Não suporto ver-te brilhar

Reza a lenda que o vaga-lume, após exaustiva fuga para sobreviver à perseguição da cobra, um dia resolve enfrentá-la e perguntar-lhe porque ela o perseguia incessantemente.
Porque não suporto ver-te brilhar – responde a serpente.

Se hoje retomo esta parábola (já a referi em outro contexto para falar da inveja) é porque ela ilustra sobremaneira e mitopoeticamente, o que eu vivenciei recentemente e quero comentar neste espaço.
Faço um breve retorno à crônica “A cobra e o vaga-lume”, para dizer que naquela ocasião falei da inveja na perspectiva “do conteúdo”, da essência que habita o seu interior. Referi que na inveja encobre-se “algo” que urge ser visto, compreendido e integrado à personalidade do invejoso e que na maioria das vezes expressa-se em desafetos, desdém, raivas e ressentimentos que cultivamos por uma pessoa. Falei que “ser invejoso” não é privilégio de uns ou de outros, defeito ou qualidade, nem é aceitável dizer que ela é branca ou preta. Ela simplesmente É – a inveja, um elemento como outro qualquer que habita a natureza humana. Seu maior mal não está na cor, na intenção, na intensidade, mas em sua negação que cega e santifica o invejoso enquanto transfigura e demoniza o invejado.
Agora trago a inveja novamente (a mesma inveja, já que inveja É inveja) para ser vista em outra perspectiva, vivida em outra lenda, e para isto é preciso que eu conte uma outra história que desenrolou-se no evento de lançamento do livro de uma amiga. Durante a semana que antecedeu a comemoração, várias divulgações/ilustrações e convites foram postados em redes sociais, antecipado pelo moderníssimo “Save the Date”, que permite aos ocupados em ação fazerem malabares em suas agendas para comparecerem ao evento, e a tradicional solicitação de confirmação de presença “in box”(para não causar constrangimento), demonstrou mais um ato de delicadeza da anfitriã. Tudo cuidadosamente divulgado e organizado. Como convidada, fiz questão de confirmar a minha presença e chegar próximo à hora marcada no convite (neste quesito me considero uma pessoa educada). Mas o fato é que, em minha alerta de observação, percebi a falta de algumas pessoas que eu imaginei encontrar ali para parabenizar e brindar com a autora, afinal, diga-se com todas as letras, lançar um livro não é obra corriqueira não é mesmo?
No entanto, não venho aqui para fazer críticas, nem julgamentos (cada um segue seus motivos e escolhas), nem referir que o evento foi prejudicado pelas questões que divido neste espaço. Os brindes foram sinceros e a alegria dos participantes anunciava que bons ventos irão inspirar muitas obras à escritora.
Mas as ausências continuaram a me intrigar, até que um pequeno/grande pensamento (não sei o autor) veio-me à memória: “Amigo não é aquele que dá o ombro quando choras, mas aquele que é capaz de “suportar” o teu triunfo”. Esta lembrança fez muito sentido, clareou alguns questionamentos e re-significou o meu ponto de vista. Sim, isto esclareceu silêncios, ausências, distanciamentos ou desafetos com que algumas vezes enfrentamos o feito de outrem. Nenhuma palavra, gesto ou atitude que expresse a brilhantura do outro pode ser revelada, o que reitera o aforismo que diz: “O silêncio é a resposta mais longa que existe”… e certamente a mais vulnerável. E assim, contrariamente ao que supúnhamos, seguimos a vida reconhecendo novas faces da amizade, novos subterfúgios da inveja e seguindo os nossos sonhos, como a jovem autora.

