Vida alagada

Os dias eram assim, as dores no corpo se repetiam sem trégua, insônia, ansiedade e as lágrimas escorriam sem parar tornando-a absolutamente suscetível. As queixas afogadas em lágrimas punham em risco o solo que a sustentava e traduzidas em palavras viravam lamentos transformados em opiniões. Opinava e emitia pareceres e julgamentos absolutamente fechados sobre tudo, ainda que da vida muito pouco conhecesse. A raiva fervia-lhe as faces, o ressentimento arranhava a sua jovialidade. Era um corpo jovem carregando e sendo carregado por uma alma velha, ressentida e amargurada.
As opiniões – críticas de modo geral – a conduziam com punhos de ferro pelo interior de suas relações, afetos e profissão. Por melhor que imaginasse o porvir, o final se repetia incansavelmente em amarguras e ressentimentos. Um pequeno deslize (do outro), uma atitude inesperada ou a mínima contrariedade, e lá estava ela enfurecida, consumida pelas ruminações multiplicadas de cada detalhe. E ela era ainda tão jovem, tão insipiente em uma história a ser vivida. Tão pouco sabia do mundo e de si mesma para estar assim aprisionada às mazelas das certezas inquestionáveis.
“Chore, mas chore andando” é um ditado de uso próprio que simboliza o continuo movimento da vida e o rolar das lágrimas, e que para ela significava um sinal de alerta. Chorava andando e andava chorando pelos quatro cantos de sua vida. O que para uma pessoa é remédio para outra é veneno, isso já o sabemos há muito tempo e combina por demais nesta história.
Era preciso transformar as lágrimas em reflexões, não esquecer que toda a verdade carrega um núcleo interior de possibilidades, de meias verdades, de contradições e de pontos de vista diferentes. Que nem sempre afirmar verdades significa ser verdadeiro no que se diz. Que as opiniões são verdades a serem postas a prova. Que verdades absolutas são paradigmas a caminho do morrer ou do matar, da literalidade e do adoecimento. Que a ideia que temos das coisas não são necessariamente as coisas em si, senão a subjetividade (ou subjetivismo) de um conteúdo se expressando na linguagem própria de um tempo específico.
E assim sendo, assistiríamos o rejuvenescer da alma estando ela em corpo jovem ou ancião, pois para a alma isto pouco importa. Entenderíamos que tudo “que vive” pode e deve; passar pelo trabalho delicado da diferenciação, da consciência ampliada na consideração ao outro mas acima de tudo entenderíamos que podemos desenvolver a sutileza da empatia e o privilégio da compaixão.
Esta é uma obra difícil, talvez de uma vida toda mas certamente é a maneira de secar os excessos – de lágrimas, de sintomas e desatinos – de libertarmos a alma do aprisionamento nas certezas, rumo a uma vida “animada”, rica em significado e saúde.
Há que se pensar que no interior de opiniões cerradas vive uma alma aprisionada, uma vida alagada e um coração dilacerado, que urgem por liberdade.

Uma segunda-feira sem domingo

Cedinho da manhã ela acordou ainda sonolenta o que não lhe causou espanto, afinal nunca morreu de amores por levantar muito cedo. Naquele desperta/dorme, levanta ou fica um pouco mais na cama, os seus pensamento sintonizaram de imediato à agenda do dia.
Com um esforço possível pulou da cama pois assim teria tempo suficiente para todos os afazeres programados para aquela manhã de segunda-feira. Marcar dentista, colocar roupas na máquina, preparar conteúdos para a próxima aula, ligar para a amiga que esteve em seus sonhos na noite anterior, dar um pulo no supermercado para as compras da semana, rever alguns horários da agenda ainda pendentes, dar uma passada no banco e quiçá ainda ter tempo para fazer exercícios. Ufa, tudo isto passava-lhe a cabeça enquanto tomava um banho rápido antes de iniciar a lista de afazeres, já quase esmagada no tempo que urgia.
Em meio aos pensamentos, à água morna do banho, perguntou-se sobre o domingo. Como havia mesmo sido o seu domingo? O almoço, o filme da tarde, a pizza do jantar? E então tudo se esclareceu. Aquela não era uma manhã de segunda-feira. Era domingo e ela estivera completamente equivocada. Ainda era cedo da manhã de domingo e ela já estava pronta para a maratona de segunda-feira.
Não acreditava no que estava se passando. Como pudera se enganar e elaborar tantos detalhes que desfilavam em pensamentos, ideias e decisões para aquele dia?Claro, sua vida andava um pouco atropelada nos últimos tempos e “atrapalhar os dias” pareceu-lhe consequência.
E neste momento o engano transformou-se em comprometimento consigo mesma. Certamente iria olhar com mais atenção e cuidado para todos os seus afazeres, seus atropelos e apelos, suas horas de sono, suas folgas e lazer pois ela bem o sabia que nesse combinado habitam a saúde, a qualidade e o sentido da vida.
Mas e agora o que fazer neste dia? Voltar para a cama e dar mais uma soneca? Não, não sentia o menor sono. Ignorar o acontecido e antecipar a lista da segunda-feira? De maneira alguma. Estaria traindo o domingo, o seu mais novo presente e negando o compromisso recém assumido consigo mesma. E a verdade mesmo é que ela estava muito encantada com o domingo não vivido que agora se apresentava espalhado em possibilidades. Antecipando o tempo estaria mais uma vez atropelando os seus dias. A decisão estava tomada, simplesmente deixaria as coisas acontecerem “em tempos de domingo”. Fora surpreendida pelo inesperado e bem o sabia que não é todo o dia que se “ganha um dia”. Ela decidiu que daria atenção especial à cada momento daquele domingo (e quiçá a todos os domingos e a todos os dias) e honraria o tempo para que ele não lhe escorresse entre os dedos, afinal ouvira certa feita que “ O tempo é o maior presente que se pode ganhar”. E ela o ganhara em embalagem de domingo. Não mais uma segunda-feira sem domingo pensou consigo mesma.

