O homem moderno

Data de 1957, um texto em que Jung externa sua opinião sobre a situação mundial atual, referindo como quase impossível a tarefa que se impunha àquela época. Em sua análise, sugeria como questão urgente e imprescindível, a ação de uma consciência moral a todos os homens, mas, sobretudo aos líderes de influência social, política, espiritual, pois estes, dispõem da necessária inteligência para compreender o mundo e exercem grande influência em seus seguidores. Todavia, a questão é que não se trata somente da necessidade de compreensão e inteligência intelectual, mas de uma atitude moral, e isto deixava Jung apreensivo, pois sabia que a natureza em sua sabedoria não é tão pródiga com seus dons a ponto de dar a uma grande inteligência o dom do coração. Pensamento e coração dificilmente se compatibilizam, dizia ele.

Nestes tempos, temos sido confrontados com uma avalanche de dificuldades – de todas as ordens – econômicas, sociais, ecológicas, políticas, espirituais, emocionais. A fúria da natureza que se mostra em cada desabamento. As armas químicas que matam majs de 1400 pessoas entre elas 426 crianças. A terra está no Limite, O contra-ataque da natureza: os novos vírus e epidemias. A corrupção política tem composto o cenário sombrio de nossos dias. Nossos dirigentes têm cometido verdadeiros desatinos, o que nos leva a repensar Jung quando refere que os líderes nas mais diversas ordens, facilmente, ao alcançarem a posição de liderança, a exercem segundo critérios pessoais, na busca de suas próprias razões, conveniências e poder, ou seja, são movidos por seus próprios interesses muito distantes de uma consciência moral e de uma atitude ética.

Ao refletirmos as questões da humanidade, é espantoso constatarmos que encontramos sempre “o homem” no âmago de cada acontecimento, como causador, descobridor e veículo de tantos desenvolvimentos, autor de todos os julgamentos, e planejador do futuro. É igualmente surpreendente pensarmos que o homem é o único ser no planeta animado pela psique, uma instância que o diferencia de todas as espécies, tornando-o capaz de uma essência consciente e auto-reflexiva. Jung é enfático ao afirmar que sem a psique não existiria mundo, que de certo modo tudo depende da psique e suas funções. O futuro do universo está na dependência das alterações psíquicas do homem, de suas instabilidades e desequilíbrios, de sua qualidade psíquica. Assim, o que é realmente espantoso é que a psique, este eixo que ocupa o centro da vida do homem, tornado-o diferente de todos seres do universo, capacitando-o de tantas descobertas e conquistas, que o imbui de tanta responsabilidade, permaneça até hoje tão negligenciada, um enigma, um milagre surpreendente e objeto de perplexidade. A nossa cultura não tem olhos para a psique e o que vem dela de certo modo é suspeito, algo relegado a um segundo plano por não ter uma utilidade prática, material. Em meio a essas observações permanece a pergunta: Qual a ação que se impõem ao homem em nossos dias? Qual a responsabilidade que lhe cabe? Qual a consciência se faz necessária?

Podemos estar certos que nenhuma ação é mais urgente neste momento, do que aquela que está ao nosso alcance: a transformação que se origina no próprio indivíduo, a partir de seu interior, independente da meta que se busque, paz mundial, igualdade social, equilíbrio ecológico, sentido de vida, saúde. Todas estas buscas tão avidamente procuradas e prometidas por guias espirituais, políticos, psicólogos, ecologistas, percorrem um caminho ilusório se não incentivarem acima de qualquer questão o trabalho honesto e difícil do autoconhecimento, de enfrentamento com a sombra psicológica, com o lado inconsciente da psique, tão negado e temido pela maioria das pessoas. O medo que temos da psique é o obstáculo mais difícil no caminho deste autoconhecimento e esta questão deveria ser seriamente considerada, pois qualquer que seja o desejo, o destino último do homem, o seu lugar de origem é na psique.

De fato quase não se tem consciência de que cada um de nós carrega interiormente uma sombra que nos faz cúmplice e co-autor na vida e no cosmos. Na verdade existem muitos esforços e promessas de realizações, de felicidade, de equilíbrio psíquico, mas nossa experiência nos tem mostrado, que tais idealismos soam como coisa vazia, ao desconsiderar o reconhecimento da sombra, da modéstia, das imperfeições e da auto-crítítica necessária para reconhece-la. Tais promessas têm mostrado infelizmente serem incapazes de transformar interiormente o indivíduo, e sem isto, nada pode acontecer. Passam um falso brilho nas aparências mostrando ao mundo um homem bom, admirável, quem sabe invejável, acima das imperfeições e das fraquezas humanas, sustentados numa falsa modéstia. Prometem ao homem algo que na realidade ele só pode adquirir, através do esforço e do sacrifício, nunca a partir de uma ação que venha de fora, de fórmulas convencionais, de regras moralistas, dogmas ou de rituais, pois com isso o homem estaria negando o esforço exigido e contentando-se com o trabalho da repetição. Este é um encontro que passamos uma vida inteira tentando nos livrar, pois nos confronta com tudo aquilo que não sabemos e não queremos saber sobre nós, projetando-o no outro. Buscamos valorizar o que é bom, a perfeição, o conhecimento, o sucesso, a inteligência, enquanto negligenciamos o fraco, o desamparado e acima de tudo, o mal que habita em nós. Isto certamente foi muito bem expresso por Nietzsche ao dizer em seus escritos: “Tu procuraste o fardo mais pesado e encontraste a ti mesmo”.

No entanto, frente à dificuldade e complexidade desta grande obra humana, é importante lembrarmos que ao penetramos no universo da psique, nos distanciamos das leis que normalmente regem a vida, e nos inundamos no mistério por todos os lados. Isto, de certa forma, pode originar até uma certa simplicidade à obra, na medida em que passa a depender exclusivamente de nós, de uma ação de comprometimento, de uma parada reflexiva, de um curvar-se diante de tudo que nos envolve, e acima de tudo de muita paciência. Apesar de complexo e profundo, é um trabalho que não depende do outro, não requer tecnologia, é isento de métodos e não se submete a critérios científicos. Como a arte, isto sim, o autoconhecimento requer o homem por inteiro, colocando-o inevitavelmente diante de si mesmo, do incognoscível, daquela parte inconsciente que habita seu interior, acompanhando todas as suas ações, decisões e intenções.

Esta é uma das obras mais importantes que se impõem ao homem moderno – o encontro consigo mesmo – de onde poderia advir um mundo melhor, uma política mais limpa, uma natureza que não precisasse se vingar das sua ações contra ela, consultórios de psicologia que respeitassem mais os desígnios da alma humana, pessoas que “simplesmente” se sentissem melhor consigo mesmas.

