O lugar onde vivo

O lugar onde vivo não é um bairro Hollywoodiano, nem encontro nas ruas Hugh Grant ou Julia Roberts. Não é “Um lugar chamado Notting Hill”, mas como num filme, vejo passear por aqui celebridades, protagonistas, coadjuvantes, diretores e espectadores. Vejo passar pessoas que vivem e fazem vida numa diversidade incrível, cenas e roteiros que alteram-se ininterruptamente.
O lugar onde vivo, traz consigo um espetáculo de árvores multicoloridas que, no degradê do roxo ao amarelo, passam suavemente pelo branco, deixando um toque sutil de leveza. Encantar-me ou não, é uma questão de presença e escolha.
O lugar onde vivo renova-me em curiosidades todos os dias: o que estará lendo hoje, o funcionário da pequena livraria, enquanto aguarda, sentado no pequeno banco em frente ao estabelecimento, abrirem-se as portas para mais um dia de trabalho? Ele que encontro todas as manhãs na mira da minha curiosidade, quando chego para mais um dia de trabalho: que leitura o absorve tanto? E que encantador é, deixar-se encantar de tal maneira numa leitura, enquanto espera-se algo, seja lá o algo que for?
O lugar onde vivo tem a “moça da bicicleta”. Por que ela insiste em atravessar a rua na contramão do trânsito? E dizer que mais de uma vez já fez isso em direção ao meu carro? E o dia em que carregava uma criança na carona e ainda assim atravessou na contramão? Por que ela não faz uso da faixa de segurança? Mesmo sem saber as respostas decidi redobrar os cuidados ao virar a esquina onde encontro a moça da bicicleta, e torço para que nada de mal lhe aconteça e que ela se torne mais responsável com a própria vida e com as de quem ela coloca em ameaça, inclusive a minha. No lugar onde vivo, as coisas acontecem em tempo dinâmico, não há espaço para novas tomadas e reprises. Em tempo real não se brinca de viver nem se vive de brincar. Talvez um dia a moça da bicicleta entenda isso.
O lugar onde vivo tem ruas planas que possibilitam ir e vir a pé (o que nem sempre faço ) pelos lugares cheios de cantos e encantos. Usufruir esta riqueza, de se pôr em movimento em calçadas planas e ruas arborizadas são múltiplos valores aqui presentes. Basta uma parada, um rápido olhar e uma escolha. Quiçá um dia eu escolha andar mais a pé no lugar onde vivo.
O lugar onde vivo me desafia todos os dias com o barulho e o movimento de carros (mal estacionados), crianças e pais, que chegam à escola em frente à minha casa. Se por um lado saboreio o silêncio dos finais de semana e das férias escolares, por outro, entendo que o burburinho é cenário vivo deste espaço de aprendizagem, educação e desenvolvimento das crianças e jovens que ali chegam. Paciência é arte e desafio.
O lugar onde vivo tem um rio que, generosamente, oferece sua margem à plateia que assiste o espetacular final de tarde, quando o sol, radiante e misterioso, se retira para o outro lado da terra. Estar ali é uma escolha, participar do espetáculo é um brinde.
O lugar onde eu vivo é o lugar que em mim vive, e somente enquanto assim o for, os personagens se farão celebridades, a natureza se mostrará multicolorida, a curiosidade transbordará em possibilidades e os fatos se tornarão narrativas. E tudo assim, é “o lugar onde eu vivo”.

Escada rolante, um convite ao devaneio

No deslizar de um andar ao outro,
uma parada em movimento.
Um nada a fazer.
Ou um muito a fazer?
Um muito a ser?
Esperar
Pensar
Inquietar
Programar
Desejar
Lembrar
Preparar
Fato é que
Entre o em cima e o embaixo ,
Entre o ainda não chegamos
E o não estamos mais no “de onde viemos”
Existe um estar sem estar
Um rolar entre espaços
Um não tempo de partidas e chegadas.
Um entre-linhas
Um entre-espaços de possibilidades,
E emoções
De quiçá, instantes “olho no olho”
De dizer “eu te amo”
De lembrar “como é bom estar contigo” (comigo)
De saudar a vida
De pegar na mão
De abraçar
De cheiro no cangote
E quem sabe da pausa para um beijo rápido?
Sim, tudo isso e tanto mais em segundos
Neste tempo de não-tempo, de não-apego
Pois simples assim, chegamos ao nosso destino
E rolam as escadas e rola a vida, que ganha uma escala a mais,
embalada em devaneios.

