Honrar / Amar – Quando a diferença é possível!

O dicionário da língua portuguesa rima e combina as palavras honrar e amar. São sinônimos e carregam tamanha intimidade que até poderíamos alterná-las, quando na expressão das nossas emoções. Podemos dizer que amamos os nossos pais ou que honramos os nossos pais, sem que o nosso sentir perca o significado.
No entanto, o mesmo não se pode dizer quando transpomos o universo da linguagem psicológica. Neste, as palavras ganham significado anímico, se diferenciam em
pequenos detalhes, carregam pedaços de vida, transportam histórias, se revelam em imagens, memórias e experiências. No universo da linguagem psicológica a diferença é preciso, é possível e é preciosa.
“Eu não consigo amar o meu pai … eu nunca vou conseguir amá-lo”, foi o desabafo que deu inicio à sessão aquela tarde. Na última semana, ela havia hospedado o pai em sua casa, que viera do interior para tratar problemas de saúde. Sua conclusão vinha carregada de amargor e emaranhada em mágoas e ressentimentos, próprios de uma filha que havia sido abandonada pelo pai, ainda muito pequena.
Nenhum diálogo encontrava sintonia, naquele momento todos os acessos à reflexão estavam obstruídos por maldizeres e ressentimentos. Ela estava braba, irritada e irredutível. Nada a se fazer, a não ser oferecer-lhe um lugar de escuta, de compreensão e de espera – livre de julgamentos, sugestões
e interpretações apressadas. Mas, por quanto tempo? Nada se sabia.
Somente assim… no tempo, e a seu tempo, o “amor” – até então carregado de impossibilidades e mágoas – conseguiu abrir-se à “honra”, aceitando-a num lugar de diálogo, possibilidades, descobertas, libertações, semelhanças e diferenças. Nas diferenças emergiu o alívio ao sofrimento.
Nas diferenças, ela percebeu que poderia honrar o pai e – independentemente do amor -oferecer-lhe os cuidados e atenção necessários (casa, médicos, exames, medicações, transporte). Era o seu papel de filha, tinha o arbítrio sobre ele, poderia realizá-lo com honra, dando um passo à frente às suas mágoas, ou ficar aprisionada, quem sabe para sempre, ecoando as atitudes de des-cuido e des-interesse do pai.
Nas diferenças, ela percebeu que, a raiva que sentia ao ver o pai anestesiado por comprimidos (que mal deixaram-lhe acordado durante os dias em que esteve em sua casa) ganhava uma outra implicação, quando ela olhava – mais de perto – para as próprias compulsões. Quantas vezes entregara os cartões de crédito para o marido, com a promessa de não comprar mais por impulso? Quantas vezes iniciara e boicotara dietas? Quanto já gastara em projetos de emagrecimento? Comidas especiais? Honrar o seu pai, naquele momento, passava pela tarefa de perguntar-se: como julgá-lo se agia de maneira semelhante? Honrar era deixar de julgá-lo e com isso recuperar a força necessário para cuidar de si mesmo no encontro com a própria sombra.
Aberta ao diálogo entre o amor e a honra, ela libertou-se da pressão interior de que somente “amando” o pai, ela curaria as próprias feridas, alcançando uma vida mais tranquila e saudável. Não, a sua transformação não dependia do amor ou da falta de amor que sentia pelo pai, mas de apropriar-se daquilo que verdadeiramente lhe pertencia nesta história – com certeza, uma história de abandonos, tristezas e frustrações. Certamente não precisaria se afeiçoar ao pai, nem mesmo admirá-lo. Mas poderia honrá-lo respeitando as suas escolhas, libertando-o para as próprias decisões, dedicando-lhe os cuidados necessários, sustentando o seu papel de filha, dignificando as suas atitudes e se tornando merecedora da própria vida e do amor que desliza entre rimas e poesias, nas diferenças e nas semelhanças.

God

O espetáculo de David Javerbaum, autor nova-iorquino, adaptado e interpretado no teatro por Miguel Falabella, apresenta God, o protagonista de um Deus mundano, que na pele de Falabella, vem apresentar os 10 Novos Mandamentos à humanidade, já que os originais não estão dando os resultados esperados. Com a ajuda de Steve Jobs, e ao lado de dois anjos de sua inteira confiança, God planeja a criação de uma interface atualizada do universo – o Universo 2.0 .

