Bullying e Individuação

Era uma vez…

Aqui vou falar de um pedaço da minha história, que mesmo não sendo segredo (o dividi com pessoas, quando acreditei que faria algum sentido), hoje me sinto confortável, e por que não dizer, no compromisso – primeiramente comigo mesma – de dividi-lo através da escrita. Segundo Jung, ele somente sentia-se em paz com as suas emoções, quando as “objetivava” através da escrita, desenhos, pinturas e em tantas outras formas expressivas que a arte lhe proporcionasse. A minha história aconteceu nos anos 70, aos meus 23-24 anos. Certamente hoje, já passados mais de 30 anos, eu ainda precise “objetivar e nomear” este capítulo da minha vida para, quem sabe, me sentir mais confortável e em paz com ele.

Cursando o final do curso de Psicologia, ainda restava a prática clínica e poucas cadeiras em meu currículo para eu diplomar. Esta prática transcorria no período de 1ano , e eu fui selecionada para realizar o estágio no local que eu havia priorizado em minha procura. Os três primeiros meses transcorreram muito bem. Período de adaptação ao local, de conhecimento da equipe – estagiários, médicos, enfermeiros, psicólogos – conhecimento das diferentes unidades de atendimento, e das rotinas que incluiriam o ano de trabalho.

Tudo corria bem até o 4º mês de estágio, quando eu engravidei do meu primeiro filho. (Detalhe importante: o serviço de psicologia no local atendia gestantes, puérperas e todas as variantes desta etapa da vida da mulher). Aqui inicia a história que eu quero contar (escrever). Embora eu já tenha falado nela algumas vezes, conforme disse anteriormente, somente agora eu compreendi que ela tem um nome – e o seu nome é Bullying – por isto eu preciso escrever. Para que não se pense que o Bullying é praticado somente com crianças e adolescentes por eles serem mais suscetíveis. Ele acontece sim com adultos que por motivos diversos se sintam incapazes, impossibilitados, constrangidos ou impotentes para se defenderem frente a pessoas algozes, poderosas e inconscientes. E mais, (o que é muito grave) o bullying também é praticado por psicólogos. Precisamos nos alertar a esta realidade!

Continuando. Naquele local, eu sofri bullying por 9 meses, nas suas mais diferentes manifestações: Bullying de abuso do poder, de autoridade, de interpretações frias, redutivas, críticas e destrutivas. Bullying em forma de “sugestões”, sobre os cuidados e cuidadores que eu deveria incluir em minha gravidez, (o que absolutamente não dizia respeito àquele espaço -profissional -. Muitas vezes as pessoas indicadas eram familiares dos indicadores). E mais, em poucos dias eu era cobrada se seguira ou não as “indicações”. Bullying quando os meus trabalhos eram “perdidos”, dificultando e atrasando os prazos de entrega, acrescido ao descaso, desprezo e deboche frente à minha preocupação. Bullying quando todos os meus relatos de pacientes recebiam uma única vertente de interpretação. Segundo os profissionais, todas as minhas atuações junto às pacientes eram “contaminadas” pela gravidez. Eu deixara de ser uma pessoa com uma vida complexa, de relações, sonhos, expectativas e conflitos, que certamente influenciam a relação terapêutica – e isto sim precisaria ser pontuado, para qualificação de minha aprendizagem – para ser só e absolutamente “uma grávida”. Quando era interrogada se a gravidez fora planejada ou não, eu me via entre a cruz e a espada. Aos 23 anos nem todas as pessoas estão prontas para se defender em caso de ataque – eu não estava – e meus orientadores se utilizaram disto. Se eu dissesse que não planejara (conscientemente) a gravidez pois estava começando a vida, ainda sem trabalho, profissão, nem renda, certamente eu sofreria “piadas” pejorativas e criticas. Se dissesse que havia programado (o que era uma mentira) a rede de interpretações seria jogada para outros mares – e foram – sempre para os mais tortuosos.

