Tributo a um grande amor

Hoje é o aniversário de uma pessoa com quem experimentei a primeira e mais genuína forma de amor. A pessoa que me gerou, gestou, cuidou e ensinou como andar pelas trilhas da vida.
Não é um dia qualquer e nem posso comemorar como um dia-de-aniversário no qual escolhemos um presente e entregamos entre beijos, abraços e um “parabéns a você”.
Não, hoje o abraço é envolto em saudades, lembranças e emoções que se expressam aqui e acolá em incríveis nuances.
Hoje não posso me deliciar com salgadinhos e bolo mas posso saborear as lembranças e agradecimentos de uma história que honro, agradeço e escolhi para comemorar este aniversário.
E assim, início este presente agradecendo à acolhida incondicional de minha decisão, aos 13 anos de idade (talvez a primeira grande decisão de minha vida), quando naquela tarde quente de verão, último dia do ano escolar, eu cheguei do colégio joguei o uniforme no chão e disse, em tom decidido, que nunca mais voltaria para aquele lugar. Respeitosamente me deixastes explicar. Eu não era a aluna “mau elemento” do colégio, como fora acusada pela freira que cuidava da disciplina da escola. Certamente reivindiquei uma nota que achei injusta e lutei pelos meus direitos, mas isto, de maneira alguma comprometia a minha reputação. Quero te agradecer não só por me ouvires mas também por me possibilitares viver o ano dourado de minha adolescência. Escola nova, meninas e meninos na mesma sala, professores diferentes, mundo novo vida nova. Honro este momento porque fiz uma escolha, fui ouvida e respeitada e certamente carrego comigo os efeitos e afetos de tudo isto. O meu presente de aniversário hoje, é lembrar e honrar esse episódio do passado, certa que ele me forma e transforma todos os dias. Sou grata pela dignidade que incentivastes em mim.
Sou grata aos momentos em que me tornei mãe, e o teu olhar esteve, a cada momento, repleto de atenção às minhas necessidades, aos meus sentimentos, inseguranças, medos e ao meu sono. O sono, dizias sempre, é imprescindível à saúde. Espelhavas como ninguém as minhas necessidades, e isto me fez sentir viva e dar vida à minha existência.
Sou grata por me ensinares valores preciosos da existência humana, a respeitar, reconhecer e honrar a vida, a velhice e a morte. Obrigada por me permitires te cuidar tornando cada momento de tua despedida, experiências de empatia, compaixão e amor. Obrigada por me ensinares a ser uma pessoa que se comprometeu em fazer o melhor para aliviar a tua dor e a tua solidão. Obrigada pela paz que me deixastes em tua despedida.
Eu poderia colocar nesta caixa presente, incontáveis episódios de nossa caminhada juntas, mas vou ser fiel à estas memórias que “me escolheram” para vestir este dia de aniversário, e me despeço agradecendo sobremaneira por me mostrares que eu não sou “mau elemento” e que devo lutar sempre pela minha dignidade.

Vaguear

Aquele dia acordei “tocando” o silêncio ao meu redor. De início experimentei a sensação de um arrepio descendo (ou subindo) pela minha coluna. Senti um estranhamento, afinal os dias em minha vida não andavam tão tranquilos assim, a ponto de eu pensar em calmaria. Seria uma tempestade vindo dos arredores? De longe ou mais próxima do que eu poderia perceber? Ou não? Não seria nenhuma tempestade vindo, mas se tratava simplesmente da calma de um dia porvir de brechas, intervalos, mudanças de planos, afrouxamento na agenda, ideias rondando, chegando e brincando com este “a fazer”, ainda em perspectiva?
Aquele dia entendi que poderia dar liberdade às ideias que chegassem (sorrateiramente ou não), pois sabia que se elas se sentissem confortáveis comigo poderiam me presentear com belas surpresas.
Aquele dia entendi que poderia vaguear junto às minhas ideias. Pra onde elas me levassem eu iria, afinal eu sabia que elas – as minhas ideias – não me trairiam com desejos inalcançáveis e sonhos impossíveis. Eu sabia que elas me deixariam ao redor das minhas possibilidades, perto dos meus limites, do realizável daquele momento. Simples assim.
Segui as minhas ideias e o dia foi bacana. Nada de excepcional, tudo simples como perambular com uma amiga, com quem nos perdemos no tempo exatamente no momento em que deixamos o tempo nos levar.
Neste dia, entre abraços apertados (que são os melhores), idas e vindas de um passeio sem rumo, paradas para um gelado, livros e sol brilhante, vagueei e me encantei de ideias.
Entre o silêncio da manhã, brechas na agenda e o andar guiado pelo inesperado, compreendi que as ideias são inspirações da alma que deseja, por alguns momentos, se expressar livremente, driblar os compromissos, obrigações e a pressa. São inspirações da alma, anciã do tempo, qur sabr que amanhã o som da vida retorna, as horas se comprimem na agenda, os problemas voltam aos seus lugares mas que as ideias precisam se manter vivas.

Partidas e chegadas

Há alguns dias uma amiga querida perguntou-me se eu havia parado de escrever, disse carinhosamente que sentia falta dos meus textos. A pergunta reverberou em mim e imediatamente me transportou para uma imagem que surgiu em minha mente.
A imagem era a da sala de espera do aeroporto, quando estamos prontos para o embarque, apenas aguardando e checando o painel de informações sobre os voos, portões de embarque, pontualidade e atrasos. Tudo está certo até que inesperadamente o painel roda, nos moldes de uma roleta que em minutos vai anunciar a sorte de um ganhador ou o infortúnio do perdedor. Tudo se altera, os voos parecem sumir inexplicavelmente do painel e por segundos pensamos perder a viagem. É preciso um tempo de espera até que o painel role novamente nos trazendo as próximas orientações, enquanto ininterruptamente, os voos chegam e partem desaparecendo em segundos por entre as nuvens.
É incrível como as imagens encaixam-se tão admiravelmente à realidade humana, pensei eu, e neste momento elas me ajudavam a responder à minha amiga. Sim, os voos haviam sofrido uma forte alteração no painel da vida, e em tempos de tempestades, é preciso muita atenção para viver as mudanças que se fazem anunciar.
Eu continuava escrevendo, não em palavras escritas, mas em palavras vividas que comporiam a viagem de um outro capítulo da história. Neste, a saudade e a falta de quem se foi por entre as nuvens, num voo rápido e de rota inesperada era imensa, irrepresentável e indiscutível. Mas foi certamente em quem ficou e aterrissou num solo dilacerado pela dor e solidão, que assentei a minha atenção.
Era preciso muita atenção nos tempos porvir de quem espera os próximos voos. Atenção coberta de delicadeza reconhecendo e respeitando a força das emoções. Atenção intuitiva onde surgem inspirações sutis capazes de aliviar momentaneamente o peso da dor. Atenção amorosa que possibilita colocar no colo, abraçar e permanecer por tempo indeterminado com a respiração entrecortada pelo sofrimento, insegurança e medo. Atenção do coração que abre espaços e anuncia o momento preciso e precioso de encostar o rosto e deixar cair as lágrimas que se misturam numa mescla de experiências, afetos e amor incondicional.
Sim, respondi à minha amiga, estive escrevendo sim, por estes tempos, mas certamente entre partidas e chegadas de um painel que rodou abruptamente.