O dever…o devir

Era uma terça-feira, e eu estava na fila das comidas prontas no supermercado, esperando para escolher o meu almoço. Naquele dia eu desejava comer na minha casa, mesmo que fosse algo comprado no super. Fui acompanhando a fila (que seguia lentamente como é de praxe) até que num determinado momento enxerguei uma vizinha que por mais de 15 anos avistei de minha janela ou em algumas cruzadas rápidas na calçada em frente à minha casa. Ela morou por todos estes anos com uma senhora idosa, seus filhos e netos, numa pequena casa ao fundo de um terreno vizinho.Tudo isto parece muito natural, não fosse o fato desta velha senhora ser literalmente uma pessoa descontrolada, irada, desmedida, que não escolhia palavras para xingar, desacatar e ofender moralmente todos que ali viviam. Muitas vezes pensei em denunciá-la, mas a verdade é que não o fiz e me arrependo por isto.
Hesitei algum tempo até me aproximar da minha vizinha, mas por fim toquei-lhe o braço, me apresentei e perguntei-lhe como estava a senhora com a qual eu a vira algumas vezes. (Na verdade, há tempos eu não ouvia os seus gritos e queria saber o que acontecera com ela, mas não poderia ser assim tão enfática). Soube que a senhora – a qual chamava de mãe – morrera há mais de um ano. A vizinha cuidara dela até a morte que havia sido muito sofrida, com a perna amputada e outras doenças que se agravaram em decorrência da diabetes. Mas…completou a mulher, nós agora descansamos e eu vou cuidar de mim (e dele, disse apontando para o pequeno neto que carregava no carrinho do super). Abriu-se num sorriso aliviado, mas… quase sem dentes. Por certo, entre os gritos da velha e os cuidados que dedicara à sua família, não lhe sobrou tempo (nem dinheiro) para cuidar da sua saúde. Concordei plenamente dizendo-lhe que isto era muito bom. Voltei para casa com o meu almoço e com um pouco da tristeza daquela mulher sem dentes dentro de mim.
Cíntia Moscovich, conta em seu delicado livro “Essa coisa brilhante que é a chuva” a história de Saul, homem de 48 anos que era insistentemente considerado o “nhem-nhem-nhem” da mamãe. Mesmo decidido a dar um ponto final à situação de dependência que tanto o incomodava, não encontrou força suficiente, nem mesmo para brigar pelo detestado apelido “Saulzinho”. O drama de sua vida só muda de rumo quando a mãe encontra um namorado com quem recupera o sabor e a alegria de viver. Volta a se cuidar, a dançar e por fim muda-se para a casa do namorado. Saul fica só e perplexo. Agora não tem nem mesmo quem faça os “maravilhosos jantares” que encontrava sempre que chegava em casa à noite, determinado a ter uma conversa séria, que proibisse a mãe de chamá-lo “Saulzinho”. Afinal, já era um homem de 48 anos e queria ser tratado como tal. Mas Saul se perdeu no tempo, e no tempo perdeu-se de si mesmo. Até a mãe o deixara para ir ao encontro da própria vida. Mas e a dele? E a vida de Saul, onde se perdera…? Naquela noite eu já estava satisfeita de leitura. Fui dormir solidária à Saul e sua dor, e acordei com muitas inquietações. Afinal, o que aconteceu com Saul e acontece com tantas outras pessoas cujas vidas encontram-se “penhoradas” nas mãos dos pais? Que dever é este que os filhos comprometem-se a pagar com a própria vida? Com a sua liberdade e felicidade? Não será este o pior dos “deveres”? Quantas histórias se ouve de pais como Dona Berta (mãe de Saul), que fazem dos filhos seus reféns e responsáveis pelo sentido de vida que não encontram sozinhos, sugando a alegria e saúde deles a cada dia? Costumo dizer repetidas vezes que em nome do ódio se comete enormes violências, mas é em nome do amor que se comete as maiores atrocidades.
Érica, uma paciente (nome fictício) que acompanhei em terapia por longos anos, viveu momentos muito difíceis ao acompanhar a mãe doente, que morava em outro estado. Quando iniciou a psicoterapia, ela estava “tão doente” quanto a mãe, vivia atormentada pela culpa que a acompanhava por morar distante desde que se casara há muitos anos, e dividida entre ser filha e esposa. Durante muito tempo nos dedicamos à compreensão e consciência do “momento arquetípico” que passava com a doença e posterior morte da mãe. Mas no final, Érica foi agraciada pela vida, que lhe possibilitou ultrapassar este momento ainda com saúde e disposição para retornar à si mesma com dignidade e sentido. Mas não é este o “devir” que tantas vezes ouvimos. Quando os pais se vão, ou por morte ou por tomarem seus rumos, muitas vezes deixam os filhos mutilados, como uma amiga, que após a morte dos pais, restou-lhe uma artrite que a impossibilitava de qualquer conquista pessoal. Esta amiga me fez pensar na responsabilidade que temos com a direção que desejamos dar à nossa história, mas mais do que isto, na herança (ou modelo) que deixaremos aos nossos filhos. Afinal, é sabido que não se pode virar as costas para o espelho da hereditariedade.
E assim a vida vai seguindo, entre vizinhas sem dentes, filhos dependentes e pessoas que sobrevivem ao “dever” mas com seus corpos e alma engessados. Mas há também as Éricas cujos destinos se redimiram a tempo dando-lhes a chance de tornarem-se livres caminhantes de si mesmas na busca da liberdade, alegria e felicidade de viver.

Eliane Berenice F. Luconi

Martha Medeiros lê Jung – “O Lado Mal Dito de Jung”