Hoje me pergunto quantas questões (sombra do grupo, da equipe) ficaram dissimuladas pela minha gravidez? Por que os profissionais se dariam o trabalho de aprofundar as demandas complexas e difíceis do ensinar verdadeiramente, orientar com seriedade e ética e supervisionar dividindo o seu saber (???) ao modo de um verdadeiro mestre, se poderiam simplesmente “brincar” num jogo divertido de poder? E pensar que este poder é jogado sobre pessoas que se sentem acuadas frente ao inusitado da vida. Isto me faz acreditar que eu fui um “prato cheio” nas mãos de uma escola sem ética e de pouco caráter.

Mas sobrevivi, conquistei o meu diploma no tempo hábil, que para mim seria eu já estar formada quando meu filho nascesse. Esta era a minha meta, e a cumpri a revelia do que fizeram comigo. Aí surge um fato interessante na história. As cicatrizes ficaram tão profundas que foi preciso 15 anos para que eu voltasse a me re-aproximar da psicologia. (Fica a questão: será que aos 23 anos eu estive mesmo próxima da psicologia? E que psicologia era aquela?) Mas eu voltei, não somente a pensar em psicologia, mas a tê-la como o mais importante eixo de compreensão da vida humana, preservando a dignidade e a ética que jamais me foram tiradas e constituem os pilares que sustentam a minha vida pessoal e profissional. Se uma pessoa precisa “exercer” o poder sobre outra, para afirmar o seu valor, é porque ou está vivendo um momento de grande insegurança e desamor ou nunca os teve. Ou quem sabe ambos?

Hoje eu ainda penso nesta história do ponto de vista dos fatos reais, e sofro sempre que penso – não sei se algum dia vou esquecê-la, nem mesmo sei se devo esquecer, isto pertence ao mistério, e não me cabe decifrá-lo – mas eu também penso nela pela perspectiva do símbolo, e isto muda completamente a história e acalma os meus sentimentos.

Voltando pelo túnel da vida, agora conduzida pelo símbolo, posso dizer que “eu sei” que nada deveria ter sido diferente. Que tudo que eu perdi lá atrás, retornou para mim num encontro maduro com uma nova psicologia. Acredito que se esta história, (de sofrimento sim) não tivesse acontecido comigo, certamente o rumo de minha vida seria outro. Hoje possivelmente eu estaria lutando por uma aposentadoria que me manteria afastada da psicologia, não por 15 anos mas pelo resto de meus dias, o que está totalmente fora de meus projetos atuais. Sei, porque vivo isto todos os dias, que eu não teria permanência, nem teria vida em mim uma psicologia empobrecida por interpretações frias, essencialmente racionais, jogadas de cima de uma poltrona do poder. Teria morrido em mim uma psicologia distante da dimensão sagrada da psique, capaz de ampliar e significar cada acontecimento da vida envolvendo-a no grande mistério da sincronicidade. Eu não tenho dúvida hoje, que a gravidez, naquele momento foi um grande presente (do Self). Primeiramente pelo filho querido que eu tenho, mas também por todas as incógnitas e desafios que jogou sobre mim, me fazendo crescer e conquistar um grande tesouro, um verdadeiro “lucro inesperado”: o encontro com a minha vocação que acreditei ter perdido por longos 15 anos.

Recentemente, assisti na TV um clip do violinista David Garret, que realmente impressiona e emociona pela qualidade e genialidade (ele começou a tocar aos 4 anos de idade). Traz para a música clássica toques de modernidade, possibilitando que novas gerações conheçam e se juntem a este grande patrimônio cultural. Mas eu queria mesmo era chegar na entrevista que foi concedida por um grande maestro com quem David Garret tocou em um concerto. (Além de recomendar que ouçam o violonista, é claro). Segundo o maestro, é tão intensa a sintonia entre David e o seu violino, que quando o ouvimos e penetramos profundamente em seu som, chega um momento que não é mais possível saber quem é David e quem é o violino. Em suas palavras: “David e o violino são uma e a mesma coisa”. Mas o que isto tem a ver com a minha história?

