Na Ciranda das amigas – os dias eram assim.

Desde a primeira refeição que fizeram juntas naquele “encontro das amigas”, uma idéia já lhe ficou clara, alguns ou muitos assuntos ficariam inacabados, sem desfecho, pois as prosas se misturariam às inúmeras perguntas e comentários que brotariam de todos os lados da ciranda. Mas também não se importaria com a falta de desfechos pois o que importava de verdade, eram as conversas animadas saltitando entre as delícias e a beleza de cada mesa posta. Ali teriam flores, cores e muita delicadeza as esperando a cada manhã. Era como um belo sonho lhes oferecendo um toque de magia para que vivessem aquele ritual de amizade num “outro tempo” e num “outro espaço” – à revelia da vida e realidade de cada uma.

Elas desejavam somente, que o tempo passasse bem devagar, que as refeições se prolongassem, que os assuntos aprofundassem e que as suas almas não vagassem distantes umas das outras. Vaguearem juntas era o grande propósito naqueles dias.

A “Abertura do encontro” naturalmente se tornara um ritual e certamente o momento mais esperado por elas. As roupas bonitas, perfumes, batons coloridos e muita alegria se misturavam às palavras de carinho, dedicatórias e presentes que se ofertavam. Momentos de intensa emoção em que celebravam e agradeciam à vida por mantê-las unidas há tantos anos.

Mas, os dias seguiam seu curso …, e os grandes assuntos entraram em pauta. As amigas andaram pelo passado da cidade pequena onde nasceram e se conheceram, passearam por suas lembranças e saudades, partilharam histórias, conquistas, ganhos e perdas, aprendizados e medos. Mas, acima de tudo, passearam pelo sentido da vida. Ah, que questão interessante esta, do sentido da vida, quando lançada entre amigas de longa estrada.

Honrar a vida, a saúde, os propósitos e limites. Olhar e ouvir os medos bem de perto para que não se tornem fantasias monstruosas. Cuidar as expectativas para que não se transformem em frustrações. A busca da leveza, de corpo e de alma, das críticas e preconceitos. Receitas de culinária à cosméticos – conceitos de estética, beleza e conforto.
Usar salto alto somente em ocasiões muito especiais, todas queriam conforto. As varias formas de expressões da arte, a música, a fotografia, a escrita, a decoração, mas acima de tudo, elas pontuaram a arte como uma maneira de levar a vida. Dos mistérios do humor, do amor, e da alegria. Da dança às novas formas de divertir-se e de curtir a vida. Da mudança significativa da atenção – do “mundo fora” para o “mundo dentro”.Do minhocário ao cultivo de flores e jardins.Da partilha do Deus individual às mais variadas expressões da alma, do espírito e de suas crenças (ou não). Das raizes à liberdade de ser único.

Enfim, incontáveis assuntos cirandaram naqueles dias em que, dormiram muito pouco e sonharam acordadas. Algumas sonecas aqui e acolá e já estavam de volta à ciranda.

O tempo passa… e na janela da varanda, o som da chuva parecia rimar com as melodias selecionadas para aquela última manhã do encontro das amigas. O chimarrão seguia a roda enquanto as mulheres se distraiam em seus afazeres estéticos. O esmalte vermelho usado para retocar as unhas descascadas, não era exatamente igual ao usado por ela, mas isto nem era tão importante assim. Tantas coisas tinham vivido naqueles dias, que isso nem tinha significado. Retocar as sobrancelhas, as risadas e emoções, a cumplicidade, tudo estava ali. E a roda de sonhos acontecia enquanto os cogumelos eram delicadamente preparados para o almoço.

E assim, tudo ao mesmo tempo mas não necessariamente nesta ordem, foram vivendo o último dia do encontro das amigas e as despedidas. Levariam para casa o sabor daqueles dias, os propósitos, a saudade, os entendimentos e as gentilezas. Além da certeza de que na “Ciranda das amigas – os dias eram assim”. E elas bem o sabiam.