Deus está cansado, dói-lhe os ouvidos que estão super sensibilizados com tantos pedidos que nem lhe dizem respeito: Como invocar a Sua ajuda quando a pessoa passou direto pelo posto de gasolina despreocupado com o ponteiro que já marcava estar na “reserva”? O que ele tinha a ver com isso? Resmungava God em seu acentuado estresse. Porque as pessoas nomeiam, classificam e preconceituam tantas coisas que deveriam ser simplesmente regidas por valores humanos de respeito, cuidado e ética? Que história é essa de homessexual, heterossexual, transsexual, transgenero? Que nomes são esses? Que boboagem é essa esbravejava God! Tudo lhe mostrava que a humanidade tinha tomado descaminhos violentos, complicados e estavam perdidos e confusos.

Mas e Ele? Bem, ele está velho, cansado e farto de tantos equívocos arruinando o universo. Em seu desespero, até passou-lhe à cabeça a idéia de mandar um recado (pelo anjo) ao papa Francisco, de quem gostava muito, para que desse entrada, de imediato, num processo de canonização da lady Dy (e que se desenrolasse rápido, é claro) na esperança de que muitos pedidos escoassem para ela, aliviando-lhe os ouvidos…

Mas não só de queixas da humanidade constituiu-se o desabafo de God. Também Ele cometera desatinos, afinal não fizera o homem à sua imagem e semelhança? Se um erra, porque o Outro não erraria? E o erro por ter permitido que o tiro acertasse John Lenon e não a chata da Yoko? Como ele se perdoaria e carregaria tamanha fatalidade pelo resto dos tempos? E o pobre do Jó, que foi levado por Ele à mais desesperadora e miserável condição humana, por pura afirmação pessoal? Não era Jó que estava sendo posto à prova mas a própria onisciência de God que se fazia transbordar deixando filósofos, psicólogos e estudiosos enlouquecidos, até os dias de hoje, atrás de uma resposta que justifique o ato do Criador.

E assim o lado sombrio de God vai sendo exposto no depoimento de um Deus humanizado, cansado e já desiludido com a humanidade.

Coincidência, sicronicidade, ou como diria o poeta e dramatugo britânico Oscar Wilde – “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida” -, fato é, que duas situações ocorridas naquela semana me acompanharam durante todo o espetáculo rendendo-lhe um “lucro inesperado” e precioso.

Primeira situação: Eu passara a noite e o dia que antecederam a peça teatral, junto à colegas, estudando um texto que trazia questões profundas sobre a imagem de Deus, uma instância sagrada que habita a interioridade humana, conferindo-lhe um significado de valor inestimável e individual. O texto discorre também, a idéia da existencia do bem e do mal como categorias humanas que coexistem no homem, desde sempre, de forma substancial e autonoma, ou seja, o mal não é a ausência do bem, ele existe em si e vive em todos nós, queiramos ou não. No entanto, a maneira como lidamos com o mal, é de nossa inteira responsabilidade e guarda em si a mais pura expressão da liberdade humana. Afinal, não é este um grande desejo que carregamos desde o início dos tempos? Sermos livres, sem muitas vezes nem nos perguntarmos, que liberdade é essa que perseguimos com tanto afinco? Pois bem, frente ao mal temos liberdade e podemos escolher – ou aceitamos a sua existência dentro de nós, com consciência, responsabilidade e ética, ou o projetamos “no outro” – trabalho, política, nos mais diversos ismos, nas instituições ou mesmo na família mais próxima como mãe, pai, irmãos, filhos e companheiros. Assim, podemos acolher o mal como algo digno de ser “olhado” e transformado ou nega-lo afogando-o em comprimidos, substâncias, compras, dores, fobias, pânicos e depressões. Me perguntei: Não seria este mal, mal vivido pela humanidade, que God referia em suas mazelas? Não seria a Sua intenção, ao renovar os 10 Mandamentos, mostrar ao homem a necessidade de um contato mais profundo e comprometido consigo mesmo? Bem, esta hipótese fez todo o sentido para mim, e ganhou aval, no momento final da peça, quando God, já se despedindo, retorna e deixa a mensagem ao público; “que cada um cuide de si mesmo”. (Ele já está velho e cansado). Em psicologia isto não é egoismo, é pura responsabilidade.

Fato é que, na arte e na vida, o caráter paradoxal da existencia do mal e a relação com Deus se fazia notar incansavelmente – se o mal existe no interior do homem e se o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, então, também portaria Deus uma face sombria? Seria a Sua face sombria responsável pelo sofrimento de Jó? E pela morte de Jonh Lennon?