Modo avião

A idéia deste texto surgiu há vários meses mas ficou guardada nos arquivos do meu iPad, sem meio nem final, e total falta de inspiração para continuá-lo. Várias vezes pensei retomá-lo mas sabia, com os meu botões, que ele estava lá à espera de algo que mudaria seu rumo.
Esta história começou no vôo que me levaria à mais uma jornada de trabalho, logo após a decolagem, no momento em que a comissária de bordo anunciou que os aparelhos eletrônicos já estavam liberados e os celulares só poderiam ser utilizados na modalidade “modo avião”. Todos sabemos que este comunicado se repete exatamente igual em todos os vôos e que o “modo avião” é uma modalidade de uso dos celulares que não interfere na segurança do vôo. Certamente esta é uma maneira simplificada de falar de algo que “inspira” mas não é o foco deste pensar. Naquele dia em especial, o que escutei me conduziu a um lugar que andava incomodado em mim durante as viagens que têm feito parte de minha vida nos últimos tempos. E o que proferiu foi: E qual é mesmo o “modo avião” das pessoas durante um vôo? Como elas se comportam naquele lugar incomum de tempo e espaço? De que “modo” levam (suportam) as suas angústias, intolerância, medos, expectativas, sonhos e neuroses naquele lugar onde se fica totalmente desprovido de controle e poder? De que “modo” nos movemos, entramos e saímos, sentamos e dividimos apertadíssimos espaços naquele tempo as vezes “interminável”?
Não tenho a pretensão da resposta mas acolhi as perguntas dando-lhes a forma de um pequeno parágrafo que ficou guardado nos arquivos da minha memória e ativado a cada vôo, quando me parava a observar o “modo avião”.
Ressalva que, “observar” é uma característica que me compõem e acompanha (algumas vezes predicado, outras defeito) desde a infância e que alguns beliscões levei da minha mãe, por conta disto. Ocorre que não me bastava observar alguma coisa, eu precisava comunicar o observado, o que a maioria das vezes fazia sem o menor cuidado, apontando o dedo ou cochichando no ouvido da minha mãe. “Seja discreta” dizia ela, primando pela minha educação, no entanto isto não evitou que, por vezes, esta linguagem fosse comunicada na ordem do beliscão. Ainda hoje pratico este ensinamento da minha mãe e tento “ser discreta”. Mas não só negativamente o “ato de observar” agiu em mim, transformou-se também num fiel guia profissional, companheiro pessoal e fonte desta e de outras escritas.
Enfim, feito as observações, volto ao momento em que o “parágrafo” agitou-se em minha memória, saiu do arquivo e ganhou meio e fim.
Mais uma vez, muito cedo da manhã como de costume, ocupei o meu lugar na janela do vôo para mais uma jornada de trabalho. Tudo planejado; meu tapa-olho de tecido macio e aroma de ervas à postos; meu travesseiro, imprescindível para um sono relaxante, e que a estas alturas já conquistou o título de objeto transicional (de Winnicott), à mão; cinto afivelado; cenário montado do pequeno mundo que compõe a minha vida-avião.
Pressagio de uma ótima viagem, não fosse o cheiro de perfume fortíssimo que se instalou no ambiente, misturou-se ao terrível cheiro de alho exalado no ar, vindo de algum passageiro que possivelmente o saboreou na noite anterior e somou-se ao som altíssimo de um outro alguém (ou o mesmo) que roncava desordenadamente. O cenário era de horror, e o avião só iniciara os procedimentos de decolagem. Olhei para todos os lados, quem sabe uma poltrona vaga que me possibilitasse trocar de lugar? Impossível, o vôo estava lotado. Talvez descobrir o roncador com cheiro de alho? Mas ninguém dormia naquele momento, que estivesse ao alcance da minha visão. E a perfumada, quem seria? Sim, sem dúvida tratava-se de um perfume feminino. Também isto não tinha importância, afinal a trágica mistura perfume x alho já se processara no ar e pelo que tudo indicava só incomodava a mim. Me acalmar e tentar relaxar era a única solução que restava, ou quem sabe me narcosear com a inesperada mistura de sons e cheiros.
Com esforço voltei aos meus antídotos: tapa-olho com cheiro de ervas, fone de ouvido com música do meu agrado, travesseiro Winnicottiano, mas o nariz eu não podia tapar, com o risco de não chegar ao meu destino. Atravessei um misto de sentimentos, raiva, indignação, desconforto, até que dormi, precisava fazê-lo sob a pena de não dar conta de um dia cheio de trabalho.
Somente ao tocarmos no solo, ainda muito incomodada, percebi que sim, que era o rapaz ao meu lado que roncava. Em volume desproporcionalmente alto para a sua pouca idade, pensei eu. Curioso é que temos a idéia errada que somente as pessoas mais velhas roncam. E enquanto isto, eu dormi ao lado do “inimigo” sem perceber. Quanto ao cheiro de alho e perfume só posso deduzir de onde vinham, jamais terei certeza.
E assim foi que as perguntas guardadas na memória retornaram, mas agora com a resposta que eu esperava para este texto: “Modo avião” rima com “Educação” e educação combina por demais com delicadeza.
Com delicadeza – não sairemos aos empurrões de nossos assentos, nos atropelando com bolsas e bagagens de mão acima do peso permitido. Com delicadeza – não furaremos a fila de embarque e desembarque nos engalfinhando a cotoveladas para logo adiante nos encontrarmos todos na esteira de entrega das bagagens. Com delicadeza – escutaremos a solicitação de desligar os aparelhos eletrônicos no momento pedido e os ligaremos somente no saguão do aeroporto – o que poucos parecem escutar. Com delicadeza – perderemos alguns segundos enquanto nosso vizinho de assento retira seus pertences do compartimento acima de sua poltrona sem pressioná-lo. Com delicadeza – não usaremos perfume forte por mais francês que seja, as sete horas da manhã e quem sabe, com delicadeza – não comeremos alho na noite anterior ao vôo (que me perdoem os adeptos). Mas e quanto ao ronco? Bem, quanto ao ronco uma boa música é mesmo a melhor solução.
E assim, de vôo em vôo o “modo avião” rima com educação, se traduz em delicadeza e que tenhamos todos uma ótima viagem.

O que eu faço comigo?

Um dia qualquer, preparados ou não (se é que algum dia estaremos) a pergunta se instala entre nós e o espelho – nem sempre o espelho que reflete uma pele viçosa de um corpo jovem sem pregas nem manchas, mas o espelho que transfigura as marcas do que fomos e a imagem do porvir: E agora, o que eu faço comigo?

