Através da Ilusão

Entrevista concedida à jornalista Keila Bis, da revista “bons fluídos”, que deu origem à matéria “Através da Ilusão”.

1- O que é a ilusão?
Eliane – É de importância fundamental que se abandone provisoriamente o ponto de vista puramente conceitual, se desejarmos adentrar o “mundo das ilusões”, pelo fio condutor da psicologia de Carl Gustav Jung.
Jung que dividiu com Freud os primórdios da Psicanálise no início do século passado, dele diferenciou-se e separou-se após alguns anos de intensa troca e colaboração, ao apresentar uma nova fenomenologia do inconsciente à humanidade. Assim, com Jung, o inconsciente deixa de ser um simples repositório de conteúdos indesejáveis, esquecidos e reprimidos pela consciência e se torna – além disto – um espaço criativo, gerador de símbolos, que se manifestam em nossas fantasias, sonhos, ilusões, devaneios e imagens. É desta perspectiva psicológica, que podemos inferir a ilusão, como um produto natural e espontâneo do inconsciente, que tem a função de transportar mensagens importantes – vindas desta matriz da mente humana – ao indivíduo, alterando significativamente a sua existência. Das bases profundas do inconsciente desprende-se uma ilusão carregada de significado, colorido e emoções, capaz de construir uma ponte significativa entre o homem e seu mundo. Muitas vezes um sentimento apaixonado ou uma ilusão erótica tentam preencher o vazio. A Ilusão pode ocorrer com pessoas que resistem a outras pessoas, quer por causa de um complexo de inferioridade, ou outras razões que a deixam psicologicamente muito isoladas. Então a própria natureza do indivíduo, num violento esforço das emoções, provoca a ilusão, como uma forma de prendê-la e conectá-la à vida.

2- Como ela se forma?
Eliane – A ilusão é um fenômeno que se produz automática e espontaneamente na psique humana. Uma realidade psíquica que simplesmente acontece, sem que ninguém a programe. Visto que é um fenômeno comum a todas as as pessoas, uma vez que, em maior ou menor intensidade todos já a experimentamos, podemos dizer que a ilusão tem sua origem no Inconsciente Coletivo. Instância psíquica, mais profunda que o inconsciente individual, proposta por Jung, que não depende da experiência pessoal, o Inconsciente Coletivo é formado por arquétipos que são elementos, ensinamentos, modelos e situações comuns a todos os homens, e se propagam por toda a humanidade. Tal como um instinto que mobiliza forças vitais de sobrevivência ao indivíduo, os arquétipos, são disposições vivas, que influenciam a forma de pensar, sentir e agir. Assim, a ilusão vista como um arquétipo, se forma no Inconsciente Coletivo, por ser comum a todos os homens, mas ganha vida e presença, no inconsciente pessoal onde é gerada a “imagem da ilusão”, específica a cada vida humana, prenhe de significado e singularidade individual.

3- Como ela se manifesta?
Eliane – Os antigos alquimistas celebravam a natureza em seu hino de louvor dizendo: Ó natureza, tu és bendita, e bendito é o modo como operas, pois tornas perfeitas as coisas imperfeitas…tu fazes germinar as coisas novas e variadas e com o teu verde fazes aparecer as diversas cores. Este sábio ensinamento nos mostra, que a natureza contém em si mesma todos os elementos necessários à regeneração e à auto transformação, e nesta mesma premissa segue a vida psíquica que não se distancia da grande mãe natureza. A natureza humana nos impele e nos ajuda através da ilusão. Perceber o quanto e o que a natureza está interessada em atingir, chamar atenção e transformar é o nosso compromisso e desafio diante da ilusão.
Desta feita, a natureza do indivíduo lança mão da imagem da ilusão necessária àquele indivíduo, naquele preciso (e precioso) momento de vida, conferindo um valor diferenciado, colorindo, transformando, embelezando e criando um ponto de vista diferenciado àquilo que for. Assim uma vida conjugal empobrecida pela convivência e rotina maçante, ganha um colorido especial com a imagem da ilusão que surge na fantasia de um novo amor, ou das férias que virá renovando os laços de paixão ou romantismo esquecidos. Certamente que esta imagem não garante a transformação necessária ao bem viver amoroso mas vale a pena examinar minuciosamente o fenômeno da ilusão por mais fantasioso que possa parecer a fim de descobrir nela germes de uma nova ordem.

4- Por que a criamos?
Eliane – Os pressupostos anteriormente citados deixam claros que não somos nós que “criamos as ilusões”, mas sim que elas criam-se a si próprias, espontaneamente, como resultado de um trabalho intenso da natureza psíquica que busca estabilidade emocional, saúde e o bem estar do indivíduo. A natureza prima por equilibrar-se e o inconsciente como sua parte integrante, cooperativo e criativo, participa desta “lida”, gerando símbolos vivos, prenhes de significado, que se manifestam através dos sonhos, fantasias, ilusões, fazendo descortinar novos horizontes.

