Con-versar

Con-versar
Conta o conto que duas mulheres estiveram presas na mesma cela de uma penitenciária por 30 anos e, por coincidência, foram soltas no mesmo dia e hora . No momento tão esperado, frente ao portão que se abriria para a liberdade, uma olhou para a outra e perguntou: O que você vai fazer hoje à tarde?
- Ainda não sei, ao que a interlocutora arguiu: então passa lá em casa, eu tenho uma coisa para con-versar com você. Parece que o convite foi aceito e tudo indica que elas iriam con-versar por muitos outros anos, tal como o fizeram na cela da penitenciária.
Dia desses aconteceu algo que me fez lembrar as amigas do conto. Num daqueles presentes do acaso em que o universo mexe os dados a nosso favor, me vi num táxi com uma amiga* querida, que eu não via há alguns anos. No mesmo instante tivemos certeza que a distância não mudara em nada o carinho e admiração que sentíamos uma pela outra; e por poucos trinta minutos con-“versamos” histórias de nossas vidas. Alinhamos lembranças, atualizamos capítulos perdidos, revelamos novos projetos, dramas (sim, eles estiveram ali), lembramos amigos em comum. Recordamos as vezes que assistimos e apreciamos o trabalho uma da outra. Rimos e nos emocionamos. A saudade se fez presente, os minutos se foram. A despedida.
Inacreditável, pensei: Como podemos estar e con-“versar” com uma pessoa por tão pouco tempo (cronológico) e experimentarmos uma sensação tão forte de que o dia vais ser diferente? Que ganhou beleza e colorido especial? Que nos sentimos mais animados? Que experimentamos felicidade?
Diferentemente das amigas do conto, nós só tivemos aqueles trinta minutos no interior do táxi para con-“versar”, e nem mesmo podíamos nos ver à tarde pois estávamos longe demais de nossas casas para marcarmos novo encontro.
Mas naquele momento eu soube que em tempos de se estar verdadeiramente com alguém, em tempos de inteireza e intensa presença, o tempo não tem horas, conversa vira verso, vira poesia e arte. Mergulhamos na arte de con-“versar”, de revirar e voltar os fatos, de por em versos a história em prosa. Compreendi que conversa sem verso é perda de tempo, é protocolo, é necessidade, mas conversa em verso vira poesia e poetizados podemos nos perder (ou nos achar) no tempo de cada instante. E assim…passarmos dias, meses e anos envoltos na poesia do viver.

* Este texto é uma homenagem a todas amigas e amigos com quem tenho a graça de con-“versar” por muitos ou pequeníssimos instantes em minha vida.

