O próximo Ato

A vida seguia feita em lamentos e queixas que respingavam por todos os lados, do amanhecer ao anoitecer dos seus dias. Nem mesmo os sonhos surpreendiam mais.
Acordar toda manhã – quase inevitavelmente na mesma hora – um cansaço.
Café da manhã, não vivia sem ele – mas saboreá-lo sem novidades – um tédio.
Levar os filhos para a escola – no piloto automático – desativado somente pelas buzinas ensurdecedoras do trânsito .
Lava louça, lava roupa, recolhe e guarda.
Arrumar as camas – mesmo sem grande esmero – mais um dia.
Colegas de trabalho, o chefe, relatórios, cobranças. Ah, e por falar nisso, as contas a pagar.
Os mesmos “sempres”.
O mercado, o jantar, e de volta à cama, e ao outro e mais outros dias quando a lista segue, dobra esquinas, amassa raivas, rumina ressentimentos, amarga lágrimas.
Mas um dia… as coisas podem mudar.
Uma inspiração atravessa o peito, e eis que abrem-se as cortinas para um novo Ato no cenário da vida e seu misterioso gradiente de tragédias, comédias, surpresas e sempres.
Neste Ato, a vida, antes tão árida, ganha companhia da imaginação podendo transformar-se no espetáculo desejado.
A imaginação afina tonalidades e prepara os próximos passos e compassos. Sugere novos lugares (ainda que no mesmo espaço). Altera o olhar de, e para cada papel vivido. Transforma certezas em reticências com infinitas possibilidades, tal como a própria vida.
Acompanhadas da imaginação as perguntas perdem a urgência por respostas imediatas e ganham o tempo do devaneio. Ganham calma, profundidade e se tornam tão interessantes que praticamente nem precisam respostas.
Ao lado da imaginação a vida lucra em proporção e perspectiva (uma nova história dentro da mesma história).
A imaginação transforma as repetições automatizadas e automatizantes em criatividade plurifacetada de um novo vir a ser. E no palco da vida passamos de atores cansados e desbotados a autores de um enredo instransferivelmente nosso.