5- Quando é importante tê-la, ou seja, quando é positivo ter ilusão? Em qual medida?
Eliane – A ilusão, ao modo dos sonhos, fantasias e devaneios, quer se queira ou não, traz uma importante informação do inconsciente que se utiliza de uma abordagem plástica e simbólica para se expressar. Pela sua compreensão, a ilusão ou o símbolo nela contido, é integrado à consciência, criando-se pouco a pouco um ponto de vista diferenciado, ampliado, superior.
Se estivermos dispostos a avaliar a ilusão não à luz de critérios puramente racionais tais como verdadeiro falso, bom e mau, mas ao invés disto nos perguntarmos – qual a função da ilusão na vida desta ou daquela pessoa? O que está faltando em sua vida, em sua visão de mundo, relacionamento, trabalho, sexualidade, que o inconsciente busca “compensar” com esta ilusão? Como a imagem da ilusão mostra (transforma, colore ou engana) este ou aquele fato? Sobre a ótica da ilusão, como vejo…esta situação? O que a ilusão mostra através da sua linguagem metafórica, que a luz da consciência cega e não deixa perceber? Por que o inconsciente precisa lançar mão de imagens tão diferentes da vida real? O que precisa mostrar? A que veio? Por que preciso “perder” a lucidez e mergulhar numa ilusão? Será que a ilusão está tentando romper barreiras tão pesadas de uma consciência puramente racional, onde as fantasias e sonhos jamais tiveram espaço? Perguntas como estas e tantas outras, levam a pensar que a questão central da ilusão não é se estamos tratando de uma verdade ou disfarce, burla ou miragem, mas sim, que ela cumpre um propósito, traz uma mensagem ao indivíduo, cuja intensidade é saudável ou doentia de acordo com o grau de consciência desta pessoa. Sua capacidade de acolher a ilusão sem se fusionar a ela, dialogar sem se jogar de cabeça em suas quimeras, desembaraça-la ao invés de literalizá-la. Portanto, é neste diálogo da consciência com o inconsciente que teremos a chance de viver uma ilusão em sua face saudável, bebe-la na justa medida revigorando assim a vida com novos tons, formas e possibilidades.

6- E quando é prejudicial tê-la?
Eliane – Cada símbolo (matéria prima oculta nas imagens do inconsciente) tem uma expressão positiva e uma expressão negativa em suas polaridades, assim o efeito da ilusão e sua manifestação na vida do indivíduo pode ser negativa ou positiva, e sua análise deve ser submetida aos critérios subjetivos.
Assim, a ilusão que apodera-se do indivíduo com tamanha intensidade, a ponto de muitas vezes ir contra toda razão e lucidez, deve ser vista como efeito de um conteúdo vindo do inconsciente que viola uma consciência frágil praticamente anulando-a. Uma personalidade que necessita de cuidados, fortalecimento dos recursos do ego e da consciência para que se restabeleça a saúde. Então, a questão não é “quando a ilusão é prejudicial” mas sim, por que que a ilusão precisa entrar de forma tão intensa na vida desta pessoa? Que sentido ela carrega? Os efeitos exercidos pelo inconsciente dependem em larga escala da sintonização do consciente. No entanto, o seu oposto é igualmente preocupante. A pessoa que, distante das imagens do inconsciente, vive sua vida “des-iludida”. Esta pessoa mostra uma desarmonia em sua personalidade e possivelmente um grande sofrimento, o que acontece toda vez que a consciência não tem possibilidade de vir ao encontro à natureza. Se este fenômeno acontece, é importante que nos debrucemos em cuidados sobre ele. Algo está interrompendo o fluxo dos conteúdos do inconsciente à consciência, fenômeno que deveria acontecer “naturalmente” a uma personalidade saudável.

7- Qual é a diferença entre ilusão, sonho e imaginação?

Eliane – Jung foi enfático ao afirmar que o nome que se dá, em nada altera os fatos e o que importa verdadeiramente são os fatos. Nesta perspectiva, ao nos deslocarmos da linguagem conceitual, para a abordagem simbólica do inconsciente, o nome ilusão, fantasia, devaneio ou sonho, não é sem dúvida desprovido de importância, mas não deixa de ser secundário, e em nada altera a natureza dos fenômenos.

8- O que é ilusão e o que é realidade?
Eliane – Ilusão “é” realidade, mas a realidade do inconsciente. Ou “aceitamos” esta realidade vinda do inconsciente com respeito, responsabilidade e ética, ou somos “subjugados” a ela pelas depressões, compulsões, neuroses, e sofrimentos de todas as ordens.

