Grisalhar

O plano era este mesmo – grisalhar.
Sim, eu pensava em “um dia ”parar de pintar os cabelos, mas era um projeto remoto, mais próximo ou logo adiante dos meus 70 anos. A minha mãe morreu aos 85 anos e até bem próximo a este momento pintava os cabelos. Na verdade, sou uma das responsáveis por isso. Primeiro, por ter sido eu mesma que pintei os seus cabelos durante anos e segundo porque sempre que ela manifestava a vontade de deixar as tintas, eu era a primeira a dissuadi-la da idéia. Enfim, eram outros tempos e os meus tempos se alteraram completamente quando fiz 62 anos e me vi cansada das tintas, do tempo perdido retocando os fios brancos que teimavam em aparecer em períodos cada vez mais curtos, mas acima de tudo eu estava muito incomodada com a minha imagem delineada num tom castanho que já não me pertencia.
Gradualmente, numa mistura desajeitada de cores, cortes e visual, fui me movimentando entre fitas e coques que disfarçavam a confusão do vir a ser e enquanto me distanciava da velha imagem, ia me re-descobrindo. Comecei a gostar do que via no espelho, de ver a escova livre dos fios em queda, do castanho que ia dando lugar ao grisalho de fios mais saudáveis e brilhosos. Tudo indicava que as coisas iam bem, que eu tinha feito uma boa escolha.
Com o passar dos dias, percebi também algumas benfeitorias ao meu redor dando sinais de bons tempos. Ajuda para acomodar a bagagem nos voos, delicadezas, atenções e cuidados , amigas buscando dicas do “grisalhar”, a descoberta de novos produtos para fortalecer, dar brilho e não amarelar o branco. Sim, o fio branco é sensível, delicado e como todas as mudança na vida, “grisalhar” nos apresenta um novo universo que aceitei entrar e me surpreender com tantas novidades que suscitavam um olhar atento e cuidado refinado.
Neste universo “grisalho” me surpreendi ao ouvir que em tom castanho eu parecia muito mais nova do que agora em tempos de cabelos brancos. A minha surpresa não foi o que ouvi, isto eu mesma já o sabia. Mas o que me surpreendeu de fato, foi me dar conta que eu não tinha mais nenhum desejo de “parecer mais jovem”. Eu estava muito animada com a idade que tinha e com a idade que transparecia. A minha alma habitava exatamente os meus 62 anos, eu não brigava com isso e por isto ela podia se deliciar e me conectar com tantas possibilidades.
Em tempos de grisalhar, me percebi retirando do guarda-roupa todas as peças que desalinhavam com o meu momento, com o meu querer, com o meu gosto e conforto. Conforto era a ordem da vez. Nada mais iria me fazer sentir comprimida, apertada, amarrada pela cintura ou impedida de me movimentar livremente. Adeus às calças jeans, salto alto (só em ocasiões especialíssimas, de altura moderada e conforto máximo). Ah! A minha alma (e meu corpo) estavam se deliciando com isto, as minhas roupas deslizavam muito livremente em meu guarda-roupa (já escrevi sobre isto), e a cada dia a vida ficava mais simples, pelo menos no que dependia das minhas ações, escolhas e decisões. Quanto ao resto… bem, o resto é tema para outro pensar.
Outro fato aconteceu, nos últimos dias, que reverberou o grisalhar ainda mais. Uma colega mandou uma delicada mensagem de final de ano que dizia “Parabéns pelas transformações que tens vivido e pelos cabelos platinados”. Gostei da expressão “cabelos platinados”, e a delicadeza de suas palavras inspirou esta escrita. Compreendi que nenhuma transformação acontece de forma isolada, mas sim (literalmente) “da cabeça aos pés”, do externo ao interno (ou vice-versa) num movimento contínuo que não finaliza num ponto de chegada mas desliza por uma vida inteira e por muitos caminhos. Grisalhar era apenas um dos caminhos, e eu estava nele.
Mas…e o que dizer às amigas que me pediram dicas sobre o “grisalhar”? Bem, à elas uma citação do Dicionário Informal no Google – “ Uma pessoa que está começando a ficar com os cabelos brancos não é grisalho, é interessante”.