“O Lado Mal Dito de Jung” é o título dado ao XIX Congresso da Associação Junguiana do Brasil, que ocorreu em 2011 na cidade de Gramado, cuja proposta é repensar a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung a partir de escritos de difícil leitura, herméticos, ainda hoje mal compreendidos até mesmo por estudiosos e profissionais de sua psicologia. Assim, refiro o lado mal dito como título deste texto, por ser este também uma releitura do pensamento de Jung, que inspirou a coluna de Martha Medeiro sobre o AMOR, no domingo dia 10 de julho de 2011.
Antes de entrar nas questões propriamente ditas que me levam a escrever este texto, gostaria de dizer que ler a coluna de Martha Medeiros faz parte de meus domingos, assim como de muitas pessoas com quem convivo semanalmente, inclusive em meu consultório de psicologia. Na criatividade de suas colunas, passeamos pelo cotidiano de maneira poética, divertida e instigante.
No domingo citado, algo em especial me chamou atenção, o nome de Jung estava lá, na coluna de Martha, não somente sendo citado, mas ainda como referência para suas reflexões sobre o AMOR.
Várias perguntas suscitaram em mim, entre elas:
Por que fui surpreendida ao encontrar o nome de Jung na coluna de Martha Medeiros? Afinal, não foi Jung um dos maiores pensadores da psicologia dedicando mais de 60 anos de sua vida aos estudos e pesquisas que culminaram num legado riquíssimo deixado em sua Psicologia Analítica? Por que Jung, o grande psiquiatra que dividiu com Freud os primórdios da psicanálise causa tanta surpresa ao ser referido em um dos principais veículos de comunicação do Rio Grande Sul? Por que raramente Jung é citado como referência nas temáticas debatidas em jornais, televisão e revistas? E as perguntas não pararam por aí.
Por que Jung é também deixado de fora dos portões acadêmicos? Por que Jung não está incluído no currículo das faculdades de psicologia? E por que o próprio Conselho Regional de Psicologia fecha os seus canais de divulgação aos eventos de Psicologia Junguiana? Por que é cada vez maior o número de alunos de psicologia interessados em conhecer a psicologia Junguiana enquanto o acesso acadêmico se mantém praticamente inacessível comparado as demais teorias psicológicas?
Não sei, ficam as perguntas, mas por agora me satisfaço em aproveitar esta oportunidade para pensar as questões do AMOR a partir do que pensou Jung, e do que pensou Martha do que Jung pensou…
A frase de Jung que inspirou Martha Medeiros…
“O amor da mulher não é um sentimento, isso só ocorre no homem, mas um anseio de vida, que às vezes é assustadoramente não sentimental e pode até forçar seu autossacrificio.”
A autora…
“Peraí. Isso é sério. O que eu entendi dessa afirmação é que o homem é o único ser capaz de sentir um amor genuíno e desinteressado.”
“Para Jung, o amor da mulher é mais “um anseio de vida’” do que um sentimento”
“…o amor maduro e integro da mulher pode então se conectar com o amor maduro e integro do homem que sempre sentiu.”

É importante lembrarmos que Martha afirma ser este o seu entendimento das palavras de Jung, e que o faz a partir de uma única frase, inclusive se desculpa por isto. É igualmente importante deixar claro que o objetivo deste texto não é corrigir nem mesmo criticá-la, apenas me proponho a revisar o pensamento de Jung a partir do pensamento de Martha. É deste lugar que parto para as minhas reflexões, buscando nas Obras Completas de Jung entendimento para os vários questionamentos suscitados pela matéria, não somente em mim, mas em diversas pessoas que me procuraram tentando entender o que realmente Jung queria dizer nesta afirmação sobre o amor. Não podemos esquecer que é muito tênue a linha que diferencia o que uma pessoa diz, do entendimento que damos a este dizer.
No texto de 1927, Jung faz uma retrospectiva histórica das transformações vividas por homens e mulheres desde a Idade Média, referindo que ambos passaram por uma transição significativa que poderia até mesmo ser considerada uma virada na história. A mulher deixa aos poucos de ser a sombra do homem, adquire consciência de si mesma, percebe que o homem não é mais o “seu senhor”. Ela sabe o que quer, passa a tomar decisões objetivas. É a porção masculina que começa a se desenvolver na personalidade da mulher.
Segundo Jung, masculinidade significa atitude, ação, acertividade, saber o que se quer e fazer o que for preciso para atingir sua metas. A independência, a capacidade crítica e objetividade conquistadas por este conhecimento, por esta nova consciência se tornam valores muito positivos, que uma vez conquistados jamais querem ser perdidos. Contudo, é importante que se atente ao fato de que a masculinidade e suas características sempre estiveram presentes na personalidade da mulher, mas em sua instância inconsciente, ou seja, um potencial a ser reconhecido, integrado e desenvolvido no percurso da vida. Isto nada tem a ver com a masculinizacao psíquica da mulher, um enrijecimento, ou racionalismo masculino capaz de fechar o acesso aos seus próprios sentimentos trazendo-lhe sérias consequências e danos de diferentes ordens. Enquanto os aspectos masculinos estão presentes como sementes em potencial no inconsciente da mulher, no nível consciente, a seu dispor, desde sempre, estão os sentimentos, a abertura para as relações, reflexões, cuidado e sensibilidade diante a vida.
O homem, em contrapartida, precisou abrir-se para os sentimentos, aquela parte de compreensão feminina (a anima denominada por Jung), um potencial inconsciente e estranho a ele. É a sua feminilidade que nada tem a ver com o “homem efeminado,” mas com sua sensibilidade e habilidade em lidar com diferentes aspectos da vida, as emoções, as relações, a habilidade em olhar, cuidar, proteger, refletir, sentir. No entanto, é relevante não esquecermos que ambos os aspectos, a feminilidade masculina e a masculinidade da mulher são aquisições que precisam ser desenvolvidas, aspectos novos na personalidade, e por isto Jung as chama de inferiores, o que para ele significa ainda incipiente, chegando “há pouco” do inconsciente e como tal muito suscetível às contaminações e dominações desta parte desconhecida e de tão grande influência na vida de uma pessoa.
Se por um lado estas novas aquisições poderiam representar um amadurecimento em ambos os sexos, aprontando-os para um encontro e relação madura com seus pares, por outro não é o que a realidade nos mostra. De um lado temos a mulher masculinizada, cheia de opiniões inquestionáveis, tomando suas descobertas como verdades absolutas, estandartes do poder, e do outro o homem aberto aos sentimentos, mas freqüentemente afastado de sua masculinidade natural. Resultado? Ambos infelizes. O filósofo brasileiro da atualidade Luis Felipe Ponde diz que as mulheres emancipadas e donas de seu nariz estão mesmo é loucas de solidão, referindo que a emancipação feminina criou problemas muito sérios para as mulheres. Os homens aprenderam a ser sensíveis, mas uma mulher não exitaria em dar um pontapé no homem que se mostre sensível demais.
Estes são conflitos que acompanhamos diariamente nos consultórios de psicologia. Encontramos homens sensíveis atraídos e sob o domínio de mulheres animosas (animus é o nome escolhido por Jung para referir-se ao aspecto masculino na mulher). Por outro lado temos mulheres enfurecidas por não encontrarem em seus homens a força necessária para aquietarem os seus animus e submetê-los a uma análise crítica, capaz de transformar a raiva em ação saudável, uma ponte que a conduza a uma nova determinação frente aos seus objetivos de vida. O que o amor da mulher quer é o homem inteiro, nos diz Jung.
Com certeza não podemos generalizar e nem é esta a intenção, mas também não podemos menosprezar este aspecto sombrio que acompanha a evolução de homens e mulheres ao longo da história. A realidade nos mostra homens e mulheres seguindo para os relacionamentos com suas novas descobertas, mas muitas vezes atrapalhados e ainda impactados com seus efeitos.
De acordo com estas reflexões, podemos pensar que na citação de Jung “o “amor da mulher não é um sentimento que isso só ocorre no homem” ele não está afirmando que o homem é o único ser capaz de sentir e ser o feliz proprietário do amor genuíno e desinteressado. O que Jung diz, isto sim, é que o sentimento é uma nova descoberta na psique do homem, um algo novo capaz de acrescentar-lhe grandes valores em suas relações. Também não sugere que a mulher não é movida pelos sentimentos em suas buscas amorosas. É de Jung mesmo a afirmação que o sentimento é parte inerente à personalidade da mulher, natural e própria ao ato de relacionar-se feminino.
Sim, a frase é esta, “O amor da mulher não é um sentimento, isso só ocorre no homem, mas um anseio de vida, que as vezes é assustadoramente não sentimental e pode até forçar seu autossacrificio.” Jung realmente faz esta colocação, mas ao ser recolocada no seu contexto adquire outro significado. Assim podemos entender que o amor da mulher não é mais movido somente pelo sentimento como nos diz Jung, mas também pela consciência que a impulsiona na busca de realização pessoal, amadurecimento e vontade de viver de forma mais íntegra e profunda, tarefa esta muitas vezes projetada e cobrada de seu parceiro. Esta nova aquisição pode ser vista como um remédio na psique da mulher, mas que precisa ser bem administrado e ingerido cuidadosamente, pois o remédio que cura também pode matar.
Em sua retrospectiva histórica sobre as transformações experimentadas por homens e mulheres, o que percebemos é Jung se aventurando a analisar não somente as aquisições conquistadas por ambos, mas também os efeitos e perigos que a acompanham. Os sentimentos descobertos pelo homem, estão longe de agradar a mulher e de conduzi-lo ao amor maduro. Tal como uma criança, ele necessita crescer a cada dia, caso contrario pode levá-lo ao amor ingênuo e sentimental, como tem nos mostrado a prática clínica. Por outro lado, a mulher que já traz os sentimentos na sua bagagem, de repente descobre que para além deles existe um mundo de possibilidades, conquistas que podem encantá-la e seduzi-la em demasia. Apropriam-se do poder e perdem no amor. Se não preservar os sentimentos, a mulher corre o risco de se masculinizar, e nesta terra de distorções, poder, ingenuidade e insegurança ninguém ganha. Onde predomina o amor não há necessidade de poder e onde o poder predomina o amor se retira, eles não ocupam o mesmo espaço. Por outro lado, com a chegada do sentimentalismo masculino as mulheres passam a desvalorizar seus homens.
Finalizo agradecendo a autora pela oportunidade oferecida ao seu público de ler Jung e com isto a possibilidade do desejo de conhecer um pouco de sua psicologia. Coube a mim o “convite / compromisso” de aprofundar os estudos de Jung. Impossível não fazê-lo! Acho sim Martha que Jung atenderia prontamente o seu pedido de desculpas, mas acredito também que ele lhe mostraria muitos outros lados da mesma questão.

