Ciranda das Amigas

Faltava pouco menos de uma semana para o grande “encontro das amigas”, quando ela se percebeu envolta num lindo devaneio imaginando as grandes emoções que as aguardavam.
Um encontro entre mulheres, amigas, irmãs de alma como chamavam-se umas às outras estando próximas ou bem distantes. Elas sabiam que para as almas, pouco importa a distância, e esta certeza, as mantinha unidas por mais de cinquenta anos.
Reza a lenda que anos atrás, as amigas reuniram-se num lugar distante das suas rotinas, das suas cidades e do dia-a-dia, num espaço onde viveram um tempo somente para elas, com elas. Desfrutaram a companhia umas das outras, a intimidade e o amor que as unia desde a infância. Lá curtiram a mais pura expressão de amizade, dividiram histórias, trocaram vivências e confidências, experiências, alegrias e tristezas. Riram muito e choraram juntas, compartilharam segredos e propósitos mas também saborearam gostosas especiarias preparadas com humor e criatividade, dançaram e cantaram.
Aquele encontro que surgiu tão despretensiosamente, ganhou periodicidade, nome, rituais e ritmos, fiando uma linda ciranda de emoções que se repetiria a cada ano, por muito anos, e esta noite, teciam os fios do seu devaneio e do próximo encontro.
E assim, uma a uma, as amigas foram chegando, ocupando um assento próprio em seu imaginário. É incrível como cada amiga compunha um cenário singular em sua vida. A amiga “criativa” que convida às refeições, não mede esforços para cuidar delicadamente da mesa ao redor da qual, todas vão se sentar e degustar deliciosas refeições e se perder (ou se encontrar) nas conversas intermináveis. Sim, intermináveis, porque lá o tempo não é lógico, não é linear e não está sujeito ao relógio. Lá, nestes dias, as amigas seguem o tempo do sentido e em sua instância maior, o tempo do envolvimento.
Vai se chegando a amiga que lhe ensinou como ninguém o que é viver dificuldades incalculáveis ao longo da vida, mantendo-se fiel às suas crenças, à bondade, amorosidade e à fé.
Aportaram por ali mulheres marcantes, inteligentes, simples ou sofisticadas, as que traduzem arte, criatividade e sensibilidade em cada atitude e na vida afora.
Neste deslizar de lembranças, as amigas foram tecendo uma linda ciranda de emoções, que as uniria nos tempos por vir e nos tempos de despedir, e elas bem o sabiam que – “voltando com amigos o mesmo caminho é mais curto”, – como poetiza Alice Ruiz.
Os próximos dias seriam intensos, ela precisava descansar. Fechou os olhos e dormiu.

Fronteiras

Recentemente me deparei com um texto, de autor desconhecido, com o qual me enleio há vários dias. O texto diz – “Fronteiras são limites saudáveis e pessoais que crio para mim mesmo, com as quais posso viver. São reflexos de uma forma saudável de amor próprio e autoestima. Tomo a decisão do que vou ou não aceitar, e quando não as respeito, perco a credibilidade e ponho em ameaça a minha dignidade.”

Incontáveis vezes a temática “fronteiras” (limites) permeou a minha vida, foi tema de análise – minha e dos pacientes – de aulas, seminários, supervisões e de tantas outras situações que vivi ou presenciei. No entanto, o contato com esta leitura, me revelou novas instâncias para eu entender e vivenciar as “fronteiras”. Um presente que encontrei nos caminhos do viver, tão original em sua descrição, indiscutivelmente emblemático, tornou-se a nascente para um novo pensar, sentir e agir.

A começar, saltou-me aos olhos o” lugar” de onde brotam as fronteiras, segundo o sábio desconhecido. Sua origem, sugere ele, nasce do interior mais íntimo e profundo de nós mesmos, num espaço onde habitam a autoestima e o amor próprio. De lá é que definimos o que queremos e não queremos para nós, o que permitimos ou não, o que aceitamos ou indeferimos ao outro. De lá edificamos fronteiras pessoais e saudáveis com as quais podemos e queremos viver.

O desfecho deste fragmento é que, o nosso bem viver depende cada vez menos do outro e mais de nós mesmos. Nós é que decidimos o que vai rasgar as nossas fronteiras nos deixando frágeis, suscetíveis e o que vai nos importar e afetar, pois as fronteiras são reflexos do nosso amor próprio e não resultantes das atitudes do outro. Isto, indubitavelmente não é problema nosso. Sem fronteiras nos distraímos de nossa essência, não sabemos onde termina o outro e onde inicia o eu.

Não podemos controlar o que vai nos arremeter, mas em compensação temos  gerência, responsabilidade e direitos sobre a nossa própria existência, o que de maneira alguma é o mesmo que sobrecarga e sofrimento mas talvez a mais pura expressão de liberdade que se possa desejar. Devolvemos ao outro o que de direito lhe pertence (humores, afetos, expectativas, tratos e mau-tratos, e tudo mais) enquanto retornamos às nossas próprias fronteiras prestando reverência e cuidado à vida e às escolhas que fizemos nela.

Daí pensar que criar fronteiras, fazer as próprias escolhas, empunhar decisões, é sobremaneira diferente de percorrer o caminho do individualismo doente, do egoísmo e do isolamento. Criar fronteiras não exclui o outro. Criar fronteiras é tecer credibilidade, dignidade e saúde. Assim me ensinou o mestre misterioso.   .