Segunda situação: Dias atrás, enquanto aguardava a chamada para exames de check-up, me deparei observando dois funcionários da clínica conversando. Ele, um jovem de aproximadamente 30 anos, ela uma mulher com mais de 50 e avó de um menino de dois anos. Como sei disso? Porque a mulher falou sem parar durante todo o meu tempo de espera, que para mim, e para o rapaz certamente, pareceram uma eternidade. Ela, muito feliz com o neto contava uma história atrás da outra sobre as travessuras da criança, sua falta de apetite, preferências e brincadeiras, como os pais reagiam às suas peraltices, como eram os domingos na casa da avó, histórias do coleginho etc etc etc. Eu, quase sem folego consolidei-me com o pobre rapaz imaginando que ele precisaria de uma massagem para desengomar o sorriso que armara no rosto, desde o início da conversa, possivelmente para agradar a colega. Questionei-me: porque as pessoas falam demais? Relatam em pormenores, assuntos cujos detalhes só interessem a quem conta? O que interessaria ao rapaz o tipo de lanche que o netinho prefere? Sei o quanto de amor uma avó dedica a um neto e o valor que eles têm em nossas vidas. Mas valha-me God, alugar uma vítima para ouvinte dos milhares de detalhes que compõe este amor já é um pouco demais não? E foi esta situação, vivida no laboratório (da vida), que me colocou fraterna às delongas de God. Entendi seus ouvidos sensíveis e cansados. Ele estava certo, ouvia demais, era massacrado por resmungos e pedidos que eram de inteira responsabilidade do “pedinte”, e naquele momento prometi a mim mesma (e a God) que procuraria ser mais cuidadosa em meus relatos e cada dia mais gentil com meus ouvintes, pela vida afora. Faria isto, não somente contando as minhas histórias na “justa medida” mas ainda, olhando o meu interlocutor como alguem que também tem algo a contar e que, sobretudo, como God -seu criador – tem ouvidos sensíveis que podem cansar!

E assim, entendi Wilde: “A vida imita a arte”. Sim – A vida imita a Arte da Criação todos os dias – nos grandes e nos pequenos espetáculos … eu diria.

 

*Sincronicidade: Acontecimentos que se relacionam não numa relação causal mas por relação de significado.

Lucro inesperado: Da mitologia grega, termo que descreve uma “descoberta feliz”, nos caminhos protegidos por Hermes, o deus dos viajantes.

Texto estudado: Obras Completas de Carl Gustav Jung, vol IX/2 – “O si-mesmo”*

A Protagonista

Um churrasco de domingo. Os homens ao redor da churrasqueira, separando e salgando as carnes, envolvidos com os afazeres e assuntos que pouco se modificam de um domingo para o outro. As crianças (agora já netos), brincando e correndo de lá pra cá enquanto as mulheres se deliciam numa roda de chimarrão. Os homens também tomam chimarrão só não estão na “roda” porque estão “rodeando” a carne, independente do calor que se faça lá fora ou que seja exalado pelo fogo da churrasqueira.

O fato é, que naquele domingo, tivemos uma amiga – de muitos anos de convivência, churrascos e rodas de chimarrão – como protagonista do nosso encontro.

Conversa vai, conversa vem, ela disse: “Eu decidi que agora vou começar a viajar. Já criei os meus filhos, cuidei dos netos, fiz o melhor que pude por todos. Está na hora de cuidar de mim, de aproveitar um pouco a vida. Mas vou de avião, já andei demais por terra”.

Certamente esta não é uma decisão rara em nossos dias, homens e mulhers viajam pelos quatro cantos do mundo, mas em se tratando da minha amiga, esta era uma decisão “surpreendentemente” nova. Pensar em si mesma, desejar algo, cultivar um sonho próprio era algo recém-chegado de minha amiga e de imediato transformou-se na grande revelação em nossa roda de chimarrão.

Tomadas de enorme entusiasmo, passamos a sonhar o sonho dela, imaginar e nos deleitar no mundo das possibilidades que vislumbravamos animadamente.

Qual é o teu sonho? Perguntavamos!
Um lugar frio ou quente?
Praia ou cidade?
Sozinha ou com uma amiga?
Numa excursão?
Quantos dias?
Comprar um pacote em 10 vezes numa agência de viagem?
Há… Talvez pudesse esperar um processo na justiça que aguardava julgamento e possível ganho de causa e que lhe renderia uma boa grana…Mas, quanto tempo poderia demorar esta decisão da justiça? E se a minha amiga perdesse o gosto pela viagem nesse tempo de espera? Sim, talvez a idéia do pagamento em dez vezes, neste momento, fosse mesmo melhor solução. Nada deveria ruir o projeto da minha amiga de “cuidar da própria vida”.