Quando os projetos cumpriram seus propósitos com ou sem sucesso. Quando as tarefas maternas/paternos cumpriram seu tempo. Quando planos e sonhos se realizaram enquanto outros perderam-se na validade do tempo. Quando nada mais e ninguém depende de mim. Quando os amigos mudaram, “mudaram-se” ou já não mais ocupam o espaço de outrora. Quando o tempo deixa de urgir no relógio frenético de agendas e compromissos. Quando tenho todo o tempo do mundo mas o mundo já não derrama mais sobre mim os seus desafios e encantos, a pergunta insiste – O que eu faço comigo?

Mas não somente no entardecer da vida o espelho ressoa tal pergunta. Um segundo silencioso, uma pitada de atenção, e lá está ela por detrás de múltiplas máscaras. Na maldição das traições que destrói a confiança, afunda e aprisiona o indivíduo na interminável busca dos porquês. Nos casamentos cuja paixão não resistiu ao amadurecimento do tempo e retirou-se deixando um vazio insuportável preenchido pelo eco ensurdecedor e sem sentido. Nas perdas, doenças e fatalidades, quando mais nada há que se fazer e a não-ação transforma-se em atitude nobre na tecedura do destino humano, a pergunta persiste – O que eu faço comigo?

Um olhar cuidadoso nos momentos de colheita fértil, de saborear vitórias da liberdade que nos presenteia com o direito de ir e vir para onde e quando quisermos, e ainda aí, a pergunta sorateira – E agora que eu faço comigo?

Venha da onde vier – do outono da vida, das dores ou dos sabores – a pergunta, sem dúvida, em algum momento se impõem e conduz o indivíduo ao encontro consigo mesmo. No entanto, sua significação e finalidade maior não está na resposta que procuramos mas no fato de trabalharmos incessantemente sobre ela. Coisa rara em nossos tempos, mas o debruçar-se sobre si-mesmo pode ser o prenúncio de um novo tempo, de uma nova consciência e postura frente a vida. Obra complicada e desafiadora já poetizou Fernando Pessoa: “O que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa, e vivemos vadios da nossa realidade.” Abandonar esta vadiagem é rumar ao mais profundo de nosso ser, em direção a uma nova consciência e mudança singular diante da vida.

Um paciente me revelou que era um homem bem sucedido e realizado em vários aspectos de sua vida, mas que foi no percurso da sua análise que compreendeu a “importância de ter consciência da vida vivida” (palavras suas), o que conquistava dia-a-dia à medida em que “transformava lembranças em memórias”. Segundo ele, muitas vivências de seus quase sessenta anos de idade habitavam seu mundo apenas como vagas lembranças, outras nem tão vagas assim, mas que ao passarem pelo trabalho árduo da reflexão e comprometimento, foram “se transformando em memórias” e gerando novo sentido à sua vida. Belo presente ganhamos aquela tarde.

Prefácio

O Gato de Botas – Uma interpretação psicológica do conto de fada.

Este livro é o relato da Circumambulatio (do andar em volta) que Rafaella Bourscheid percorreu no interior do conto de fada O Gato de Botas, explorando símbolos genuínos que descrevem o cenário psíquico de conteúdos do inconsciente coletivo, oriundos da base humana universal.
Esta obra teve sua semente plantada nas experiências infantis da autora, em sua sensibilidade e paixão pelos contos de fada, germinou através dos tempos e evoluiu ressignificando sua formação pessoal e profissional.
Marie-Louise von Franz e Carl Gustav Jung inspiraram a autora nesta obra, que oferece importante constructo teórico aos profissionais de psicologia, mas que se dedica igualmente ao público em geral por oferecer valiosos significados psicológicos à vida humana.
Para a interpretação do Gato de Botas, Rafaella situa o leitor nos principais conceitos da teoria junguiana, propondo a anima como arquétipo central da sua exploração, e, para isto constrói uma interessante analogia entre o Gato e os aspectos femininos da psique humana. Compreendida como a imagem da mulher no inconsciente do homem, a anima representa as suas características psicológicas femininas, sendo portanto, responsável pelos humores, sentimentos, receptividade, capacidade de amar e sensibilidade – vistos como funções psíquicas de valor inestimável. Esses aspectos femininos são refletidos pela autora, não somente nas bases da psique masculina, mas também na psicologia das mulheres que ao longo do tempo vêm sofrendo transformações e desafios que põe à prova a sua base instintiva feminina, e com isto sua natureza e saúde.
Em uma visão prospectiva, este livro apresenta o conto de fada como elemento organizador da vida psíquica tanto para as crianças como para os adultos, pois em todas as fases da vida o conto tem o poder de acessar a instância mitopoética da alma, e no re-viver poético dos mitos e das histórias, a psique vai se re-inventado em um movimento de saúde e bem estar.

Eliane Berenice Frota Luconi
Psicóloga, analista junguiana, membro fundador do Instituto Junguiano RS, membro da AJB (Associação Junguiana do Brasil) e da IAAP (Internacional Association for Analytical Psychology).