Duvidar é preciso

Quantas vezes estagnei diante da dúvida.
Quantas vezes a dúvida me descontinuou. Quantas vezes me debati por dúvida, com dúvida, na dúvida. Quantas vezes imaginei que duvidar combinava demais com fraquejar, com desanimar, intimidar e empacar.
Quantas vezes, em tempos de juventude – de decisões imediatas, posições precisas, de eficiência e sagacidade – me questionei – em que povoado eu assentaria a dúvida?
E são tantas dúvidas que desafiam a juventude, que incomodam e desacomodam idéias, despedaçam evidências, que invariavelmente, não as queremos por perto.
Mas hoje eu falo de um outro lugar,
De um outro tempo, onde duvidar é preciso.
Mas acima de tudo de um tempo em que posso desejar que seja diferente, posso ir ao encontro de outras verdades, de novas combinações e muitas outras rimas.
Nestes tempos, duvidar rima com confiar, ponderar, fiar, questionar, honrar, limitar e com acreditar. E dessa maneira eu pude construir um novo abrigo para sentar a dúvida perto de mim.
Perto, ela pode lembrar-me todas as perdas que vivemos por “não duvidar”, não checar certezas, questionar atitudes e investigar convicções.
Pode mostrar-me que, presos nas evidências (lugar onde não se ajustam as dúvidas), nos cegamos de unilateralidade, desperdiçamos relacionamentos, ferimos e somos feridos, botamos vida fora.
A dúvida pode lembrar-me que “ponto de vista” é apenas a vista de “um ponto”, jamais contempla os dois lados da mesma moeda.
Lembrar-me que ela própria, é um convite ao silêncio, à parada reflexiva, ao descer a partes enrijecidas e inflexíveis de nós mesmos, e com isso quiçá, descobrirmos lucros inesperados na vida, para a vida.
A dúvida pode advertir-me que a razão afasta a emoção, a empatia e a compaixão. Que “Ter sempre razão” é fiar solidão, pois inexoravelmente razão e relação não co-habitam no coração.
Neste lugar, de outros tempos e novas percepções, compreendo que a dúvida é um sinal de que posso estar indo muito depressa (ou devagar demais), que não estou enxergando determinados aspectos, que preciso, posso e devo silenciar diante deste “cutucar”, que anuncia novas direções. Entendo a dúvida como uma grande aliada de novos tempos, e porque não dizer – de todos os tempos onde duvidar é preciso e é precioso.
Dúvidas no caminho? Guardo todas - “Um dia faço um castelo com elas” (Parafraseando Quintana em seu poema “A vida”, ao referir-se às pedras no caminho.)

-E quem disse que dúvidas não são pedras a serem resgatadas no caminho?

Leveza

Naquele dia, ainda muito cedo de manhã, uma palavra pulsou de dentro de mim – Leveza. Tal mensagem  carregava um propósito, algo a comunicar, e eu soube disso naquele exato momento.

Vinda de um espaço tão íntimo, de maneira tão peculiar e espontânea, certamente desejava algo de mim. Acolhimento, atenção aos detalhes, á escuta, aos sons e cores, aos cheiros e sabores, aos desafios, às relações, e certamente ao inesperado da vida.
Acolheria a mensagem. “Hoje me proporia a viver com leveza.”
Ainda que não tivesse a menor ideia de como fazê-lo, nenhum plano traçado, eu sabia (deste mesmo lugar interior) que não se tratava de um desafio e sim de entrega, e isso faria enorme diferença.
Um dia lindo de sol, com temperatura amena no meio do inverno, foi o segundo grande presente e aliado que recebi naquele dia. Pés de fora e roupas leves de verão combinavam com cores claras e vibrantes lembrando a estação perfumada das flores.
Mas as horas vão passando, o dia cumprindo o seu curso e a vida nos apresentando desafios que facilmente nos desconectam desse “lugar interior” tão sábio e cheio de mistérios. Nos acreditamos tão ativos e altivos na caminhada  enquanto nos entorpecemos de nós mesmos, do mais íntimo e profundo de nós mesmos.
Fui fiel à leveza naquele dia, mas não sem problemas, não. Eles vieram, dando vida a um antigo  provérbio que diz  ”A natureza não dá nada de graça”. Alguns desafios, pra além dos práticos do dia-a-dia, me colocaram frente a frente à questões profundas da existência humana, ao medo – da vida e da morte – à impotência, a finitude do saudável, dos tempos e ciclos, da força e do envelhecer, do cuidar e do “ser cuidado”. Tudo isso e tanto mais se fez presente naquele dia de leveza.

Certamente não encontrei respostas, ou não encontrei todas as respostas, nem deixei de me sentir assustada em muitos momentos. Mas leveza tem a ver com respostas e soluções práticas? Certamente encontramos um grande alívio na resolução dos problemas e todos desejamos isto. No entanto, sabemos que esta não é a única maneira que a natureza se expressa em nossas vidas e podemos testemunhar isto sempre que dedicarmos um olhar profundo, honesto e cuidadoso para nós mesmos, para as nossas expectativas e atitude diante da vida. É deste espaço interior, inspirado e inspirador que emerge a possibilidade de um novo (bem)estar na vida, através do diálogo com o desconhecido, com o negligenciado interior e com outras dimensões de nós mesmos.

Olhar (viver) a vida através deste diálogo consigo, aproxima o homem de uma preciosidade rara, um dos maiores tesouros a alcançar – a liberdade. Ser livre é ser presente, responsável e reverente ao sentido da vida (mundo externo e interno). É não virar as costas ao desprezado de nós mesmos e tão facilmente encontrado em nossos desafetos. Ser livre (leve), é não ignorar que tudo em nós é desafio e sentido e que penetrar nestas duas instâncias é o compromisso maior da existência humana, que faz a vida ser plena e valer a pena. Talvez a única maneira de encontrar a paz. E a leveza.
Leveza, clareza, delicadeza e sutileza. Certamente uma graça a ser vivida todos os dias.