissional, mas certamente o dito popular:”o analista junguiano fala”, esteve à frente de todos os demais. E este era o assunto do elevador!

Apesar de minha escolha, alguns anos atrás, durante meu treinamento profissional (não que este algum dia termine) decidi buscar uma análise de abordagem diferente do modelo junguiano de psicoterapia ao qual me dedicava. Era importante que eu vivenciasse outro método terapêutico se quisesse dar vida a uma das afirmações mais preciosas de Jung, que diz: as pessoas não precisam afirmar verdades, elas devem ser verdadeiras no que dizem. Como eu estaria tranqüila com a minha escolha, se desconhecia o efeito de outros métodos terapêuticos em minha própria personalidade? Esta experiência me traria subsídios que, certamente, iriam para além de minhas afinidades. Eu me submeteria a um técnica terapêutica que conhecia somente através da teoria, seria um indivíduo em experimentação, pois na realidade tenho convicção de que um analista somente irá compreender verdadeiramente o seu paciente se tiver a coragem de conhecer a si próprio.

Assim, iniciei a análise, com alguns propósitos muito claros: eu não estaria ali regida pelo espírito crítico comparativo do que é melhor ou pior / certo ou errado. Seria cuidadosa com qualquer forma de resistência que pudesse surgir (afinal esta, era uma escolha exclusivamente minha). Buscaria acolher, livre de preconceitos, tudo o que a experiência pudesse me proporcionar. Não estaria ali para julgar um profissional, nem criticar o seu método. Somente a partir destes pressupostos, faria sentido a minha busca.

Quando já se passava quase dois anos que eu estava em análise, aconteceu um fato crucial. Certo dia fui para a sessão com um forte resfriado que me fizera “perder a voz” (sincronicidade?) e como era de se esperar, tive várias crises de tosse. Relutei muito em aceitar o que eu já sabia muito claramente- que deveria tomar água para aliviar este sintoma tão desagradável. Fiquei muito constrangida em “pedir” um copo d’água ao meu analista. Por fim, vencida pelo mal estar, tomei coragem e fiz o pedido. Se eu já havia me sentido desconfortável ao “pensar” em pedir água, muito pior foi a sensação que experimentei após fazê-lo. Fez-se silêncio na sala, não ouvi nenhuma palavra como, “claro” ou “sim, vou buscar água para você” ou qualquer manifestação “humana” que a situação pedia, e que eu certamente esperava naquele momento, além do copo d’água, é claro! O olhar que recebi do meu analista me fez pensar que eu havia cometido um “abuso de intimidade” tão grave quanto ter pedido a ele que não me cobrasse a sessão. (vale lembrar que até o momento eu nunca tive nenhuma manifestação de sintoma paranóide em minha personalidade) Jamais um copo d’água desceu tão “quadrado” pela minha garganta, mas junto a isto emergiu um grande insight: o meu tempo ali terminara! A minha escolha por uma psicologia “com voz” estava certa e agora podia falar disto verdadeiramente. Esta foi uma grande experiência de vida, daquelas que nos faz pensar – valeu a pena! (seja ela qual for).

Ao longo dos anos, esta e tantas outras vivências foram fortalecendo a minha escolha e me fazendo compreender, por que a psicologia junguiana, muito além de uma ciência do comportamento humano, é uma arte que requer o homem por inteiro, segundo um antigo ditado alquímico. Trata-se de um modelo terapêutico, em que o analista deixa de participar apenas com o seu saber, silêncio e interpretações, e passa a compor um cenário dialético junto ao paciente, onde ambos interlocutores colocam-se frente a frente, olhos nos olhos, interagindo numa relação de troca que envolve a individualidade e a personalidade de ambos. A personalidade do analista passa a ser um fator de cura na psicoterapia, e esta não lhe é dada a priori. Precisa ser conquistada com esforço, trabalho pessoal, perseverança, ética, profundidade teórica, seriedade científica, e muita paciência para saber esperar o tempo da alma, uma vez que este, não é o mesmo tempo da razão e da lógica, mas o tempo do mistério que envolve a vida humana. O analista precisa se submeter à obra que busca realizar com o seu paciente, somente assim sua fala será verdadeira!

