Em Psicoterapia – A Primeira Sessão

Era a primeira vez depois de muitos anos que ela voltava a sentar-se em um consultório de psicoterapia. Em momentos difíceis da adolescência já vivenciara um processo terapêutico por curto período de tempo, motivada pelo pai. Homem cuidadoso e amoroso, sempre zelara pela saúde emocional da filha mantendo-se atento aos possíveis efeitos da depressão da esposa sobre ela, desde a infância. A doença da esposa iniciara com a perda da mãe à qual era muito ligada.

Mas, naquele momento a situação era outra e a decisão de buscar psicoterapia veio dela mesma por não suportar mais as pressões vindas do marido que desejava a separação (mas não tinha certeza nem coragem para tal). Tinha dúvidas de seu amor por ela, sentia falta de aventuras e novos casos, sonhava em ser livre e viajar pelo mundo sem os compromissos da vida de casado, se cansava nos momentos junto à família dela, enfim, duvidas e mais dúvidas compunham uma lista enorme. Sim, e uma lista de desagrados que era toda dele, o que se revelou antes que aquele primeiro encontro encerrasse.

Há alguns meses não se relacionavam sexualmente, o marido aceitara um projeto de viagens no trabalho, passando a ficar longos períodos longe de casa, o que segundo ela, poderia ter evitado sem nenhum dano profissional à sua carreira. Em casa, viviam “como amigos” se é que se pode dizer assim, e somado a tudo isso ela trazia uma grande tristeza pela baixíssima tolerância do marido com a sua família, principalmente com o pai que era uma pessoa muito especial em sua vida. Essa é a situação que foi trazida entre lagrimas, pausas e olhares que buscavam acolhimento e ajuda. E ali encontravamos nós duas, frente à frente buscando elementos, espaços, acordos e uma linguagem que nos permitisse andar juntas no interior de sua história em busca de algum significado e compreensão.

Este é um momento crucial e determinante do encontro terapêutico, onde pode surgir os primeiros acordes da união da “confiança” com o “acolhimento”, o casal cosmogônico da análise psicológica. Alguém ,”se entrega”, entregando sua história e segredos – guiado pela Confiança. Alguém “acolhe” – desprovido de crítica, julgamento e pré-conceito. É desta união que nasce a psicoterapia e se faz ouvir os prelúdios da “primeira sessão”, sendo ela, ou não, o primeiro encontro entre paciente e analista. É possível que vários outros “encontros” antecedam este nascer da”primeira sessão.

E assim, o olhar angustiado dela naquele dia, experimentou um lampejo de sossego quando compreendeu que estava em paz com as suas escolhas (relacionadas ao casamento). Amava o marido e queria permanecer ao lado dele, não tinha a menor dúvida disso. As dúvidas não lhe pertenciam e portanto não poderia solucioná-las. Não se incomodava absolutamente se tinham ou não “níveis” diferentes – social, financeiro, cultural – este paradigma não lhe pertencia e sim a ele. Não cultivava nenhum desejo de ter aventuras amorosas, de ser livre ou viajar pelo mundo descompromissada, tampouco cultivava ressentimento algum pelos sogros, diferentemente dele que carregava o peso dos desagrados com os pais dela. Mas…e acima de tudo, ela deu-se conta que era ele quem carregava o pior de todos os prejuízos de um casamento – o de não ter um sonho para “sonhar o casamento”. Ela compreendeu que o sonho é o cérebro do casamento de onde floresce vida e complexidade. Compreendeu que ter um sonho para “sonhar o casamento” era um privilégio que ela portava, devendo a isso um compromisso intransferível de honra e zelo. Compreendeu que “ter um sonho” para o casamento era a possibilidade de transformá-lo em relação de verdade, de luta e amadurecimento nos desafios diários, mas também a possibilidade de viver a alegria, a fantasia e a criatividade. Compreendeu naquele dia que nada podia fazer por ele e sua imagem acéfala do casamento. Somente ele poderia ou não dar vida e possibilidades aos seus sonhos e escolhas.

Desta maneira ela foi “devolvendo” lentamente o que pertencia a ele sentindo-se com isso aliviada, compreendida e liberada para buscar o que de fato lhe pertencia – o direito ao autoconhecimento, o privilégio do desenvolvimento pessoal , a libertação da individualidade aprisionada ao marido, e a honra de continuar sonhando o casamento e a vida.

E assim nos despedimos combinando o próximo encontro. Aquela havia sido a nossa “primeira sessão”.

* Esta é a narrativa fictícia de uma sessão de psicoterapia, cuja proposta é refletir temas comuns do dia-a-dia da clínica psicológica. Deixo o meu agradecimento à querida colega Ana Rios de quem “ganhei” o termo ” Sonhar o sonho” que tanto sentido fez neste pensar.*