No entanto, todo o entusiasmo das mulheres da roda de chimarrão, não foi suficiente para demove-la da resposta que replicava como o refrão de uma música: “Mas eu vou de avião, já andei muito por terra”. Somente isso parecia importar-lhe e certamente portava um valor visivelmente inestimável.

De repente eu fui tomada pela sensação de estar num filme, no momento em que uma cena é congelada, tudo fica absolutamente estático e somente uma imagem ganha cor e movimento. Pois bem, a imagem que ganhou ânimo na minha imaginação, foi a “vida da minha amiga”. Ela era a protagonista da minha película. Pessoa corajosa, criara os filhos sozinha após o fim do casamento e total descaso do marido. Passou por diversas perdas e doenças graves na familia, pais, irmãos e alguns amigos, situações em que prestou apoio incondicional. Avó de todas as horas, devotou-se aos netos doando-se de corpo e alma. Uma vida de lutas, de perdas e muitos ganhos, integrou uma familia unida pelo amor, lealdade e muita afeição.

E foi neste deslizar da vida, que a minha amiga passou mais de sessenta anos dedicada aos outros, ainda que em nome do amor, e só agora espreitava um fio de liberdade ensaiando o seu primeiro “vôo”. Uma liberdade que certamente não se confinaria à uma primeira viagem de avião mas que a presentearia com novos ares, novas idéias e aprendizados. Quem sabe novas maneiras de dizer não (s) e sim(s) vindos de um lugar secreto de si mesma? De fato a minha amiga aprenderia a voar, e voando descobriria novas terras e diferentes aterrisagens: “Não…hoje eu não posso ficar com o Luizinho. Não…este domingo eu não vou cozinhar. Não… Eu não vou continuar com o regime, estou de bem com o meu corpo”. E quiçá – “Sim… eu sairei para dançar neste sábado à noite”. Seriam essas as grandes “viagens” que ela faria em direção à si mesma, ao reencontro da própria vida tornando-se o sujeito de sua oração?

E assim eu fui acordada de meu davaneio, a cena ganhou novamente côr e movimento e o chimarrão voltou às minhas mãos. O tempo de minha película tinha sido perfeito. Lá compreendi o invizível e o indizível do refrão tantas vezes replicado desta história – “Mas eu vou de avião…”. Sim, ela estava certa, já havia andado muito por terrra!

Indubitavelmente a minha amiga foi a protagonista desta história, e de tantas outras histórias e de tantas outras amigas.

 

** Chimarrão: “Símbolo de hospitalidade, é a bebida indispensável do gaúcho, em qualquer ocasião. (dicionariogaucho.com.br)

 

 

Pra não dizer que não falei dos mortos

Os mortos ocupam um lugar especial em minha vida. Não um lugar aonde eu possa ir levar flores, limpar jazidos, cuidar das homenagens e dos dizeres que identificam os que ali “descansam em paz”. (Algumas vezes sinto falta deste espaço. Objetivar as lembranças é uma forma de organiza-las em nosso mundo interior). Mas os meus mortos foram cremados e portanto eles têm somente o lugar “dentro de mim” para serem visitados, re-imaginados e reverenciados. E foi para este lugar – dentro de mim – que eu fui neste 2 de novembro, homenagear o “Dia dos Mortos”.

O fio condutor de minha caminhada foi um fragmento de Heráclito que eu tenho especial apreço – “As almas farejam no invisível”.

E foi lá no invisível que a minha alma farejou os meus mortos trazendo recordações de uma vida, de alegrias e tristezas, de saudades e despedidas. Nas despedidas me demorei um pouco mais. Foram muitos anos de cuidados e dedicação intensa, exigidos pelas doenças crônicas e graves que marcaram o cumprimento de seus destinos. Como num filme, cenas de vida e de morte chegavam a mim acentuando emoções e afetos, e de leve, tornavam aos seus lugares deixando um misto indizível de nostalgia, bem-querer, respeito, carinho e muito apreço.