Oásis

A mensagem do meu amigo era sucinta: ouça a música da Maria Bethânia “Não mexe comigo”. De imediato fui tomada de enorme curiosidade e de fato ouvi-la, mexeu muito comigo.
Segundo Bethânia “Não mexe comigo”, foi uma profissão de fé escrita para protegê-la das dores, angústias e mágoas. Um testemunho de sua fé. E eu mergulhei na emoção das rimas de uma poesia que nos conduz ao profundo sagrado.
Bethânia canta e encanta: “Não mexe comigo que eu não ando só ,eu não ando só, eu não ando só, não mexe não … Eu tenho Zumbi, Besouro o chefe dos Cupidos, sou Tupinambá, mãos de cura, … A velocidade da luz no escuro da mata escura, o breu, o silêncio a espera. Eu tenho Jesus, Maria e José, todos os Pajés em minha companhia.”
Em sua jura de fé Bethânia reverencia entidades que a protegem em um espaço sagrado, o seu Oásis onde o mal não entra e ela não se mistura, não se dobra. É protegida por todas as forças. A rainha do mar anda de mãos dadas com ela e ensina-lhe o baile das ondas, e dança e dança. O menino Deus brinca e dorme em seus sonhos. Nada, nem ninguém ultrapassa o limiar deste espaço sagrado. Não há transgressão no Oásis de Bethânia e o medo não lhe alcança.
Seus versos me fizeram pensar: Quantas vezes somos “mexidos” pela vida? Quantos desafios sem sentido? Quantas vezes nos sentimos agredidos, traídos? Nos assustamos com o inesperado que a vida nos reserva e não preserva? Quantas vezes nos sentimos perdidos, insones-transeuntes de uma vida vazia? Quantas vezes adoecemos e adoecidos ficamos a deriva?
E ainda: Onde andam os nossos deuses? Quem olha por nós quando o veneno do mal e de tantos males acham passagem e atravessam o nosso coração? De que é feita a armadura que protege o nosso corpo, e garante a nossa dignidade e integridade frente aos desafios e desatinos da vida? Onde encontrar o bálsamo, ungüento suave que pode aliviar os nossos pés, facilitando o caminho?
“Quando os humanos não oram, os deuses enfraquecem”, diz o homem sábio. E enfraquecidos, eles viram doenças, se revestem nos “ismos” (e são tantos os fanatismos), se entorpecem em substâncias, se perdem em compulsões e excessos , paralisam em fobias, debilitam em pílulas (pra dormir, pra acordar e mais outra pra lembrar se é hora de dormir ou acordar), petrificam em depressões e se perdem nas (bi) polaridades. O sagrado lugar dos deuses foi preenchido de vazio, nossas “redes” se tornaram “sociais”. Substituímos abraços por “carinhas” virtuais.
Mas em “Não mexe comigo”, Bethânia poetiza um outro espaço, e em seu louvor reverencia os deuses que ali habitam, lhe protegem e vigiam. O seu Oásis. Lá, em comunhão com os deuses, ela se liberta do fel do outro e percebe que o outro fica tão mirrado que nem o diabo o ambiciona.
É no interior deste Oásis, que podemos encontrar as reservas necessárias para enfrentar a vida e a guia protetora que cura os nossos males. E cada um de nós pode viver o seu próprio Oásis, desde que seja hábil em “criá-lo” e quiçá como Bethânia poetar: “Não mexe comigo, eu não ando só e sou como a haste fina que qualquer brisa verga mas nenhuma espada corta”.

Gentilidade

A pequeníssima sala de espera do consultório, uma mulher jovem (pouco mais de trinta anos) e o velho homem na casa dos oitenta. Cada um na sua. Enquanto um lê a revista da mesinha de centro, outro se mantém alheio no silêncio habitual que preenche uma sala de espera.
Cena absolutamente comum não fosse a mesmice ser interrompida pelo barulho do livro que de repente escorrega dos trazidos pela jovem mulher. O movimento de resgate foi espantosamente sincrônico entre eles. Ambos movimentaram-se no mesmo instante para resgatar o livro mas a jovem mulher recuou de imediato dando ao velho homem o privilégio de presentear-lhe com uma gentileza. O sorriso dele testemunhou o feito de cultuar o seu cavalheirismo, ali traduzido em gentileza. Não importava a idade nem as dores que podiam advir do agachar. As limitações do corpo do velho homem, eram ínfimas frente à grandiosidade da gentileza. Delicadamente ela agradeceu e a cena deu espaço ao correr da vida.
Vida que, aliás, tanto carece e se perde em faltas de gentileza (entre tantas outras faltas), de seres gentis, que tão bem ensaiaram os habitantes da pequena sala.
Ela se deixando presentear pela gentileza dele (o que também é um ato gentil para consigo mesma) e ele se renovando naquela atitude sutil de gentileza. Se fez cavalheiro na gentilidade do momento.
E são tantas “salas de espera” à espera de seres gentis – da gentileza e gentilidade.
Gentilidade ao corpo, à alma, às amizades, aos amores e desamores.
Gentilidade ao trânsito no ir e vir de todo instante – um desafio.
Gentilidade ao paciente no cuidado de cada encontro – zelo todos os dias.
Gentilidade ao elogio sincero – tantas vezes oculto no silêncio do orgulho, da timidez ou da inveja.
Gentilidade aos sonhos, fantasias e devaneios – o incognoscível à razão.
Gentilidade à casa – morada dos afetos e da intimidade – grande tarefa.
Gentilidade à natureza – em cada recanto um cosmos de possibilidades, da educação ao cuidado e reverência.
Assim, do velho homem à jovem mulher, da pequena sala de espera ao infinito de possibilidades, a gentilidade não tem idade. É lealdade, é arte do coração, e para a arte não há objeção.