Referencias Bibliográficas:

SCHIESS, Marianne. Sobre o Amor. São Paulo. Ed. Idéias &Letras. 2005
JUNG, Carl Gustav. Psicologia em Transição. Petrópolis: Vozes, 1993

Eliane Berenice Frota Luconi
Psicóloga, analista Junguiana, membro fundadora e presidente do Instituto Junguiano do Rio Grande do Sul. Diretora da Associação Junguiana do Brasil. Membro da IAAP (Internacional Association for Analytical Psychology)
niceluconi@ijrs.org.br.

Quando a vida nos surpreende

Naquele dia, após longas horas trabalhadas num final de semana, eu estava certa de como seria o pouco tempo de descanso que me restava: chegar em casa, jantar, um bom filme e uma noite de sono reconfortante me renovariam para a labuta da semana seguinte.
Mas tudo aconteceu de maneira muito diferente, meu projeto foi interrompido e bruscamente virou ao avesso. Em poucos minutos lá estava eu no interior de uma ambulância levando a minha mãe para a “emergência” de um hospital onde iniciaria a saga (para ela e para mim). Sim, após longos anos acompanhando a doença dos meus pais idosos, eu podia ter a certeza de que naquela noite, dentro de uma “emergência”, tudo ocorreria ao inverso dos meus planos para os momentos restantes do final de semana.
Ainda no interior da ambulância lembrei de algumas frases de Jung em que ele fala sobre a existência de Deus. Lembrei um texto, onde ele diz que reconhecia a existência Dele naqueles momentos em que algo surge “repentinamente” na vida, alterando os planos, desviando caminhos e jogando o indivíduo ao inesperado. Perguntado sobre sua crença em Deus, ele respondia simplesmente: “Eu sei”. Esta lembrança trouxe um certo alívio àquele momento, uma espécie de bálsamo que permaneceu comigo re-significando o tempo naquele lugar onde os minutos são insuportavelmente incontáveis e desesperadamente necessários.
E eu, que há poucas horas experimentara o limite do cansaço, de repente me via frente ao inesperado, jogada à sorte das mais diversas emoções. O cenário de entrada já anuncia o porvir. Ali, o sofrimento humano apresenta-se sem constrangimento. A burocracia e as regras se impõem à gravidade do caso predizendo a submissão que sofrerão todos os indivíduos que dele dependem. Um lugar onde nos deparamos com o adoecer nas mais intensas e diferentes manifestações: as feridas que sangram, as secreções, o cheiro, as agulhadas, o choro, a dor, as lamurias, queixas, as emoções, o cansaço, a tristeza, o medo. E porque não dizer, o contorno da morte?
Enquanto tudo isto acontece e se confunde num ir e vir de pessoas à nossa frente…o tempo não passa, a angustia aumenta, a burocracia se arrasta e a empáfia humana se revela nos levando ao limite dos limites – a humilhação – a afronta provocada por alguns profissionais que se comunicam através de palavras evasivas, perfiladas num olhar gélido e indiferente ao outro. Nestes momentos sentia o meu corpo enrijecer na tentativa de sobreviver aos desafios, enquanto a “presença de Deus” (na frase lembrada) marcava a diferença de cada minuto. Numa cadência silenciosa e profunda entendi que fixar atenção nas vivências, registrar os instantes de cada fato, mergulhar na realidade simbólica de todas as coisas, na possibilidade da imaginação em profundidade e na exploração das imagens, ajuda extraordinariamente a encontrar sentido no cotidiano de nossas próprias vidas, nos aproxima da imanência de Deus em sua capacidade de surpreender!
Então…após 5 horas em pé, já quase sem sentir as pernas, enfim eu consegui uma cadeira para sentar e por poucos segundos pensei que estava me aproximando do paraíso. Foi assim que o dia amanheceu, a minha mãe conseguiu um leito e eu pude, já mais tranquila com a sua saúde, voltar para casa.
Mas…neste momento outro acontecimento “inesperado” se impôs à minha frente, me surpreendendo e alterando mais uma vez o sentido dos fatos. No caminho em direção ao meu carro, passei na frente do Hospital da Criança e vi uma menina com menos de um ano de idade, ligada a um tubo de oxigênio. Ela estava no colo da mãe retornando para casa, o que mostra já depender de um aparelho para respirar. Esta cena tocou profundamente a minha emoção e me fez – mais um vez – enxergar a vida em outra perspectiva. Me mostrou que por mais triste que eu estivesse, por mais exausta e preocupada, nada se comparava ao sofrimento de uma criança doente e de uma mãe que a carrega. Fiquei profundamente agradecida, pois afinal a minha vida estava andando no ritmo harmonioso da natureza, bastava eu ter esta consciência e seguir o seu compasso. Naquele momento eu tive certeza disto e agradeci.
Viver esta história como uma “experiência de Deus”, um “saber” da Sua presença na interioridade de todos os fatos, sem ter que afirmar verdades ou adentrar nos territórios da metafísica, me reportou a Santo Agostinho e sua compreensão do tempo, onde diz: “Se não me perguntarem o que é o tempo, eu sei o que é o tempo, mas se me perguntarem o que é o tempo, eu não sei o que é o tempo.” E as coisas assim se acomodaram em mim. Crer e “saber” não são faces da mesma moeda.