A alma no tablado

De manhã ainda cedinho recebi um convite delicado de Maria, para assisti-la em uma apresentação de dança, que aconteceria logo mais à noite. Carinhosamente ela dizia que ficaria muito feliz com a minha presença entre os seus convidados. Nenhum impedimento dificultou que eu estivesse lá, e assisti-la foi um grande presente no meu dia.
Presenciei um belíssimo espetáculo e vibrei a cada instante com a performance dos bailarinos o profissionalismo da equipe e a qualidade impecável do show que foi preparado aqui mesmo em nossa terra. E pensar que tantas vezes não percebemos as belezas que existem tão perto de nós.
Foi uma noite linda, assisti-la dançar impecável em seu vestido de babados fartos, ao ritmo de um sapateado vibrante e harmonioso, o brilho nos olhos envoltos em maquiagem perfeita, a música , os cantos. Tudo um encanto.
Simultâneo ao espetáculo ocorreu um fato a princípio contraditório. Tão logo cheguei em casa, recebi o convite de “outra” Maria (são tantas “Marias” como retrata uma amiga artista), para eu “assisti-la” em um momento difícil de vida. Uma Maria que não pisava o tablado vibrante de bailarinos e sons, que não era aplaudida por uma plateia animada, que não enrolava-se entre os babados de um lindo vestido de bailado. Mas uma Maria que se atrapalhava entre roupas a lavar e passar, entre os brinquedos das crianças que passaram a noite espalhados no tapete da sala e ali permaneciam esperando que alguém os recolhesse, no preparo do almoço já atrasado. O seu tablado era o cenário do “tudo por fazer”. Neste espaço, Maria era uma bailarina sem brilhos, corpo de baile ou plateia. E eu era a única convidada a “assisti-la”.
Elas eram Marias tão semelhantes e tão diferentes. Enquanto uma levava a alma para bailar a outra levava a alma para faxinar, e é assim que a vida acontece. Hora no tablado da dança, da alegria do aplauso hora no tablado de cada dia, dos desafios e desafetos. Nada há de permanente e nada há que se possa fazer para impedir estas variações da vida, a não ser que se busque o passo certo, a atenção cuidadosa à orquestra que toca espetáculos ou rotinas, que se aceite o trabalho pesado, que se viva os desafios, reverencie os aplausos e suporte a solidão. Que se busque o foco do momento exato de subir ao palco e da hora precisa de descer à vida, às suas dificuldades e propósitos. Que se busque o foco da tarefa necessária, das inquietações e medos, mas também que se atente aos aplausos da plateia que vive em cada um de nós, ao espetáculo de cada vida, às pequenas alegrias e belezas que nos pertencem. É preciso que se dance a vida e que se viva a dança. “A vida te faz dançar” poetiza o maestro Antonio Gades, te faz girar, sapatear, esperar e seguir. Vivendo a dança de cada instante encontramos o movimento perfeito no passo a passo da alma de todas as Marias. E que dancem as Marias em cada um de nós, homens e mulheres, gordos e magros, negros, brancos, jovens e velhos! Em todos nós!