A cada dia, o exercício clínico tem me mostrado mais claramente que o distanciamento do terapeuta, tem muito mais a ver com a sua insegurança, medo das relações, necessidade de poder, abuso de autoridade, do que com o verdadeiro saber que soma conhecimento sólido ao trabalho árduo de amadurecimento da personalidade. Que a psicologia do silêncio (constrangedor) e do olhar lânguido, carregado de mistérios – que só o analista “pensa” saber o significado é o avesso do silêncio respeitoso do profissional que reconhece e da espaço ao tempo da alma. Que o olhar cuidadoso, a escuta refinada, a fala precisa, uma habilidade artesanal assim como toda a expressão corporal do analista, fazem parte da cura, afinal, estamos falando de uma arte que requer o homem por inteiro. Uma arte que liberta ao gerar transformação em ambas personalidades!

Assim, posso dizer que o encontro com a colega psicóloga no elevador, fortaleceu de maneira ímpar o meu pensar – a voz do terapeuta é sim, condição substancial ao processo de análise. Através da voz, o terapeuta mostra que ele, não somente tem um método genuíno e honrado, mas que ele é o seu próprio método. Mostrou-me também que naquela tarde eu não estava enganada – os pacientes dividiram comigo aquele momento com muita boa vontade, eu me esforçando para falar e eles demasiadamente atentos ao rasgo de minha voz!

Texto de: Eliane Berenice Frota Luconi

Confiar

Por estes dias andei me ocupando com a confiança. Para ser mais clara, ela andou rondando o meu dia-a-dia, fiando e tecendo algumas imagens, tal como uma agulha, que ao percorrer os caminhos retos e curvos nas dobras de um tecido, vai tramando novas formas. Esta trama começou em meu consultório, quando certo dia, me despedi de um paciente dizendo-lhe: “confia”. Soube naquele momento, que não havia outra coisa a lhe dizer.

O paciente foi embora (com as suas questões), e eu fiquei ali com os meus botões…pensando na confiança. Esta foi a única palavra que eu encontrei – ou que me encontrou – naquele instante. Uma coisa era certa, aquele dia, nós dois havíamos percorrido um longo e intenso caminho pelo interior das suas questões. As atitudes frente a elas bem como as imagens e símbolos que ali emergiram, haviam sido exploradas em profundidade (claro que não esgotadas – um símbolo jamais se esgota), mas havíamos ido pelo caminho do entendimento e conscientização, até o limite das nossas possibilidades. (De certa forma sabíamos disso…e assim o “confiar” fez todo o sentido.)

Mas o meu dizer não me deixou quieta, e mesmo se tratando de uma palavra de grande utilização (e utilidade) em nosso dia-a-dia, decidi dar uma espiada no dicionário para ver como a confiança aparecia por lá. O resultado foi muito interessante. Percebi que as definições e sinônimos usados para falar em confiança/confiar, estavam direta ou indiretamente ligadas a uma ação e não a um contemplativo estado de espírito. Me explico, lá estavam: entregar, revelar, declarar, comunicar, contar, pôr, esperar, incumbir, responsabilizar, encarregar. E mesmo quando se tratava de formas mais abstratas de considerar, lá estava a confiança em parceria com uma ação: “ter confiança, ter fé, dar crédito, entregar com confiança, ter esperança”. Isto abriu portas às minhas reflexões.

Logo lembrei de uma amiga que por muitos anos (aproximadamente cinco), sofreu por desconfiança de traição em seu casamento. Motivo muito justo e compreensível de sofrimento, não fosse o mal que ela infligiu a si própria a partir desta des-confiança. Passou a viver como uma detetive em busca de provas, fatos, impressões, tudo isto armazenado em núcleos de amargura, ressentimento e ruminações. Desrespeitando e esquecendo-se de si, passou a ter uma “vida vazia”. Enquanto longas conversas eram obsessivamente articuladas com o objetivo de desmascarar o marido, de que ele por fim confessasse o que ela ”já sabia”, não percebia que o detalhe mais importante da história lhe fugia entre dedos: a dignidade e o respeito a si própria. Ela depreciou as suas – intuições, percepções, e hesitações – não confiou em si, enquanto buscava provas externas e continuava deitando-se com ele. Tornou-se uma pessoa esvaziada de motivação, de energia, sem entusiasmo e respeito próprio. Seus valores foram invertidos, as relações, profissão e afetos rebaixados (ao segundo ou terceiro plano), à medida que ocupava-se e vampirizava o marido.