Ebony & Ivory

 

index.php

Ebony & Ivory” é uma canção de 1982, composta por Paul McCartney e interpretada com Stevie Wonder. A música utiliza as teclas do piano, como metáfora da integração e harmonia racial. Faz uma crítica social ao racismo e ao mal que ele causa às pessoas. A partir desta bela analogia com as teclas brancas (Ebony) e pretas (Ivory) que compõem o teclado de um piano, nos questionam: Se as teclas brancas e pretas podem viver em perfeita harmonia no teclado de um piano, porque nós seres humanos não podemos? Teclas diferentes, tons diferentes e posições diferentes, convivem no mesmo teclado, compondo ritmos, composições e melodias de forma criativa e significativa. Por que nós, não?
Paul McCartney e Stevie Wonder nos colocam frente a uma questão profunda e de grande sentido à vida humana, nos convidando à reflexão. Neste espaço, não é minha intenção encontrar e sugerir respostas, porque reconheço o grau de subjetividade que ela contém. Busco, isto sim, dar uma atenção especial e cuidadosa à pergunta feita por eles, pois penso que as perguntas, muito mais do que as respostas, nos conduzem às profundezas de nosso ser, onde verdadeiramente somos nós mesmos.
Quando falamos em harmonia, somos conduzidos a um espaço de grande subjetividade e imaginação. Cada pessoa traz consigo uma imagem, um referencial próprio do que seja harmonia. Viver em harmonia, ter uma casamento harmônico, uma família harmoniosa, harmonia no trabalho, nas amizades. Falamos de harmonia mundial, entre as raças e nações, harmonia musical e tantas outras quantas forem as variantes da vida.
O dicionário online Wikipedia relaciona harmonia com o conceito clássico de beleza, proporções e idéias de coerência e conformidade , mas curiosamente, na mitologia grega, Harmonia é filha do casal antagônico, Ares e Afrodite, trazendo portanto em seu código genético, o gene da guerra e o do amor. Etimologicamente, harmonia faz parte de uma vasta e complicada união de palavras, que em síntese significa “o acordo e junção das partes”, muitas vezes contraditórios. E assim, encontramos inúmeros significados para harmonia, mas é da perspectiva da psicologia Junguiana que me proponho a tecer algumas considerações.
Uma das contribuições mais importantes de Jung para a psicologia, foi o conceito de sombra. A definiu como aqueles aspectos da personalidade que uma pessoa não tem desejo de ter, mas que em contrapartida, guarda em sua polaridade oposta, aspectos positivos ainda não desenvolvidos na personalidade, podendo conferir-lhe criatividade, brilho e profundidade. Jung entende todas as formas de vida como uma luta entre as forças antagônicas que geram tensões no indivíduo, na tentativa de induzi-lo ao crescimento pessoal e ao auto-conhecimento. Alerta que os pares de opostos são princípios universais de toda a criação à espera de reconhecimento e integração. Assim, os aspectos primitivos, reprimidos e rejeitados pelos padrões estéticos e morais da cultura, como o mal, a inveja, o ciúme, a raiva, o medo, o egoísmo, o ressentimento, convivem lado a lado com o bem, o belo, o sensível, a generosidade e todos os atributos que nos qualificam, compondo assim, a totalidade da personalidade e quiçá uma bela melodia.
Para Jung a chama da vida se acende nos opostos, pois é de acordo com a honradez que nos colocamos frente às nossas dualidades, que poderemos conquistar o privilégio de assistir o nascimento da Harmonia em nossa vida. Ali, aonde se reúnem o amor e a guerra, o belo e o feio está o berço de Harmonia. Esta é uma obra para a vida toda talvez a maior da vida humana. O desafio do indivíduo confrontar-se, aceitar e integrar à personalidade consciente, os seus aspectos sombrios, e assim transformar-se não em um homem perfeito, mas em um homem mais feliz, que vive em harmonia consigo mesmo. Certamente esta é a mais pura forma de harmonia, aquela que emerge do trabalho pessoal, interno e profundo do confronto e da responsabilidade do indivíduo consigo mesmo, e só então, ele poderá almejar viver em harmonia com o mundo à sua volta.
Jung é enfático ao afirmar que esta não é uma obra fácil. Não podemos “forçar” uma harmonia, direcionado-a a padrões, regras, dogmas, teorias, técnicas ou receitas mágicas. Este “forjar” afasta o indivíduo das condições inerentes à sua personalidade resultando em uma harmonia não criativa e fugaz. Uma falsa e descolorida harmonia. Viver em harmonia não é alcançar uma meta que buscamos incansavelmente, mas um trabalho árduo que impele o homem a unir a sua mais profunda natureza aos caminhos da vida, da realidade, dos conflitos e desafios.
Da mesma forma, no mundo da música, a harmonia não assume um caráter puramente romântico, de beleza e similaridade. São os diferentes tons, ritmos e arranjos musicais que se reúnem num teclado, dando vida e harmonia à uma melodia. Paul McCartney e Stevie Wonder nos cantam esta realidade caminhando sobre as teclas brancas e pretas de um piano. Nos alertam para a realidade das diferenças. Quem sabe também nós seres humanos, se nos apropriarmos criativa e cuidadosamente das diversidades poderemos conquistar uma vida mais harmônica, que seja “tocada” ao som da nossa própria melodia?