A questão que ela deixou: será que se eu tivesse seguido a psicologia dos meus vinte e poucos anos, afastada do símbolo e do sagrado, estagnada em interpretações que constrangem o indivíduo tornando a alma envergonhada e fugidia, algum dia me daria o direito de pensar que eu e a psicologia podemos sim ser uma e a mesma coisa?

Se conto esta história hoje (e conto com nome, datas e detalhes) é para ser autêntica comigo mesma: o sofrimento do Bullying continua sangrando enquanto permanecer oculto no segredo e vergonha que o acompanha. Quem sofre esconde-se, e quem pratica continua impune, algoz e arrogante até que todos possam contar a sua história.

Texto de Eliane Berenice Luconi

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Dia 21 de Abril em Brasília

Por mais inesperado que fosse, neste 21de abril, eu estava em Brasília, num sábado ensolarado passando pela Esplanada dos Ministérios que era palco de uma grande festa de comemoração dos 52 anos de Brasília, com shows, competições esportivas e a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. A manhã estava linda, sol e céu muito azul. O taxi que me levava para um compromisso andava calmamente, nem poderia ir mais depressa, as ruas estavam lotadas de carros e de pessoas que se movimentavam para todos os lados. Uma música suave tocava no carro. Um convite ao devaneio. O cenário me transportou à imagem de Brasília que eu carreguei por longo tempo até conhecê-la mais proximamente. Não permiti que meu devaneio se aprisionasse ao crítico cenário político brasileiro, que nos assusta, decepciona e tantas vezes nos envergonha. Esta não era definitivamente a minha intenção. A imagem lentamente foi se delineando. Brasília, uma cidade projetada para ser a capital do Brasil, sede dos principais órgãos da administração federal, lugar de residência do presidente do Brasil, onde um número considerável de pessoas, freqüentemente aterrizam na segunda-feira e decolam às quintas, de volta para suas casas. Neste momento percebi que a imagem mudara, a história não era mais esta, pelo menos não era mais esta, para mim. O contato, a aproximação com pessoas que vivem em Brasília me revelaram outra realidade que até então eu não percebera. Há alguns meses atrás escutei uma jovem, de aproximadamente 30 anos, honrosamente dizer que “era Brasiliense”, ouvi pessoas revelando o amor que cultivam por sua cidade, percebi o entusiasmo genuíno que assumiam ao falar de suas vidas e rotinas. Uma aluna carinhosamente me disse em um intervalo das aulas, “professora, há um dizer popular que afirma que as pessoas que se envolvem com Brasília, acabam mudando-se para cá”. Uma verdadeira demonstração de carinho e intimidade com a sua terra. Tudo isto contradizendo os movimentos fugazes de chegadas e partidas, que vimos relatados diariamente nos jornais e noticiários, histórias de quem pouco se “envolve” com a cidade, cenário de minha imagem desconhecida de Brasília. Esta imagem me transportou de imediato para Jung e seu conceito de individuação, onde ele propõe ser este, um caminho de desenvolvimento do potencial inato e congênito do indivíduo, um caminhar continuo de auto-conhecimento, conscientização e amadurecimento da personalidade. Um reconhecimento, cuidado e integração das próprias raízes em suas bases pessoais e coletivas. Um caminho, muito mais do que um alvo. Uma obra para toda a vida e para além das idealizações e projetos do ego. Caberia então neste pensar, imaginarmos que também as cidades percorrem um caminho de transformação, de amadurecimento e porque não dizer de individuação? Estaria hoje Brasília, aos 52 anos, percorrendo um caminho para além dos projetos políticos e governamentais que a idealizou, da mesma forma que os seres humanos inúmeras vezes devem transcender a vontade do ego, para que a individuação percorra seu curso? Acredito que sim, que as cidades têm alma, que Brasília tem alma e que ela se apresenta na voz das pessoas que a respeitam e a admiram, das pessoas que lá plantam e fortalecem suas raízes, das pessoas que ficando ou partindo deixam ali marcas de si mesmo!

