Hoje eu chorei por Maria

Hoje chorei por Maria.Por uma Maria que aos 90 anos, nos deixou nas primeiras horas do dia, vencida por uma infecção que rendeu-lhe as forças. Hoje eu chorei por uma Maria que, ao lado de um companheiro, atravessou mais de 60 anos de vida, entre altos e baixos, alegrias e tristezas e todos os desafios de um longo benquerer, que de tão longo se perdeu no nome (amor, companheirismo, amizade, parceria, cumplicidade, costume, tudo isso e tantos outros?)

Hoje eu chorei por uma Maria que pariu seis filhos, cuidou, nutriu, educou e amou, se desapontou, se feriu, se iludiu e desiludiu, mas acima de tudo, amou.
Hoje eu chorei por uma Maria que não mediu forças e esforços para tudo e para todos.
Hoje eu chorei por uma Maria que intimidou as intempéries da vida com raça e coragem, que enfrentou cada dia de sua vida como se fosse o único.
Hoje eu chorei por uma Maria que enfrentou a maior dor humana – a de perder um filho – com uma dignidade indizível.
Hoje eu chorei por uma Maria que viveu dores, crises, brigas, avenças e desavenças entre seus maiores amores, mostrando-lhes sempre os caminhos do perdão, da amizade, da generosidade e da alegria. Nunca faltou-lhe o sorriso nos lábios, nem o humor.
Hoje eu chorei por uma Maria que enfrentou com bravura cada turbulência e desvio de rota que a vida lhe apresentou ao longo dos anos. E foram tantos desafios, e tantos anos e tanta coragem.
Hoje eu chorei por uma Maria que atravessou o século, viveu crises sociais, políticas, econômicas e financeiras, posicionando-se numas, ignorando tantas outras, não por alienação mas por ocupação, estava sempre demasiadamente ocupada nas lidas da vida. Mulher brava e corajosa, de inteligência ímpar.
Hoje eu chorei por uma Maria–avó, que deixou tesouro inestimável para todos os seus descendentes. Que rico legado ela deixou para ser lembrado, honrado e re-contado.
Hoje eu chorei por uma Maria com quem tive o prazer de conviver e aprender. Uma Maria que apetecia a vida.
Hoje eu chorei por uma Maria que, desde sempre, acreditou e reverenciou o seu Deus, absorvendo Dele um amor incondicional.
Mas hoje eu não chorei só de tristeza.
Hoje eu também chorei de emoção, num misto de leveza, fluidez e carinho que invadiu meu coração toda vez que lembrei dela.
Hoje eu chorei por imaginá-la leve e livre de todas as amarras e apegos, lançando-se num voo próprio, num novo caminho, numa nova chegada e quem sabe… Numa nova história.
Hoje eu chorei de emoção por esta, e por tantas outras Marias que aqui chegam, aprendem, ensinam, fertilizam, acertam, erram, riem e choram mas que sobretudo vivem e amam incondicionalmente, e que um dia partem nos deixando na alma um sabor de

Até logo

 

A Protagonista segue viagem


A vida certamente nos reserva grandes surpresas, nos pega peças, arrebata, nos encanta e comove. E foi numa dessas surpresas da vida, que o telefone tocou, no pequeno intervalo entre uma consulta e outra na última sexta-feira.

Menos de um mês após eu ter escrito algumas palavras sobre a minha amiga “Protagonista”, ela estava me ligando. O que teria acontecido, me perguntei? Afinal, ela nunca ligava naquele horário. Estaria com algum problema? Justo neste momento que programava algo diferente para a sua vida? Uma viagem de férias, na qual andaria de avião pela primeira vez? Não, não, não…pensei querendo tirar rapidamente algumas bobagens da cabeça.

-Oi, ela falou de imediato do outro lado da linha. Adivinha aonde eu estou? Não tenho idéia respondi, está tudo bem? Tudo bem? Está tudo ótimo, eu estou no Nordeste, numa praia maravilhosa. Ninguém podia viajar comigo e eu decidi vir sozinha. E vim de avião!!
E eu…em silêncio. Como assim? A minha amiga viajara para o Nordeste, “de avião” e sozinha? Eu estava pasma, como se não acreditasse em tamanha determinação, força de vontade, apropriação de desejo e contato com a vida. Não que a minha amiga não fosse corajosa, e que eu não acreditasse nela, só que até então esta coragem era direcionada aos filhos, à família e à quem precisasse dela. Mas agora era diferente, assenhorara-se de si mesma, estava feliz, encantada com a natureza, o mar azul e quentinho, os novos amigos e com as delícias de se hospedar num hotel confortável à beira-mar. Com muito orgulho, respondia aos colegas de viagem – estou viajando sozinha e andei de avião pela primeira vez. Estava maravilhada com os passeios que se presenteara, com o calçadão e suas atrações de enxer os olhos, que curtia todas as noites após o jantar. De tão autêntico, o seu encanto foi me contagiando, e como num sonho, me transportando para aquele lugar. Em minha imaginação senti a brisa quente da praia e o cheiro de mar a entranhar-se em meus sentidos, eu estava emocionada com a minha amiga.
Ela mostrava-se determinada, e eu nao tinha a menor dúvida que aquela era a primeira de muitas andanças que faria. Andança de encontro a si mesma, sozinha ou acompanhada, de avião, de onibus ou de carro, isto já não era mais, o mais importante. A prioridade era o compromisso, a generisidade consigo, a delicadeza e o cuidado que arrebataria a favor de si, maior consideração com o corpo e a saúde, limite dos sim (s) e dos não (s) e principalmente ao rumo e sentido que daria à sua vida.
O tempo passara, a paciente me esperava na sala ao lado, mas eu não poderia me despedir sem perguntar a ela, se lera o pequeno texto que eu havia escrito dias atrás, inspirada em sua história. “Li sim, ela respondeu, e no dia seguinte fui à agencia programar a minha viagem. Em uma semana, aqui estou”. (Eu estava impressionada com o rumo que as nossas ações – pequenas ou grandes, boas ou más – podem tomar quando “tocamos” a vida de alguém),
Na verdade, eu estava sendo testemunha de “uma história acontecendo”, se tornando realidade na realização de um sonho, no reconhecimento de um desejo. A minha amiga quebrara a sua rotina, criara um novo começo, elegera novas ações e fluía em novas direções. Aprendera a escutar a si mesma e a re-conhecer o amor que tinha pela vida, escutando, honrando e vivendo-a por inteiro. Nada lhe era fácil, nada caía do céu, mas ela tinha o apetite pela vida e não o deixaria escapar-lhe às mãos. Parafraseando Adélia Prado a minha amiga poderia dizer “Eu não quero a faca nem o queijo, eu quero o apetite”. Ela o tinha. E eu … não poderia deixar de contar esta história.