9- Quando uma pessoa diz: vou ter pensamento positivo, vou mentalizar e acreditar que eu vou ficar rica e nunca mais ter problemas financeiros. Isso é ilusão ou é exercer a fé?
Eliane – A psicologia junguiana acolhe e trata da fé, como uma realidade viva de sentido e símbolos para o indivíduo que a cultiva, assim como acolhe os demais conteúdos, imagens e crenças, que circulam em sua totalidade psíquica. Se o “mentalizar” sobre um determinado desejo não significar “paralisar no pensamento mágico” de alcançá-lo sem sacrifício, mas incluir uma atitude de responsabilidade e comprometimento, então podemos dizer que estamos frente a uma pessoa saudável, que vive em sintonia com as suas ilusões.

10- Como se curar das ilusões?
Eliane – Se, “se curar das ilusões” significa descartá-las como realidade psíquica sem dar-lhes forma, pensá-las, conhece-las e senti-las, então podemos estar certos que estamos diante do grande risco de “jogarmos o bebê junto com a água do banho fora” como diz um antigo provérbio alemão citado por Jung. Ele refere que o indivíduo precisa ocupar-se de suas ilusões com o objetivo de não perder-se dentro delas, mas de “descobri-las, pedaço por pedaço, e trazê-las à luz do dia pensando assim consciente e debileradamente sobre elas”. (OC. Vol. IV par. 418)

11- Quando uma pessoa se auto-sabota ela está criando uma ilusão?
Eliane – A pessoa “se sabota” quando é incapaz de viver simbolicamente uma ilusão. Se “sabota” quando vive des-iludida. Se “sabota” quando perde, deixa passar ou joga fora as “cutucadas” que a vida lhe dá, em forma de ilusão. Se “sabota” quando fecha os ouvidos ao hino da própria natureza.

A cura na Psicoterapia Junguiana

Não se pode falar de psicoterapia e cura sem esclarecer que Jung nunca propôs um modelo fechado de psicoterapia, ou uma técnica em si, mas acreditou desde sempre que a psicoterapia e as análises são tão diferentes quanto são os indivíduos. O que é cura para um pode ser o veneno para o outro, para cada caso uma psicoterapia. Para Jung, só importa o método que o terapeuta tenha confiança, pois não se trata de confirmar uma teoria mas sim de ajudar o indivíduo sentir-se melhor. Mas como podemos então pensar na cura em psicoterapia frente a tamanha diversidade? Proponho a análise de alguns parâmetros e conceitos como fio condutor desta reflexão.

Primeiramente, é difícil iniciar uma reflexão sobre o conceito de Cura na Psicoterapia Junguiana, sem voltar ao início do século passado, quando Jung ainda muito jovem e cheio de dúvidas sobre o rumo que daria à sua vida profissional, abre um manual de psiquiatria de Krafft-Ebing, e é tomado de intensa emoção ao ler que as “ psicoses são doenças da personalidade”. Decide-se neste momento a tornar-se psiquiatra. Ele é “chamado” pela personalidade em detrimento à doença, encontrando na psiquiatria, o campo empírico que sempre procurara, ou seja, a possibilidade de unir fatos biológicos e psíquicos no tratamento dos doentes, e este é o início de sua psicologia que desenvolveu ao longo de 60 anos.

Trabalhando com esquizofrênicos, no hospital de Burghölzli, Jung venceu preconceitos de muitos colegas, por não abrir mão de “escutar” os pacientes. Ele via a esquizofrenia como um drama humano e isto não correspondia à orientação puramente somática da época. Compreendia a esquizofrenia, para além de fatores biológicos, e as idéias psicóticas como uma tentativa individual de criar uma nova visão de mundo. O contato e a escuta aos doentes fez com que percebesse que “uma pessoa normal”está escondida no seu íntimo, onde encontram-se os dramas de uma vida, seus sonhos e desejos.
Desta maneira, podemos compreender que, desde os primórdios da psicologia, Jung priorizou a personalidade, a vida humana e a visão de mundo, aos sintomas e à patologia, e isto marca sobremaneira a sua postura frente ao ser humano e ao conceito de cura. Ele percebe que não era exatamente o sintoma que deveria ser combatido ou tratado, mas aquela “determinada pessoa” que carregava o sintoma, não fixando-se na doença mas no doente, na personalidade que possivelmente perdera a sua integridade. Portanto, escutar o doente, perceber a existência de um ser humano normal em seu íntimo, entender o delírio ou o sintoma como uma tentativa da psique comunicar algo vital à integridade da personalidade, perceber que é a personalidade que tem que ser tratada e não a sua doença são os novos paradigmas de Psicoterapia e de cura propostos por Jung, ainda em seus tempos de psiquiatria.