Por Eliane Berenice Luconi

Eu estive lá

index.phpEle se chama Vergilínio, ela Vanilda Maciel dos Santos, os irmãos que andaram pelos caminhos da minha infância na cidade onde nasci, e a imagem deles vinda em minha memória, acordou as minhas lembranças!
Na verdade, seus nomes foram uma surpresa, pois jamais os imaginei diferentes de “Ceguinha e Gila”, os irmãos que frequentaram o pátio da minha casa e circulavam pelas ruas da cidade.
Conta a história da minha memória – e pretendo ser fiel a ela nesta lembrança – que a “Ceguinha” era uma menina que recusava-se a caminhar por medo e insegurança, desde que teve uma fratura na perna devido a uma queda e que já nascera cega. Por isto era transportada pelo irmão em uma carrocinha de madeira, uma espécie de casa móvel para ambos.
Naqueles tempos vivíamos no interior, sem percebermos o privilégio da liberdade. As nossas casas não eram cercadas por muros, cercas, nem trancadas a cadeados. Qualquer proteção que tivessem, ficava sempre entreaberto algum lugar por onde amigos, vizinhos e os próprios moradores pudessem entrar e sair sem o peso e o martírio da montoeira de chaves que carregamos hoje em dia, pesando nossas bolsas como fiéis companheiras do estresse, dores e tendinites que tanto nos incomodam e “desacomodam”.
Assim, nesta liberdade de ir e vir, a Ceguinha e o Gila nos visitavam praticamente todas as tardes em busca de café preto e pão d’água, o lanche preferido por eles e preparado por minha mãe que já os esperava.
Suas chegadas não eram anunciadas pelo toc-toc na porta de entrada, nem pelo som da campainha. Não, pouco se usava estes recursos no interior. Como já disse, os espaços eram abertos e daí eles se faziam anunciar através das músicas cantadas em alto e bom som pela Ceguinha (quando estava de bom humor), ou pelos xingamentos e brigas com o irmão, quando estava brava e contrariada (iguallmente em alto e bom som). A verdade é que de uma forma ou de outra, eles se faziam anunciar ao entrarem pela lateral da casa, até o interior de nosso pátio.
Ali faziam o lanche, a Ceguinha terminava os seus versos e cantorias – muitos eram cantados de improviso – onde transmitia dizeres e recados aos ouvintes, ou dava cabo às incansáveis brigas com o irmão, que em minhas lembranças, pouco se defendia. Ela era temperamental e desconfiada, mas isto não impedia que nos gostássemos muito, nos divertíssemos e desfrutássemos de belos momentos, principalmente os que nos empenhávamos com esmero, na tentativa de faze-la andar novamente.
Esta é a história da Ceguinha e do Gila em minha memória (…Eu estive lá). Simples assim. Sem maiores informações nem dados tão precisos mas que certamente alegrou muito meus dias em peculiaridades e afetos.
Contudo, os fatos não terminam aí pois esta história (vivida e relembrada) acordou as minhas lembranças me chamando para um ir e vir de emoções e conexões.
A maior parte dos meus dias, me ocupo “escutando histórias”. Escutar é certamente um grande desafio ao psicólogo. Somos treinados para compreender, interpretar, curar, mas é sobretudo a arte da escuta – cuidadosa, atenta aos detalhes, perspicaz às entrelinhas, delicada – que precisamos aprimorar todos os dias.
Por isto, não me canso de alertar aos jovens terapeutas para jamais esquecerem, que neste mundo viemos dotados de uma boca e dois ouvidos. Sugiro que cada um pense no sentido que inspirou a natureza a tomar tal decisão. Sim, porque podemos estar certos que na natureza, tudo tem um sentido e ela nos dá inclusive, a capacidade para pensarmos a respeito. Virar as costas a este tributo que recebemos (do pensar-sobre…), faz com que a vida siga num simples “dito-pelo-não-dito”, e que as histórias transitem em nossas memórias como meras “repetições”. Há um vazio enorme no homem que não se relaciona com o sentido da vida, com o pensar-sobre… E isto nos faz matutar que se escuta e sentido andarem lado-a-lado, podem enriquecer a vida conferindo-lhe multiplicidade e profundidade. No entanto, não existe nenhuma teoria psicológica que garanta uma fórmula para a busca de sentido, e nada que nos obrigue ao “pensar-sobre”. Cabe a cada um, a seu modo e tempo, a própria escolha (ou não)
Neste mergulho na história de minha infância, “escutei” de minha voz interna, que muitas idéias, sonhos e fantasias haviam se agrupado ao redor da imagem dos irmãos, uma série de sentimentos e memórias foram postas a descoberto, brotaram emoções, saudades infantis, compondo um cenário psíquico propício ao devaneio, que me ocupou por dias. “Escutei” a voz da emoção que se desprendeu de cada detalhe, de cada lembrança, re-contei e re-visitei a história várias vezes, dando vida aos personagens. E tudo isto, fez sim, um enorme sentido para mim, enriquecendo os meus dias, alimentando a minha alma.

A psicologia me ensinou a ver este movimento livre e ágil de viver as lembranças e emoções como uma capacidade criativa da mente humana de fazer “combinações”. O material é o mesmo, os fatos e as histórias se repetem, o que muda e evita que a vida seja uma mera “reprodução” e seqüência de fatos, são as “combinações” que fazemos ao redor deles, mas para que tais ”combinações” atinjam o seu propósito, é necessário que sejam acompanhadas pela sensibilidade e pela emoção. Caso contrário, desprovidos de emocionalidade corremos o risco do
saudosismo, vitimização e tantas tantas petrificações que nos aprisionam ao passado.

E à luz de tais pressupostos vamos tecendo combinações e pensando…De que maneira o passado se conecta com o presente? Como as memórias nos “afetam”? Qual a nossa disposição para sermos “afetados” pelas imagens? E os sentimentos que se desprendem das histórias cada vez que as visitamos? Que mensagens as lembranças nos trazem? E as emoções do passado, como podem mexer o presente e influenciar o futuro?
Enfim…a riqueza está na escuta, no sentido, na emocionalidade . Que cada um teça as suas próprias “combinações”, pois no mundo das histórias a gente muitas vezes encontra o que não procura e alcança o inesperado!