***Citação de Adélia Prado, extraída da palestra do colega Augusto Pompéia, no IX Grandes Seminários do IJBsb: “Sorte e Destino”. Bsb, 10/12/2016

Universo Interior


A rotina seguia o seu curso habitualmente naquela manhã, até que, ao chegar no meu carro, vi que ele estava arranhado e com marcas de tinta branca. Precisei de uma rápida retrospectiva em minha memória, até me dar conta que, com certeza, ele não estava com aquelas marcas quando o estacionei algumas horas atrás. A rua estava movimentada, motocicletas, carros, manobristas e eu consternada (há poucos dias fizera a revisão e alguns reparos no meu carro). Voltando a mim, (por segundos parecia estar num sonho), desabafei “arranharam o meu carro”, ao que o manobrista reagiu de imediato, “ninguém bateu no seu carro”. Ele sentiu-se ofendido, desmerecido em sua competência profissional. Tentei acalmá-lo, eu não o estava acusando. Eu apenas estava consternada com o ocorrido. E foi neste exato momento que ouvi uma voz vinda do carro ao lado:

-Estragou o seu carro?
-Sim, (respondi). Foi você?
-Sim, mas eu achei que não tinha acontecido nada.
-Ah…(murmurei)
-Mas não se preocupe, a Sra. pode mandar concertar o seu carro, me passa os seus dados bancários e o valor do reparo que eu faço a transferência para a sua conta. O que vai se fazer né? (resmungou consigo mesma). Pediu o número do meu celular fez uma rápida ligação para que seu número ficasse registrado na minha agenda, e assim encerramos aquele incidente (ou parte dele). Ela parecia estar com muita pressa e de pouca conversa aquela manhã. Não foi indelicada, apenas objetiva.
No entanto, a objetividade com que tratamos a situação, não impediu que eu ficasse muito chateada. Sabia que seriam alguns dias sem carro e o conforto que ele traz ao meu dia-a-dia. Tampouco respondeu as questões que reverberaram em mim por longo tempo:
É possível um motorista colidir no carro estacionado ao lado e não perceber? Não ouvir no mínimo um som diferente? E nesse caso, não deveria descer e examinar o acontecido? Certificar-se de algum estrago, por menor que fosse? Não deveria demonstrar um pequeno empenho em encontrar o dono do outro carro? Ou mesmo deixar um bilhete no parabrisa?
E a pergunta que não queria calar: E se eu não tivesse chegado naquele exato momento, a moça do carro ao lado teria ido embora como se nada tivesse acontecido?
Tais questões não me abandoram e só encontraram um lugar de sossego dentro de mim, quando caiu-me às mãos uma máxima de Emmanuel Kant que diz – “Duas coisas me inspiram um profundo respeito: o céu estrelado e o universo moral interior”.
Sim, Kant pressupõe a existência de um espaço no íntimo do ser humano, onde habita o âmago de cada atitude, que preexiste às regras exteriores, aos preceitos e artigos da lei, um espaço que é soberano ao testemunho e à autoridade externa.
Nesse sentido, pensei eu, dotado de uma instância moral interna, é imprescindível que o homem aja em conformidade com a exata consideração de sua responsabilidade, com atenção, consciência e consistência. Ocultar-se intencionalmente por detrás de uma fachada (eu não vi, não ouvi, não percebi), infelizmente, é a atitude que mais observamos em nossas ações diárias, quando comumente queremos impor os nossos interesses subjetivos. Esta atitude entretanto, não passa de um afrouxamento moral, que parece muito cômoda num primeiro momento, mas que enreda uma idéia egoística por detrás de uma máscara dissimulada.

Assim compreendi os meus questionamentos, a moça do carro ao lado não se negara a honrar sua dívida comigo, mas …e talvez só por isso, após derrubar a fachada que ocultava os seus interesses pessoais, e isso havia me inquietado.

Este olhar re-significou o episódio daquela manhã, colocando-me, tal como Kant, numa atitude de profundo respeito frente a valores humanos tão importantes.

Em contato com o Universo Moral Interior, eu pensei, o homem não age como mero observador da vida em busca de benefícios próprios mas toma parte dela colocando o peso da sua responsabilidade, de seu pensar, de seu sentir e agir. Nesse encontro, é ao homem que se reserva a liberdade e a decisão moral.

Naquele momento honrei os filósofos e poetas, que delicadamente deslizam entre as palavras inspirando-nos sempre novos rumos e significados.

 

Citação extraída do livro “Toques Sutis”, de Suzana Delmanto. Pg. 30

*Afrouxamento moral* termo de Carl Gustav Jung, O.C. Vol. IX/2