Repetidas vezes negou o pedido de confiança que ele lhe fazia. Ela não conseguia atender tal pedido, por mais que o tenha tentado inúmeras vezes. Não porque se acrescessem novos fatos ao “inquérito”, mas precisamente porque ela perdera – junto à dignidade – a condição de confiar. Na realidade a minha amiga cometera um grande equívoco. Sua questão emergente não era a traição do marido e nem restabelecer a confiança nele, mas sim lançar-se numa longa caminhada de “volta para casa”, de retorno à própria vida, negligenciada por longos anos. Esta negligência é a maior traição que podemos cometer – a que se dirige a nós mesmos – cujo preço pode ser a dor de uma neurose. Só podemos dar ao outro o que inegavelmente existe em nós, impossível dar o que não temos!

Minha amiga precisava, isto sim, era resgatar a auto-confiança, aquela que nasce da relação profunda consigo mesma, (con) fiando na própria vida, se desejasse tornar-se hábil para um dia (quem sabe?) poder “entregar-se cheia de confiança” ao marido ou… a um novo amor.

Crônica de Eliane Berenice Frota Luconi

Psicoterapia Junguiana – uma reflexão

A Psicoterapia Junguiana é um método de tratamento psicológico que baseia-se nos constructos teóricos do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung e se realiza a partir de diferenciais muito significativos.
Como um processo dialético, o psicoterapeuta sai do modelo medico onde o paciente traz seus problemas e o medico fornece um diagnóstico, prognóstico e tratamento e passa a ocupar um espaço dialético no processo de compreensão do indivíduo. Diminui o distanciamento e a formalidade e a psicoterapia realiza-se através do diálogo entre os dois participantes, um frente a frente ao outro, olhos nos olhos, ambos tendo algo a dizer e voltados para o mesmo objetivo. Não cabe ao terapeuta dar respostas prontas, julgar, exigir ou interpretar prematuramente. Na psicoterapia Junguiana cai por terra a idéia do terapeuta detentor do poder, do saber e da verdade. Ele precisa ser um profissional qualificado a partir de uma formação teórica sólida mas também e fundamentalmente em seu processo pessoal de autoconhecimento, pois na concepção junguiana o paciente não vai além de onde foi o analista em seu próprio processo. A personalidade do terapeuta fará grande diferença no tratamento do paciente.
Como terapeutas junguianos não somos os curadores mas os facilitadores presentes, atentos e cuidadosos ao processo de cura que emerge do interior do próprio paciente. “Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos” diz Jung em suas obras completas.
O terapeuta não pode antecipar o desenvolvimento do paciente, isto o paralisaria. Não pode se dirigir apenas à sua cabeça, precisa atingir o seu coração, assim o atinge mais fundo e verdadeiramente lhe presta uma ajuda.
A psicoterapia junguiana propõe uma relação dialética com o inconsciente. “Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou”, é uma frase pronunciada por Jung, em sua autobiografia “Memórias Sonhos e Reflexões”. Com isto anuncia a grande importância e valor que atribuiu ao inconsciente, sendo esta uma das questões que o diferenciou e afastou de Sigmund Freud com quem dividiu os primórdios da Psicanálise no início do século passado. Jung ampliou significativamente a noção de inconsciente libertando-o da condição de repositório de conteúdos esquecidos ou reprimidos pela consciência, para uma instância criativa, geraradora de símbolos, que se manifestam em nossas fantasias, complexos, atos falhos, projeções e nos sonhos. Os sonhos para Jung não são representações disfarçadas de conteúdos reprimidos mas importantes aspectos da natureza humana capazes de revelar sabedoria. Não somente os sonhos mas também as fantasias, produções artísticas, eventos sincronísticos e sintomas são integrantes na psicoterapia junguiana como mensagens vindas do inconsciente. Mas Jung ainda vai além em suas reflexões sobre o inconsciente trazendo o conceito de inconsciente coletivo e arquétipos. O inconsciente coletivo diferencia-se do inconsciente pessoal por sua existência não depender da experiência pessoal. Ele é composto de imagens