Eliane Berenice Frota Luconi

Surf, um desafio aos pais

Lá se vão longos anos de minha vida em que me ocupo (e preocupo) com o Surf. Que ironia, logo eu que só não temo a água do chuveiro – todas as demais representam uma grande ameaça para mim: dois filhos surfistas!
Nestes anos todos, devo dizer que me envolvi (nos envolvemos) em inúmeras situações. Algumas hoje me fazem rir, outras nem tanto, de algumas me arrependo, mas a grande maioria me mostra que vivi!
Fato interessante aconteceu certo dia em que meu filho não voltou do surf para almoçar como era de costume. Eu consegui “suportar” e me segurar até a metade da tarde, quando nada mais impediu que eu corresse até a praia. Lá chegando perguntei a todos os amigos se haviam visto o meu filho, e todos confirmaram que ele continuava no mar. Isto evidentemente piorou o meu desespero. Como ele poderia sobreviver a tantas horas no mar, sem almoço? (claro que na minha imaginação de mãe). Afinal, estava lá desde manhã. Poderia ter desmaiado na água e se afogado? Estaria morto?
Bem, naquele momento eu já estava desesperada, e não vi outra saída a não ser pedir ao primeiro amigo do meu filho que enxerguei, que entrasse no mar para encontrá-lo. Este amigo, com certeza deveria ter uma mãe parecida comigo (ou com todas mães?) e reconhecer muito bem atitudes desta natureza, pois rapidamente atendeu o meu pedido e entrou mar adentro com sua prancha.
Eu e minha pouca altura, juntamente com meu desespero, já estávamos subidas numa duna de areia, o que certamente ampliaria o meu campo de visão e ajudaria naquela interminável espera. Mas Deus é pai (especialmente das mães em desespero) e quando meu coração só não tinha saído pela boca porque os meus dentes estavam cerrados, eu enxerguei meu filho saindo do mar com o “bondoso” amigo, que me salvara de um enfarto. Bem, eu poderia ocupar um longo espaço aqui, contando os próximos acontecimentos e o desfecho desta história, mas o mais importante que posso dizer é que o meu filho estava vivo!
Histórias como esta e tantas outras foram me fazendo (obrigando?) a olhar com uma atenção diferente para o Surf, para os meus filhos-surfistas e seus amigos na praia. O que passei a observar, foi aos poucos me sossegando e acalmando o meu coração, quando os perdia de vista no mar.
A psicologia teve um papel crucial neste enredo, me ajudando a compreender um pouco mais, “parte dos meus medos”. Partindo do princípio de que o mar é um dos principais símbolos do inconsciente, podemos inferir que os jovens ao se lançarem no mar estão no sentido psicológico jogando-se no grande mundo do inconsciente, contando basicamente, com suas pranchas e habilidades para viverem a grande aventura de deslizar sobre as ondas. No entanto estes recursos são pequenos se comparados à imensidão das águas – e nós pais sabemos disto – e daí a insegurança nos invade.
Carl Gustav Jung, grande estudioso da psicologia do inconsciente foi incansável em dizer que precisamos entrar cuidadosamente nas áreas do inconsciente, que ele jamais pode ser “provocado com vara curta” sobre o risco de nos machucarmos seriamente. Com isto queria alertar para a atitude cautelosa e responsável que todos devemos assumir no confronto com as fantasias, com os sinais e os símbolos vindos deste misterioso lugar. Alertou até mesmo aos psicoterapeutas que tomassem cuidado ao trabalharem conteúdos profundos e ainda desconhecidos de seus pacientes. Desta maneira, os perigos se sobrepõem e anulam o prazer de nossas escolhas (e esportes inclusive) sempre que a audácia, a falta de limite e de responsabilidade dirigirem as nossas ações. Assim entendo a apreensão que sentimos frente ao grande desafio que nossos filhos-surfistas nos infligem: estarão eles respeitando e atentos às regras de convivência impostas pelo mar? Sei que jamais saberemos ao certo e que nenhuma certeza nos livrará deste receio, mas as histórias que vivemos – meus filhos e eu – foram me ajudando a desenvolver um olhar renovado e mais receptivo para o Surf, na busca de ver e acolher o que ele poderia me mostrar que eu ainda não enxergara.
Foi aí que percebi que a grande maioria dos surfistas reconhecem e respeitam (outros peitam) os sinais que o mar lhes envia, e que mesmo eu não conhecendo esta linguagem precisava estar aberta para aceitar a escolha dos meus filhos, sendo ou não, o esporte de minha preferência para eles.
Me chamou atenção, que os surfistas (claro, não todos) cumprem a seu modo, um ritual de entrada no mar. Alongamentos, pequenas séries de exercícios, protetor solar, manutenção das pranchas, e este preparo muitas vezes encerra na pequena reverência sagrada do sinal da cruz. Entendi, que de alguma maneira, eles sabem sim que entrar no mar é um desafio que requer cuidado, preparo, coragem e “proteção”, além é claro, de muito gosto e vontade.
Estou certa que estas questões não fazem parte (de maneira consciente) do dia-a-dia dos surfistas, mas acredito que elas estão implícitas em suas naturezas, e se expressam nos rituais que acompanham o “banho”. Subsiste um saber intuitivo/instintivo que reconhece o espaço sagrado do mar, revelado no preparo pessoal, no simples e rápido sinal da cruz, ou nos poucos segundos de silêncio que antecedem cada “entrada”.
Assim, os surfistas entram e saem do mar com a graça de Deus, e que bom se eles puderem parar por poucos segundos para pensar que o Surf como todos outros esportes e atividades da vida, carregam em seu interior, símbolos psicológicos muito fortes, desde o início dos tempos, capazes de lhes presentearem com ensinamentos que ultrapassam as técnicas, habilidades e a desenvoltura física.
Mas, e nós pais?
Bem, esta é uma longa história. Cada um vive e conta a sua!