Enquanto as imagens deslizavam no ir e vir das recordações e seus regressos, a minha alma ia se nutrindo, se aquietando e experimentando algo de leveza e gratidão. Era uma “graça”, passar por todos aqueles lugares com leveza, eu o sabia. Mas também tinha convicção que as raízes dessa “graça” não se fundavam unicamente no trabalho dedicado às despedidas, mas substancialmente nos “humores” que acompanharam cada momento vivido.

Fui tomada de intensa gratidão por todas as vezes que ouvi com “humor” tantas histórias repetidas como se fosse a primeira vez, por todas as vezes que fui companhia e acompanhei, que cuidei, que acolhi dores e tristezas, que assisti filmes de cowboy e domingos de Faustão. Fui grata aos momentos que sofri e consolei. A cada momento desses que vivi com bom humor, eu senti profunda gratidão.

Mas não só o bom humor foi reconhecido nesta jornada. Senti um sincero reconhecimento também à todas as vezes que dialoguei intimamente com o meu “mau humor”. Sim ele esteve lá, a revelia de minha vontade, e o meu maior empenho foi não permitir que ele usurpasse a minha obra me tornando uma pessoa impaciente, crítica, intolerante e julgadora.

Uma amiga perguntou-me: então é preciso reprimir todos esses afetos? Impossível, eu respondi, eles pertencem à natureza humana, reprimi-los é fortalece-los. É preciso estarmos conscientes que eles nos rondam, pedir-lhes licença e continuar com dignidade o nosso dever. Esse certamente foi o grande desafio desta jornada.
Em paz e já cansada agradeci a Heráclito, aos meus mortos e à mim mesma encerrando esta homenagem ao dia dos mortos com um dizer ecoando em minha alma. “Os mortos não estão muito longe, só estão do outro lado do mundo”.

 

 

 

O Amor Conhecido

Como de costume, ele chegou pontualmente no horário e iniciou o seu “relato semanal”, como costumava chamar a narrativa dos acontecimentos ocorridos desde o nosso ultimo encontro. Já haviamos acordado que o “lá vem eu de novo com a mesma historia” (palavras dele), era um maneira de olhar, pois ainda que se tratasse dos mesmos conteúdos, jamais podemos deixar de considerar a forma como passeamos pelos contos da nossa história, a atenção que dedicamos aos afetos e questionamentos ali presentes e ao valor que damos aos detalhes muitas vezes despercebidos nas “simples repetições”, por onde desliza a vida humana.

Esse era um ponto central na sua analise e nós circumambulavamos ao seu redor com analogias e metaforas que lhe ajudassem a resgatar a sacralidade da sua história, sem a qual nenhuma obra se realiza e a psicoterapia paralisa sem significado.

Mas naquele dia, parece que outra questão mobilizaria o nosso encontro…

“É difícil amar o conhecido”, era a máxima dita por sua mulher em uma das intermináveis discussões dos ultimos tempos, e ele a trazia para analisarmos em seu significado mais profundo. A relação de quase quinze anos vinha sofrendo alguns abalos. Mesmo desfrutando de otima situação financeira, que os filhos não lhes trouxessem preocupações significativas e terem as melhores chances para tudo estar bem, era entre os dois mesmo que as dificuldades se apresentavam, e pelo que tudo indica se mostravam na fala da mulher – “É dificil amar o conhecido”.

Sim, amar o novo é pura aventura, é descoberta e revelação. Nada sabemos sobre o outro e a imaginação entra em franca sintomia com a paixão, aquele estado de ser que encanta e inquieta, que envolve num gosto muito vivo, que guarda ou não a semente do amor, que provoca, movimenta e atiça, e de maneira renovada, renova a vida a cada instante.

No entanto, com o “amor conhecido” adentramos em outra seara. O conhecimento carrega as insígnias da dominância de onde podemos invadir o espaço do outro para além do suportável. Amar o conhecido é não ter medo da tristeza – este é o preço inevitável por amar alguém. Segundo o pequeno príncipe -, é suportar a verdade, as diferenças e tantas vezes, a inexorável ausência de ilusão.

Amar o conhecido é difícil sim, ele compreendeu naquele momento, mas também é possibilidade e é “Arte”. É arte rara que precede o outro e brota na intimidade da alma individual. E foi com esta imagem que ele retornou para casa (não unicamente para a casa objetiva, mas circundado por sua casa psíquica). Em união com a própria alma, apropriou-se do compromisso de revalorar a vida, perceber-se com maior profundidade, responsabilizar-se por sua emoções , buscar clareza de si-mesmo, e assim nesse trabalho intenso, quiçá conquistar o direito ao “amor conhecido”.