comuns a todos os seres humanos (arquetípicas) prontas para serem vivenciadas quando o momento propício se apresentar. Tal como um instinto que mobiliza forças vitais de sobrevivência ao indivíduo, os arquétipos, que são os conteúdos do inconsciente coletivo, são disposições vivas, que influenciam a forma de pensar, sentir e agir. Assim herdamos uma predisposição, um ensinamento que se propaga por toda a humanidade, por exemplo para o medo de serpentes, para a materninade, o casamento, o trabalho, o dinheiro, a morte, a perda, enfim para todas as situações da vida que se nos apresentam e se repetem ao longo dos tempos. Segundo Jung existem tantos arquétipos quantas forem as situações típicas de vida. Compreender como estes arquétipos se manifestam na vida do paciente, ajudá-lo a estabelecer um laço saudável, um equilíbrio com os mesmos, constitui um importante trabalho na psicoterapia junguiana.
“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”, nos diz Jung. Assim a psicoterapia junguiana prioriza o relato e a análise dos sonhos como um método fundamental no diagnóstico, prognóstico e orientação do tratamento. Ele é um autoretrato do inconsciente, esta parte desconhecida de nós mesmos, capaz de exercer enorme influência em nossas relações e atiitudes, bem como conter importantes sementes nas dores e sofrimentos humanos. Diferentemente da concepção psicanalítica, Jung não vê os sonhos como realização de desejos dissimulados para a manutenção do sono, nem mesmo como conteúdo manifesto de um sintoma, patologia, ou desejo. Para ele os sonhos não “escondem” não ocultam, nem têm um conteúdo latente, mas eles revelam, transmitem verdades e elucidam mensagens do inconsciente, têm um significado e uma finalidade. Visam o ajustamento psicológico, a compensação de atitudes unilaterais da consciência, corrigir padrões, ou seja a auto-regulação do organismo psíquico. Jung sugere que devemos considerar o sonho como material desconhecido ao invés de confusos por sua natureza fantástica e fugidia. A concepção Junguiana dos sonhos, aponta ainda outra diferença siginificativa entre a psicologia de Freud e Jung. Enquanto a visão psicanalítica busca a causa, o “por que” dos conflitos, sintomas e sofrimento, a psicoterapia junguiana redireciona o indivíduo para a questão prospectiva “para que”, priorizando a finalidade de tais acontecimentos. A finalidade revela o sentido de cada experiência colocando o homem como responsável pelas suas escolhas. Jung afirma que a causa das neuroses não está somente no que nos aconteceu mas fundamentalmente no padrão de attitudes que desenvolvemos a partir do que nos aconteceu, e assim renovamos a neurose a cada dia como também podemos aliviá-la adequando as nossas atitudes. Para ele a neurose e outros conflitos psíquicos dependem muito mais da atitude pessoal 
do paciente, do que da história de sua infância.
O objetivo da psicoterapia Junguiana é conduzir o paciente ao autoconhecimento, reconhecendo e se comprometendo com sua própria vida e verdade. Proporcionar ao indivíduo um dialogo o mais honesto possível com seu lado inconsciente e desconhecido, levando-o a uma ampliação de consciência e mudança de atitudes, capazes de conferir-lhe um estado de paz consigo mesmo, uma melhor postura frente ao sofrimento, aos conflitos e à vida. Os benefícios da psicoterapia junguiana podem ser observados nas diferentes fases da vida, e idades. Jung dedicou atenção ao estudo da vida humana, comparando-a ao trajeto percorrido pelo sol, do amanhecer ao anoitecer. Analogamente ao ciclo do dia-noite, o indivíduo percorre um caminho desde o nascimento passando pelas diferentes etapas, da infância, adolescência, fase adulta, e o meio da vida que se direciona para o envelhecimento e a morte. Todas estas etapas foram profundamente estudadas por Jung, que discorda de Freud quanto à redução dos conflitos emocionais à sexualidade. Ele estuda as etapas da vida humana, com suas características e desafios arquetípicos, bem como as diferentes patologias e sofrimento que afetam os seres humanos, nos legando um modelo teórico complexo e profundo.

Eliane Berenice Frota Luconi