Eliane Berenice Frota Luconi

Chorar de rir

Dias atrás sentei em um pequeno restaurante japonês no shopping próximo à minha casa, no intervalo do trabalho. Desejava comer um sushi longe do barulho de pratos da praça de alimentação. Ao meu lado encontrava-se um grupo de jovens que imaginei serem advogados: primeiro, pela forma de vestir, o rapaz usava terno e gravata e as moças roupas diversas porém iguais na formalidade, suspeita que se confirmou nos rasgos de conversa que chegavam até a minha mesa.
O tom era animado, mas o que realmente me chamou a atenção é que eles riam muito. Um olhar de soslaio me fez ver que o rapaz “chorava de rir”, secava os olhos entre o bate-papo animado. Esta cena cutucou o meu pensamento, levando-me a imaginar. Olhei em volta, todas as mesas ocupadas, casais, pessoas sozinhas, grupos de amigos, colegas, alguns simplesmente comendo, outros conectados pelos seus iPhones trocando mensagens com alguém, algumas aparências preocupadas, outras taciturnas, e eu ali, olhando ao redor, degustando o meu sushi ao som animado da mesa ao lado, envolta em meu devaneio que transcorria entre os desconhecidos do restaurante.
Admirei aquele “chorar de rir” durante um simples almoço semanal, no intervalo do trabalho, em um pequeno restaurante bem iluminado, com mesas muito próximas umas das outras – na verdade quase coladas. Nenhuma penumbra, álcool, cigarro ou qualquer sintético, nenhum som musical, nenhuma paquera aparente, perfil dos lugares aonde mais comumente as pessoas se liberam em risos e descontração. Simplesmente um lugar de passagem para o almoço, tudo muito claro; e ali se encontrava o grupo de advogados conversando animadamente sem nenhuma demonstração de preocupação por dali a poucos minutos precisarem voltar aos seus escritórios, onde possivelmente encontrariam uma pilha de processos aguardando pareceres que muitas vezes definem a vida de uma pessoa. Eles simplesmente se encontravam ali, conversando animadamente, contando histórias que os faziam “chorar de rir”.
Mas o meu imaginar não permaneceu no mundo dos advogados, pois fui cutucada novamente, por muitas imagens e questionamentos que se abriram em minha frente: O que nos distancia desta qualidade descontraída do rir? Por que rimos tão pouco em nosso dia-a-dia? Por que é mais freqüente almoçarmos falando em problemas, projetos, programações de trabalho, família, finanças, notícias, cursos, ou em qualquer assunto que envolva nosso dia-dia, passado ou futuro, ao invés de simplesmente pedirmos licença a tudo isto e nos entregarmos ao intervalo? Por que dificilmente nos entregamos à alegria do momento, quer estejamos sozinhos, entre amigos, e quem sabe até à possibilidade de chegarmos ao “chorar de rir”? Por que não aprendemos a separar um momento do outro para então podermos descobrir o valor e as possibilidades de cada espaço da vida? Por que não descobrirmos a riqueza renovadora “do intervalo” por menor e mais simples que este seja? Seria esta uma arte a aprendermos para possivelmente vivermos melhor?
Imediatamente lembrei-me dos antigos alquimistas que trabalhavam em seus laboratórios na busca da transmutação dos metais. A alquimia foi a ciência principal da Idade Média, precursora da química e da medicina. Partia do princípio de que todos os metais evoluem até virar ouro. Os alquimistas tinham vários objetivos na sua prática. Buscavam, em laboratório, acelerar o processo da natureza, transformando o metal simples em ouro incorruptível, mas também, entre outros objetivos, a obtenção do Elixir da Longa Vida, um remédio que curaria todas as coisas e daria vida longa àqueles que o ingerissem.
A alquimia ocupou um lugar de destaque nos últimos 10 anos da vida de Jung, quando debruçou-se exaustivamente sobre textos herméticos, na tentativa de decifrar os símbolos ocultos nas palavras. Mesmo que tal dedicação tenha acontecido no entardecer de sua vida, logo percebeu que a alquimia sempre estivera presente em sua caminhada, de forma silenciosa, inspirando as suas descobertas a respeita da psicologia do inconsciente, da vida humana e seu processo de transformação.
Jung foi pioneiro em mostrar ao mundo que o simbolismo alquímico mantém uma estreita ligação com a capacidade de transformação da psique, através do processo que denominou individuação. Esta obra difícil, de ampliação de consciência, possibilita o amadurecimento da personalidade, gera sentido à existência, levando o indivíduo a sentir-se bem consigo mesmo, o que difere absolutamente de viver em estado paradisíaco de felicidade, condição que não corresponde à vida humana.
Inúmeros eram os recursos alquímicos utilizados pelos alquimistas em seus laboratórios, operações, utensílios, textos, substâncias, mas eu gostaria de dar um destaque especial à operação chamada separatio. Tratava-se da arte da separação da prima matéria, composta inicialmente por elementos irreconciliáveis, ainda caóticos que deveriam passar pelo processo de discriminação de suas partes componentes, produzindo-se uma ordem no caos e assim as condições fundamentais para que a transformação ocorresse. Este processo de separação se repetiria tantas vezes quanto fosse necessário, como condição de continuidade ou de estagnação da transmutação do metal.
O significado psicológico da separatio pode ser visto como a arte de separamos a nossa natureza, que desde sempre já contém a sua própria distinção, do mundo, de tudo que nos cerca e rodeia. É um processo de conscientização de nós mesmos, que nos permite sair da indiferenciação e simbiose que muitas vezes regem a vida e as relações em toda a sua abrangência. Tudo o que está “fora” de nossa natureza precisa primeiramente passar pela separatio para que a obra de amadurecimento da personalidade prossiga, gerando uma vida mais saudável.
Para isto, não é preciso nos tornarmos heremitas, que vivem em retiro solitariamente. É no exercício da vida que nos experimentamos como pessoas, nos diferenciamos do outro, nos reconhecemos e transformamos. Separar é a possibilidade de nos enxergarmos separadamente, é reconhecer o que nos pertence e compete do que é da responsabilidade do outro. Nos separamos psicológica e emocionalmente de pessoas, mesmo das mais íntimas, do trabalho, preocupações, lembranças passadas ou projetos futuros na tentativa de um encontro mais intenso e profundo conosco mesmos. Na ausência desta consciência, nos tornamos escravos de pessoas, situações, pensamentos e problemas. Sobrecarregamos e somos sobrecarregados pelo caos determinante que invade sorrateiramente nossos espaços, nos transformando muitas vezes em pessoas ensimesmadas que desaprenderam até mesmo a qualidade do rir.
Certamente esta é uma grande obra, se almejamos nos tornar seres humanos mais livres e saudáveis, que podem usufruir dos espaços, deixando a manhã para atrás, a tarde que logo nos acumulará de trabalho, para daqui alguns minutos, e separando o que queremos que nos acompanhe no almoço, daquilo que não será bem vindo à nossa mesa. A separatio é uma arte que está a nosso dispor, nos ensinaram os antigos alquimistas. É preciso praticá-la se quisermos nos entregar descontraidamente aos intervalos da vida, e tal como os jovens advogados, chegar um dia a “chorar de rir” em uma mesa de almoço.

Por Eliane Berenice Luconi