Simplificar

Em tempos de escola, eu sentia um encanto especial por algumas operações matemáticas, em especial pela “Regra de três”, e pela “Simplificação”. Me encantava ver as equações sendo mexidas e remexidas, os números sendo subtraídos e divididos e as parcelas trocarem de lugar enquanto a sentença matemática, toda faceira, ia se transformando em resultados absolutamente lógicos, simples e claros.
Que descoberta! Surge o “simples” (até então oculto), do incrivelmente complexo, e num instante, o intricado e o simples, equacionam-se mutuamente num paradigma de possibilidades e revelações.
Não segui as ciências exatas na minha escolha profissional, mas hoje vejo quanto aprendizado e realidade psicológica podemos extrair de uma operação matemática, (e de tantas outras operações) a serviço do bem viver.
Chegar ao simples, como nos instiga a “simplificação”, talvez seja uma das operações mais complexas, necessária e desafiadora da vida. Simplificar é descomplicar o que impede o nosso bem estar.
Me refiro aqui às equações mais variadas que enfrentamos na vida. Do vestir, comunicar, limitar, desejar, ao sentir, tudo em nossa existência pode se tornar simples.
Ah! que maravilha ver os cabides deslizarem livremente no interior dos nossos armários, sem emperrarem no amontoado de roupas que ali vivem, sem utilidade, esquecidas no tempo e dificultando por demais a escolha de cada manhã e a visão do que realmente queremos, precisamos e aproveitamos. Que simples se torna a vida, quando selecionamos a meia dúzia de peças (ou dúzia e meia?) que de verdade nos vestem, e as vemos desembaraçadas dos excessos e apegos, prontas para serem combinadas num vestir harmonioso de um dia “de bem com a vida”! Tudo parece tão simples! Extraímos do todo (amontoado) o que realmente nos importa, nos alegra e nos conforta.
Mas e as emoções como simplifica-las? Como tornar “simples” algo tão complexo e tantas vezes desconhecido de nós mesmos?
O filme “Sete minutos depois da meia noite” traz a cena de uma emoção se tornando simples. O protagonista Conor O’Malley, menino de 12 anos, enfrenta um drama enorme que é a doença terminal da mãe. Nesta cena, Conor e o monstro – um lado seu inconsciente – aparecem lado-a-lado próximos à mãe que está morrendo.
O monstro lhe diz:
“Diga a ela”
“Eu não consigo”, responde Conor.
Ao que o monstro acrescenta:
“Agora o que você tem que falar, é a verdade mais simples”.
E Conor chorando muito, abraça a mãe e lhe diz:
“Eu não quero que você morra”.
É o simples extraído de um turbilhão de emoções muito complexas. Expressar o simples (de maneira simples) não evitou que Conor sofresse as dores da perda da mãe, mas o libertou das emoções inconscientes, que atrapalhavam por demais a sua vida.
Recentemente um paciente relatou uma crise recorrente que vivia com a esposa por achar que ela dedicava pouca atenção ao casamento deles. Isso o deixava muito triste com sentimentos de profundo abandono. Sem reconhecer suas emoções, reagia com muita raiva, afastando ainda mais a esposa. A pergunta que lhe fiz foi se ele havia dito à esposa o quanto estava triste por isso ? Se havia lhe dito simples assim? Sem subterfúgios? O silêncio que se fez, mostrou que, no lugar das emoções sinceras, ele se aprisionara num emaranhado de raiva e ressentimentos que o afastavam cada vez mais do que verdadeiramente desejava.
Manter simples a nossa comunicação, ser honestos com o que realmente importa, sem subterfúgios ou manipulações, dar às nossas preocupações a medida do real, simplificar detalhes, não é tarefa fácil, mas certamente é a melhor forma de tocarmos a vida em frente, em busca do bem viver. Afinal não é isso que buscamos?
Mas … e a “Regra de três”? Quem me conhece sabe o apreço que tenho pela “ Regra de três“. Quem sabe algum dia escrevo sobre ela?