Poder e Dignidade

Há um tempo eu venho observando os relacionamentos, ou seja, as diferentes formas de relacionamentos entre as pessoas. Aqui vou dar atenção especial ao que chamei – relacionamento baseado no Poder e relacionamento baseado na Dignidade.

É importante observarmos que, partindo do significado das palavras, já iniciamos o caminho das diferenças. Enquanto o Poder tem o significado de mando, autoridade e posse, segundo o dicionário Aurélio, a Dignidade é sinônimo de amor-próprio, de honradez e decência. Assim, o Poder pressupõe um “outro” para exercer as suas funções: realizar o mando, o domínio, a influência e garantir o seu império. Ora, quem manda…manda em alguém, quem possui … possui a alguém e quem domina … domina alguém a quem submete às suas regras, expectativas e autoridade. O Poder necessita do “outro” para subsistir, sustenta-se às custas do “outro”, e isto, nada tem a ver com o amor – o grande comunicador do relacionamento. Por outro lado, a Dignidade é uma conquista que inicia e cresce no interior do próprio indivíduo, no contato consigo mesmo, não necessita do outro para sua mestria, e anuncia os prelúdios do amor.

Nos relacionamentos baseados no Poder, alguém desenvolve o perfeito controle, enquanto o outro desiste de suas ilusões, fraqueja no exercício de sua individualidade e perde o respeito por si próprio. Quer o Poder seja exercido pelo parceiro mais forte ou pelo mais frágil, o prejuízo é real e inevitável.

O mártir, por exemplo, pratica o poder à sua maneira, muitas vezes dissimulado no discurso da vítima e com isto paralisa o outro atingindo-o em sua integridade. Se o parceiro fraquejar em qualquer lugar, está tudo acabado – em sua atrocidade, a vítima não perdoa. O mais forte exerce o poder, dominando, subjugando ou modelando o outro aos seus ajustes. Contudo, o atributo máximo aspirado pelo Poder é a razão, a qual, desafortunadamente, é uma glória que não se reconhece sozinha. Ela necessita de um espelho que a reflita e dissemine os seus louros e para isso lança-se num voo solitário ao encontro do orgulho. É sábio considerar que no lugar onde coabita poder, razão e orgulho a relação não vinga e o vencedor vive só, ainda que junto ao parceiro. Um velho ditado diz: “Aqui jaz o Sr. Fulano de Tal que morreu de razão”. “Eu tenho razão” é uma das sentenças mais danosas em uma relacionamento amoroso, pois jamais se ouviu falar na história da humanidade declarações como “Eu amo muito esta pessoa, quero passar o resto da minha vida ao seu lado, conversar com ela até os últimos dias da minha vida, porque ela é uma pessoa cheia de razão”. A razão é por demais possessiva para admitir que o indivíduo divida a sua vida com mais alguém, e assim o ser humano trilha os caminhos da solidão.

Já nas bases da Dignidade, o relacionamento se desenvolve em outra trilha. Neste cenário, ninguém quer mudar ninguém e aceitar as diferenças torna-se tarefa amena diante da grande obra que inicia no próprio indivíduo, de auto-conhecimento, transformação pessoal e comprometimento ético, moral e psicológico diante da vida. E pasmem os que pensarem que este seja o caminho para o isolamento, narcisismo ou auto-erotismo. A ação que inicia no respeito aos próprios valores, no amor-próprio e na decência, atrai o respeito dos outros e por isto dificilmente afasta ou isola o indivíduo. Estar consciente de seus defeitos pessoais, estéticos e morais é obra que requer plena atenção, exercício de dignidade e este é o maior tesouro que alguém pode conquistar e oferecer ao seu relacionamento. Consciente de si, o indivíduo pode pedir desculpas sem se sentir humilhado, voltar atrás em suas constatações, por à prova as suas certezas, rever as suas escolhas, estabelecer limites e não se moldar ao outro como a metade de uma maça.

Mas de volta ao dicionário Aurélio, outra máxima ainda se destaca, o Poder e a Dignidade dividem a mesma classe gramatical – a dos substantivos – estando o Poder no gênero masculino enquanto a Dignidade se junta à classe feminina. Ora, a pergunta que não quer calar é se não poderiam, estas duas instâncias tão essenciais ao indivíduo, também habitarem harmoniosamente a personalidade humana, entremesclarem-se a serviço da vida, do amor e dos relacionamentos? Como ficaria a união do Poder com a Dignidade? Quem nasceria desta união?

Paulo Freire, um dos principais educadores brasileiros, oferece subsídios a este desafio ao propor uma interpretação própria à palavra empoderamento. Segundo ele, uma pessoa empoderada é aquela capaz de dar Poder a si mesma para viver as suas escolhas, responsabilizar-se por elas, reconhecer as suas limitações e capacidades comprometendo-se inteiramente consigo mesmo. É uma pessoa que realiza por si mesma as mudanças e ações que a levam a evoluir e a se fortalecer.
Oposto ao Poder ligado à razão e ao orgulho, temos então Poder unido à Dignidade e com isto, a possibilidade do nascimento de um indivíduo saudável para viver uma relação de amor e criatividade.
Escreve o autor:”O amor é uma intercomunicação íntima de duas consciências que se respeitam. Cada um tem o outro como sujeito de seu amor. Não se trata de apropriar-se do outro.”

E Mario Quintana poetiza
Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu…
Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.
(Amor é síntese)