Manteiga / margarina

Assim que abri a porta, fui inundada pelo inebriante aroma do creme de aspargos, que aquela noite, escolhi para jantar no quarto do hotel. O creme fumegante, o queijo ralado e as torradinhas com manteiga compunham o cardápio perfeito para aquele momento. No entanto, uma surpresa mudou o cenário, a manteiga foi substituída por margarina e eu não tolero margarina. Frustração e um pedido de troca nada resolveu. O hotel havia mudado o produto, o fornecedor, ou sei lá o que. O fato é que estávamos ali, a margarina e eu, como em tantos outros momentos, uma frente à outra, sem nos tocarmos.
Uma viagem no tempo me transportou de imediato à minha infância, ao lugar onde tantas vezes a minha irmã se empenhou na árdua tarefa de provar que “não gostar de margarina” era fricote meu, que eu nem percebia a diferença. Isso acontecia geralmente à noite quando nos revezávamos em buscar o pão na cozinha, para um último lanche antes de dormirmos. Nestas noites, ela costumava passar margarina no meu pão, cobrir com uma farta porção de mel ou geleia e me garantia que era manteiga. Foram várias tentativas em vão, mas a verdade é que eu nunca comi “margarina por manteiga” e a minha irmã nunca provou a sua tese.
De volta ao presente … ao jantar no hotel …
Impossível não pensar na importância das lembranças e no valor que elas carregam ao nos acompanhar, fazer rir, chorar, reciclar, parar ou impulsionar a vida.
Impossível não pensar nos gostos e sabores (traços e perfis) que carregamos e que “nos carregam“ desde a infância. Quantos podemos mudar, e quantos não mudam jamais? É com estes certamente, que precisamos nos ocupar e comprometer sobremaneira, assumir responsabilidades e a tarefa de conduzi-los a cada instante da vida. Naqueles tempos de infância, a escolha já era minha e eu precisava me comprometer com o meu des-sabor. Ou eu buscava meu próprio pão (com manteiga) ou dormia sem o lanche. Simples assim, até que a minha irmã se convencesse de que eu, definitivamente, não comeria a margarina e voltássemos a nos revezar na busca do pão.
Impossível não pensar que a manteiga acresce sabor, leveza e liga perfeita aos alimentos. Entre o pão e a geleia (ou sem geleia), lá está ela, discreta, unindo e ressaltando os gostos numa perfeita combinação.
Impossível não associar estas delícias – de lembranças e sabores – com as emoções que
mesclam os dias e como amálgama conectam a vida à profundidade, à intensidade e ao sentido.
Impossível não pensar na vida árdua e árida que levamos, quando não orquestramos as nossas emoções. Experimentamos secura, ressentimentos, frieza e esterilidade, vivências sem experiências, pão sem manteiga e tantos dissabores.
Reconhecer gostos, aromas, preferências, descobrir o mistério que une o mutável e o constante, diferenciar sutilezas, assumir novas atitudes, cuidados e responsabilidades, se envolver nas lembranças e devaneios, nas saudades e emoções, tudo isso … gerando uma grande composição na orquestra da vida.
E no impasse entre a margarina, a manteiga, eu e a minha irmã, surgiu uma nova possibilidade – margarina derretida na farinha se transformando em deliciosa farofa – e isso me agradou muito.
O creme de aspargos estava delicioso, as lembranças me fizeram companhia e a margarina continuou intocada no pote, como sempre. Quem sabe um dia a manteiga retornaria ao cardápio do hotel? Ou às minhas fantasias? Torci por isso!