No período em que pertenceu ao movimento psicanalítico, Jung também diferenciou-se dos seus contemporâneos inclusive de Freud, com quem conviveu por aproximadamente 10 anos, num intercâmbio de franca colaboração à psicologia. Enquanto Freud atribui importância primordial à etiologia do caso sugerindo que a cura da neurose se dá, assim que as suas causas se tornam conscientes, Jung acreditou que a cura se dá através da mudança da atitude consciente do paciente. Entendeu na época, que muitas vezes a neurose consiste no fato de se estar preso ao passado, remoendo recordações cheio de autopiedade e de se querer justificar tudo, pelo que ocorreu no passado, no que fizeram consigo. Qualquer conflito psíquico, defende Jung, depende muito mais da atitude pessoal do paciente, do que da história da sua infância . O paciente precisa se libertar das influências sofridas em sua infância ou juventude, para seguir a sua própria história e só vai consegui-lo, se tomar a atitude adequada. A adequação à vida através de uma atitude consciente da pessoa, portanto, é fator crucial no processo de cura para Jung.

Após o rompimento com Freud em 1913, e longo período de descida ao inconsciente, Jung retorna trazendo ao mundo a Psicologia Analítica e apresentando a sua própria atitude científica que já o acompanhara desde sempre mas muitas vezes estivera oculta em nome à amizade e respeito a Freud. Jung recupera o próprio julgamento e capacidade crítica e quer saber é da PSICOLOGIA das pessoas e não somente de seus diagnósticos, que levam a uma orientação mas não necessariamente a uma ajuda ao paciente.

Neste período, ele traz uma importante contribuição na compreensão da cura na Psicologia Analítica ao observar que as realidades psíquicas se alteram enormemente ao longo da vida, chegando a propor que se pense em duas psicologias, uma do amanhecer e outra do entardecer da vida. Na primeira metade da vida, o jovem encontra-se num movimento de expansão, de realização, precisa atingir metas, cumprir objetivos, realizar conquistas e adaptar-se ao mundo externo. O jovem adoece quando o fluxo natural da vida é obstruído pela hesitação, pela permanência inadequada numa atitude infantil e pelo recuo diante do rumo a seguir. A vida da pessoa ao envelhecer, ao contrário, está em movimento de contração, da diminuição da expansão e a pessoa adoece por querer persistir numa atitude juvenil ou pela falta de sentido e conteúdo de sua vida. Por isto a idade do paciente é extremamente importante nos objetivos da terapia. Enquanto a cura do jovem se dirige à adaptação ao mundo externo e seus desafios ajudando-o no seu amadurecimento, a cura no entardecer da vida (onde Jung dedicou dois terços de sua atenção) dirige o indivíduo para dentro de si mesmo, para o seu mundo interno onde encontrará (ou não) a experiência de seu próprio ser para entender o sentido de sua vida.

Contudo, é na “Transformação” que Jung centra o seu conceito nuclear de cura. Ele refere – se é que “cura” significa tornar sadio um doente, cura significa “transformação” e sempre que possível ele poderá ser transformado em psicoterapia. Em sua prática, no entanto, notou que por diversas razões, muitas pessoas resistem fortemente ao processo de transformação e nestes casos o terapeuta precisa deixar aberto o caminho individual da cura. Algumas não se disponibilizam ao sacrifício de tornar-se consciente de suas verdades tantas vezes ocultas até de si mesmas, outras são cultas e inteligentes demais para se submeter à transformação, outras ainda, dispõe de uma fragilidade emocional que as impede a fazer este caminho por colocar em risco a integridade da personalidade. É o caso das psicoses latentes que podem vir à tona se “cutucadas”, casos que requerem enorme cuidado e comprometimento ético do terapeuta. Em qualquer das hipótese, a decisão do caminho a percorrer é do indivíduo, e a avaliação das condições emocionais do paciente é do analista. Para alguns o tratamento não vai além de camadas bem superficiais da personalidade e isto não significa que não tenha cumprido algum propósito.

No entanto a cura por transformação leva à instâncias bem mais profundas da psique e ao conceito de Individuação de Jung, que significa o processo de desenvolvimento psicológico no qual o indivíduo se torna aquilo que ele realmente é. Não é um empreendimento fácil e nunca é realizado completamente, e a “entrega” para esta obra de transformação, como já foi mencionado, é uma “opção” ao alcance de todos mas realizado por alguns.

Daí pensar-se que a conclusão bem sucedida de uma análise Junguiana, passa pelo processo de “ Cura por Transformação da personalidade”, processo que devolve o indivíduo ao mundo como pessoa mais inteira, atenta ao caminho de individuação, fiel à orientação do seu mundo interno, mais próxima e aberta aos outros e à vida. Enfim, a cura leva o indivíduo a sentir-se em paz consigo mesmo.