Por Eliane Berenice Luconi

Despedida na Escola

Dia destes fui buscar a minha neta na escola, o que faço sempre que posso (e faço tudo para poder). Neste dia, como de costume fiquei observando atentamente o movimento da escola. Até hoje não sei se este senso de observação é um mérito ou não, mas sei que é um componente de minha personalidade-vocação (e hoje já não as separo mais). O fato é que naquele dia, fiquei ali parada, olhando as crianças saírem da aula e muitas coisas me chamaram atenção.
É costume nesta escola – e eu admiro muito – as turmas das séries iniciais saírem de suas classes, acompanhadas pelas professoras até a escadaria onde as crianças encontram seus pais ou quem os venha buscar. Ali eu observava tudo ao meu redor, sem nenhum propósito – aparente – a não ser o desejo de ver logo a minha neta que viria correndo ao meu encontro.
Neste tempo de espera, reparei na primeira turma a se aproximar da escadaria, todos os alunos juntos a sua professora que se despedia deles fazendo-lhes um carinho – nos cabelos, na bochecha, no queixo – e que ninguém ia embora sem receber aquele afeto. Logo a seguir veio a segunda turma, e esta professora despediu-se recebendo um beijo dos alunos, e mais uma vez ninguém foi para casa sem dar o seu beijo na professora, mesmo que rapidamente, afinal todos estavam com “muita pressa”. Somente quando desceu a terceira turma, me dei conta que eu estava “encantada” – apreciando a despedida dos alunos – e nesta 3ª turma cada aluno ganhou um beijo da professora. Mas o meu encantamento rapidamente foi transferido – da observação – para o sorriso e abraço apertado que recebi da minha neta. Aliás, envolvida naquele abraço nem notei de que forma a sua turma despedia-se da professora. Nós duas também estávamos muito apressadas para dar conta da (tão esperada) agenda que tínhamos programado para aquele encontro. E fomos rapidamente para casa.
Mas o movimento de vai-e-vem da vida, como ondas do mar, traz de volta, especialmente, aqueles acontecimentos que nos tocam, desacomodam, ou encantam, juntamente com o pedido de aprofundamento e de um olhar mais cuidadoso. Penso que o comprometimento, o cuidado e o imaginar frente às nossas vivências, são condições imperativas se desejarmos uma vida significativa e intensa.
Foi assim que a “despedida na escola” retornou, convidando-me a um novo olhar. A imagem foi ganhando novas tonalidades e a sua dimensão passou da visão plana e costumeira de uma cena do cotidiano, para uma perspectiva em profundidade, formada por novos contornos: agora de uma “cerimônia de despedida”. Ao penetrarmos nesta outra dimensão e nos atermos frente a ela, as práticas da vida ganham novo sentido e complexidade. Deve-se à capacidade imaginativa da psique a possibilidade de uma relação criativa com a vida, quando a reverenciamos verdadeiramente. A partir desta perspectiva, observei a cena da despedida na escola como um ritual, e lembrei-me de Jung que mostrou interesse e dedicou anos de sua vida ao estudo dos ritos. Para ele, os rituais se expressam através de símbolos, são eternos, arquetípicos e universais (pertencem a todas as raças e se repetem em todos os tempos). A sua principal função é possibilitar a vivência do sagrado na vida do indivíduo, enriquecendo-o com uma consciência ampliada (nas profundezas de cada acontecimento), com novas possibilidades, criatividade, compreensão, e emoção no viver. Aqui, abro espaço para algumas questões importantes: Não estará na privação do ritual (no afastamento da dimensão sagrada da vida), um relevante motivo de tantas dores e sofrimentos humanos? O que acontece à vida que passa em tela plana, sem nuanças, sombras e perspectivas? Sem atenção e envolvimento? Que efeitos estas faltas trazem ao homem? Bem, os efeitos encontramos todos os dias na clínica psicológica. Mas não quero me delongar neles, e sim priorizar a transformação e bem-estar sentidos por aqueles que vivem a grande emoção do sagrado em cada vivência.Mas como isto é possível?
Penso que vivemos o sagrado na vida, quando nos deixamos “afetar” por ela, ou seja: nos entregamos sem medo para a experiência do símbolo, para o afeto e a emoção de cada instante. Quando nos abrimos para um “olhar de novo”, uma “atenção cuidadosa” , um “olhar de soslaio” – aquele que possibilita uma revelação sutil (muitas coisas se revelam na sutileza). Uma relação intensa e profunda com cada instante: olhando, admirando, questionando, valorizando, imaginando, fantasiando, criando novas formas, brincando com as possibilidades – isto é sagrado! Um sentido de transcendência se acresce à vida.(E gostaria de dizer que não me refiro aqui, ao sagrado das crenças, religiões ou dogmas. É na psicologia que fundamento as minhas observações).
Mas Jung apontou também um outro valor importante ao ritual, quando o chamou ”continente psíquico”: um vaso de acolhimento e proteção para as novas vivências e desafios, conferindo segurança e sentido às transições humanas. A compreensão do ritual foi imperativa no meu meu olhar para as crianças naquela tarde. Elas estão somente aprendendo a “aprender”. Em pleno momento de transição em seu desenvolvimento, necessitam atenção, cuidado e proteção de todas as pessoas que a acompanham.
Como se sabe, a relação ensinar-aprender esteve presente na vida do homem, desde a criação do mundo, quando a humanidade ainda engatinhava em conhecimento e consciência, o que possibilita pensar que vivemos um eterno ritual de educação, que mantém em permanente renovação ao longo dos tempos, mas que ignoramos em nossos dias. Sabemos também, que muitos são os estudos e pesquisas dedicados a buscar soluções para os problemas do ensino em nossos dias. Escolas, professores, alunos, pais, e pesquisadores – todos envolvidos nesta busca – mas a maior parte dos estudos realizados nos círculos profissionais e acadêmicos, desconhecem (ou desmerecem) a primazia do lado sagrado (ritual) de cada momento – da despedida inclusive – sua amplitude universal. Desperdiçam emoção, magia e a criatividade capaz de re-significar a escola.(da vida).
Pergunto então: Que benefícios teríamos todos – professores, alunos, pais, avós, psicoterapeutas, pesquisadores de todas as áreas e profissões, independente de idade, situação social, econômica ou cultural – se abríssemos os nossos sentidos para vida simbólica e sagrada? Se a “universalidade” do ensinar estivesse presente (consciente), os professores não estariam mais preparados para as dificuldades e desafios de sua missão? Sim, porque o ensinar é sim uma missão que se realiza em rituais, e estamos (todos) envolvidos nela, desde o início dos tempos. (Quer saibamos ou não!)
Naquela tarde, me senti muito animada ao voltar para casa com a minha neta. Em primeiro lugar por estarmos juntas, mas também porque todas estas riquezas participaram do meu pensar (e permanecem) enriquecendo de maneira substancial cada momento que estou com ela. (e a vida)