Um espaço interessante

Vou contar aqui, a história deste espaço (Blog), que nasceu de um sonho, ou mais especificamente, de uma série de sonhos, que se repetiram por anos.
“Eu entro no meu consultório para um dia de trabalho, e me surpreendo ao ver uma abertura (que não existe) na parede esquerda da sala. Curiosa, me aproximo e vejo que ali tem uma escada que conduz ao andar de cima. Subo as escadas e encontro um espaço desconhecido, amplo e com varias salas. Elas estão mobiliadas e prontas para serem usadas em aulas, palestras, grupos, enfim, elas eram minhas e eu poderia usá-las quando e como desejasse, por mais inusitado que me parecesse. Pasma, me pergunto como eu não sabia deste lugar tão cuidadosamente preparado e com tantas possibilidades. Fico longo tempo encantada, admirada, surpresa e feliz.” E assim terminava sonho.
Passa o tempo (anos)….e lá estava o espaço desconhecido novamente, o frio na barriga
pela surpresa e o encantamento em outro, outro e outros sonhos. Muitas análises circularam cada sonho, todas trazendo grande sentido para mim, pois no passar do tempo, também a minha vida e o meu trabalho ganhavam novas proporções, espaços, áreas de atuação, novas instituições, propostas e propósitos.Tudo parecia muito significativo e eu me via no exato compasso dos sonhos, “ampliando espaços”.
Foi neste movimento interno/externo, neste entre-sonhos de “novas possibilidades”, que nasceu a ideia de um espaço de escrita (blog) ainda que eu, em momento algum, o tivesse associado aos sonhos. De início um projeto acanhado, que se fez tateando e espiando o mundo, buscando conteúdos e formas de expressão, pilares teóricos e formais, temas práticos e vivenciais, apreendidos e surpreendidos. Um engatinhar que se transformou em primeiros passos, movimentando-se do impulso ao recuo, no ir e vir de criações e expressões, nas vivências e liberdade de expressão, mas acima de tudo de comprometimento, consciência e responsabilidade na partilha das minhas ideias. Mas ainda percebia um caminhar hesitante.
E enquanto isso, outro sonho …
“Eu estou entrando no consultório para mais um dia de trabalho e vejo a abertura na parede esquerda da sala (a mesma dos outros sonhos) ,penso: Ah! Já conheço este lugar. Lá em cima estão as salas…Mas ao olhar para a direita, vejo que lá também tem uma abertura na parede, e esta, eu desconhecia. Nossa! Eu penso admirada. Que lugar é este? Vou entrando, e percebo que era um lugar diferente do andar de cima revelado nos outros sonhos. Era um lugar de moradia, de intimidade e conforto, quarto, cozinha, área de serviço, banheiro. Eu ia examinando tudo, perplexa e encantada, quando num sobressalto, ouvi nitidamente uma voz que me dizia – “É o teu lugar de escrita”. Neste momento, eu já sentada na cama, compreendi com a emoção contagiante do sonho, que este lugar da escrita me pertencia (possivelmente desde a infância), e que se tratava de um lugar de intimidade onde eu poderia expressar a minha visão de mundo, dar forma, habitar e transitar num ritmo próprio. O sonho parecia dizer “Entre e sinta-se à vontade”, apresentando-me um espaço confortável e interessante. Sim, naquele instante compreendi que algo interno na minha relação com este espaço modificara, e eu só escreveria se tivesse algo interessante (na minha visão) a dizer e me sentisse confortável para fazê- lo e partilhar. De maneira simples, um sentimento de liberdade, responsabilidade e autoria tomou conta de mim, e com isso a possibilidade de brincar com as palavras construindo frases, de transformar pensamentos e ideias em pinceladas leves e quiçá coloridas e humoradas. Honrando e agradecida às imagens e emoções dos sonhos, percebi o quanto este espaço tornava a minha vida interessante e quem sabe pudesse levar algo interessante aos visitantes que aqui chegam. Afinal, como diz o psicanalista Contardo Calligaris – “Eu não quero ser feliz. Eu quero ter uma vida interessante”. E que cada um encontre a sua maneira.

A janta

Ela estava muito incomodada pelo fato do marido nunca ter a iniciativa de providenciar, fazer ou mesmo pensar na janta. Ele jogava esta e tantas outras responsabilidades sobre ela (ou ela as pegava pra si?) que, envolvida nos afazeres com as crianças, sentia-se exausta, sobrecarregada e sem nenhuma disposição para pensar na janta. Desde que teve as filhas gêmeas sua vida mudou muito, entrou numa roda viva de afazeres e em muitos momentos já nem se reconhecia mais. Amava as filhas, a maternidade, a família mas sentia-se distante demais de si mesma.
Contei a ela que um dia, após longa jornada de trabalho, eu e o meu marido chegamos juntos em casa, tão juntos quanto havíamos saído de manhã cedo. Ao botarmos a chave na porta, ele me olhou e perguntou: O que tem de janta? Ótima pergunta, pensei. Não tenho a menor ideia, já que ninguém estivera em casa durante o dia e milagres não acontecem, pelo menos não na minha casa. Assim sendo, não encontraríamos uma mesa posta nem comida quentinha no fogão.
E aí? Perguntou ela curiosamente
Abrimos a porta, entramos em casa e fomos combinar a janta para aquela noite.
E aí? Perguntou ela novamente, ansiosa para saber qual a solução (“a grande saída”) que tínhamos achado para o problema da janta.
Aí…(eu respondi), continuamos até hoje combinando a janta.
Mais cautelosamente ainda, temendo ser invasiva ela arriscou “E isso há quanto tempo…”?
Eu não tive problema algum em responder:
A contar do episódio “chave na porta”… mais de 20 anos.
Ela recostou-se na cadeira. Possivelmente buscava uma posição confortável para absorver a idéia de que as respostas que procurava não chegariam prontas; não são óbvias, nem definitivas. Precisaria compreender que as questões que a moviam (ou a paralisavam), faziam parte da sua natureza, e que a natureza segue suas próprias leis, dizia Heráclito.
Ela precisaria seguir os desafios da sua natureza e as intempéries trazidas por ela. Precisaria olhar para si mesma, possivelmente corrigir atitudes, questionar certezas, checar opiniões, se reposicionar frente a vida, e acima de tudo ter paciência e flexibilidade para entender que as “respostas” são simples estações de alívio, jamais um lugar de permanência. O que é resposta hoje, é dúvida amanhã. O que é a cura do hoje, pode envenenar o amanhã, e assim é a vida desde que o mundo é mundo.
Tudo isso é muito trabalhoso, mas onde há trabalho há vida. Requer tempo sim, disponibilidade e paciência mas também é a condição para as “combinações” que ela precisaria fazer com o marido, caso escolhesse seguir a vida ao seu lado.
Combinar, no cenário dos relacionamentos, é obra além da lógica, da praticidade e objetividade, da razão e da justiça. É obra de arte. A arte das vivências conscientes, da mistura harmoniosa (outras nem tão harmoniosas assim), das pequenas nuances, da empatia e simpatia, do toque sútil, da delicadeza e assertividade, dos nãos necessários e pedidos claros, da sinceridade e honestidade, das lágrimas que escorrem mas não inundam. É arte que vai das grandes decisões às pequenas concessões, e quem sabe ao sim – continuamos juntos- apesar da janta de cada noite.