Crônica de Eliane Berenice Luconi

HABEMUS PAPAM

Sinopse do filme:
O novo papa eleito sofre um ataque de pânico no momento em que é suposto aparecer na varanda da Praça de São Pedro para saudar os fiéis, que esperaram pacientemente o veredicto do conclave. Os seus conselheiros, incapazes de o convencer de que ele é o homem certo para o cargo, procuram a ajuda de um conhecido psicanalista. Mas só ele poderá enfrentar o medo que a responsabilidade e a confiança que lhe foi depositada representam.

“Temos Papa” . Título, imagem e sinopse em si, já são um convite a assistir este filme em que um psicanalista é contratado pelos conselheiros do Vaticano para assistir ao papa recém eleito, que sofre uma grande crise emocional, no momento em que precisa aparecer na varanda da Praça São Pedro, diante de milhares de fiéis, que ansiosamente esperam reverenciar a sua santidade. O Papa paralisa ao se confrontar com a grandiosidade da tarefa que o espera. Sente-se inseguro e incapaz de assumir tamanha responsabilidade, mesmo consciente de que fora indicado por Deus, escolhido por cardeais representantes do mundo inteiro e esperado por milhares de fiéis.
Este seria o principal destaque do filme, não fosse as “entrelinhas” que aos poucos vão se revelando, pelo menos aos meus olhos. As sessões de psicanálise, foram infrutíferas para o novo papa. Segundo as ordens do Vaticano seria impossível um ambiente sigiloso entre analista e paciente. Todas as sessões eram divididas e curiosamente escutadas por todos os cardeais. Assuntos delicados como mãe, família e infância, deveriam ser evitados para melhor andamento das ordens religiosas. Da mesma forma era preferível “evitar” assuntos que lembrasse frustrações e provocasse reflexões mais profundas.
De mãos e pés amarrados, o psicanalista vê-se sem escolha, uma vez que é obrigado a permanecer no Vaticano até que a sua santidade se apresentasse aos fiéis, e isto só aconteceria quando recuperasse a saúde e o equilíbrio. Nesta situação acaba por revelar ao conselheiro que sua ex-mulher também é psicanalista. Uma das melhores psicanalistas, especialista em “déficit de aceitação”.
Já em desespero pela situação político-social que está despontando não somente na praça São Pedro mas no mundo todo, o conselheiro decide, em segredo e sorrateiramente, levar o papa até a psicanalista, para uma consulta. Com a premissa de que não poderia revelar a sua verdadeira identidade, o papa chega ao consultório para a primeira consulta. Esquiva-se e disfarça muito bem frente às perguntas iniciais, até o momento em que a psicanalista pergunta-lhe “o que fazes”? Neste momento ele vacila, ocorre um pequeno silêncio, um desvio do olhar, mas por fim, sorrindo responde, “eu sou ator”.
Esta é certamente, uma das cenas mais sutis e reveladoras do filme, pois naquele momento, em que o papa pensa estar apenas “iludindo” a psicanalista, ele está na verdade é dando voz à sua alma, à sua vocação que estivera aprisionada por toda a vida, e que agora forçava passagem através da doença, do desequilíbrio e da instabilidade emocional. Era a mais profunda essência emergindo na vida de um homem de 70 anos.
A psicanalista continua seu trabalho, na tentativa de descobrir a origem do “déficit de aceitação” de seu paciente, mas para o papa nada mais disto fazia sentido, afinal ele não conseguia lembrar, por maior esforço que fizesse, onde, quando e por quem fora negligenciado nos seus primeiros anos de vida.
As imagens retornavam à sua mente, o amor ao teatro, o encanto em representar que o acompanhou por toda a infância, a tristeza que sentira ao ser recusado por uma companhia de teatro, sonhos, frustrações e fantasias agora iam ganhando vida e revelando novo sentido à sua existência.
Todos nós carregamos a semente, de possibilidades e atributos, que habita o mais profundo de nosso ser, nos revela Carl Gustav Jung, e a vocação está contida nesta semente. Dar-lhe vida é uma tarefa complexa, pessoal e intransferível.
Muitas enfermidades são decorrentes do desvio desta obra singular, do distanciamento desta essência. São avisos que desviamos do nosso caminho, que nos distanciamos de nós mesmos, que traímos a mais pura forma de amor, o amor à própria vida em toda a sua magnitude.
Neste sentido o sintoma do papa era um código a ser decifrado, tal como um sonho que carrega em si um significado a ser explorado. O seu pânico suscitava uma escuta atenta e cuidadosa, para que aos poucos revelasse a sua mensagem.
A psicanalista, ofereceu ao papa a chave mestra para aquele momento. Ofereceu-lhe a pergunta: “o que fazes?” Esta chave toca-lhe a alma, a vocação e a possibilidade de re-significação da vida.
Reconhecer e realizar o potencial que habita o nosso interior, ter a coragem de mudar, de enfrentar os desafios, é ir ao encontro da própria vocação, da possibilidade de fazermos aquilo para o qual nascemos.
O papa vivência esta experiência, o contato profundo com o seu mundo interior. Numa atitude de fidelidade e amor, resgata a força necessária para mudar e segue em busca de Si-mesmo!