O Meu “Pé de Pitangueira”

Nos galhos altos de um “pé de pitangueira” (assim chamávamos o pé de pitangas), que reinava absoluto em meu quintal, eu me ocupava demais em minhas brincadeiras de infância e me deliciava com suculentas pitangas, para entender a atmosfera tensa que reinava entre os adultos ao meu redor. Eram os anos 60 e a primeira vez que eu ouvia falar em política, revolução, democracia, ditadura e tantas outras estranhezas.
À noite, já recolhidos, o assunto continuava, mas então na voz do Repórter Esso, noticiário histórico do rádio e da televisão brasileira, que foi apresentado do ano de 1952 até 1970.
O tom grave na voz do radialista me amedrontava e levava a pensar que muito em breve estouraria uma grande guerra em minha cidade. Aquela pequena cidade era todo o meu mundo e por minúscula que fosse, era o meu universo particular e tudo o que eu poderia sonhar. A possibilidade de vê-la em guerra era o pavor daquelas noites.
Muitas vezes fui pé ante pé, até o quarto dos meus pais para desligar o rádio que ficava ao lado da cama deles, com a esperança de que já estivessem dormido e nem percebessem. Na verdade, eu precisava silenciar o radialista para que as minhas fantasias (fantasmas) me deixassem dormir. Mas de imediato o meu pai dizia: estou acordado, e ligava o rádio novamente. Eu voltava frustrada para a cama, certa de que a guerra deveria estar muito próxima mesmo, afinal o meu pai vigiava incansavelmente os perigos anunciados pelo radialista. (Ou ele estaria dormindo como eu suspeitara? Ah … quantas dúvidas pairam no painel da nossa infância.)
Mas que alegria! A guerra não aconteceu e a minha pequena cidade permaneceu viva no reduto das minhas memórias e no interior do Rio Grande do Sul, e eu segui a minha vida, em busca de sonhos outros que não estiveram nos galhos (altos para mim) da pitangueira.
Lembranças à parte, hoje nos confrontamos com um outro cenário político. (Ou nem tão outro assim?) Eleições presidências e governamentais que acompanhamos ao vivo e a cores, notícias e noticiários, informações que chegam de todos os lados, mídias de altíssima complexidade (diferente dos tempos do Repórter Esso), resultados de pesquisas (nem sempre fidedignas) debates (nem sempre civilizados) de onde escolho a democracia para um olhar mais próximo.
Símbolo vivo nos sonhos de todos os tempos — de ideal político e civilidade, de educação e evolução do povo, de saúde social e da arte de falar e ouvir — a democracia hoje, assustadoramente assombra-nos em pesadelos. Contaminada por emoções fortes, ela tem-se distanciado de seu desígnio maior (a liberdade de expressão baseada no respeito), e assim adentra lares, consultórios, amizades, vida profissional e pessoal. Transfigura-se em fantasmas.
Contrário aos seus verdadeiros princípios, pratica-se desatinos causados pela unilateralidade com que muitas vezes defende-se pensamentos, opiniões e pontos de vista. A sombra humana enreda o verdadeiro intuito da democracia acorrentando-a em distorções, ressentimentos e impertinências. Tempos difíceis estes em que, distanciados da alma democrática (alma aqui que sugere flexibilidade, conexão, ligação e relação), não permitimos questionar as impertinências e impertinências são despropósitos, são exigências e inconveniências. Somos tomados de jeitos e gestos que ojerizam a democracia.
Tempos difíceis em que pensares tornam-se opiniões, necessárias sim, desde que sejam flexíveis e contemplem a diversidade, se abram à escuta, à moderação, ao respeito e à liberdade. Sem liberdade não há democracia, e sim o seu reverso, a contramão onde podemos colidir com a ditadura do pensar e agir, a possessão, o julgamento, o poder e com o adoecimento.
Desde que deixei a minha pequena cidade, preparei o meu tempo para o cuidado da saúde e das dores que ameaçam a vida humana — a doença das emoções —o vazio, (ou o barulho interno ensurdecedor?). Pouco me dediquei a aprofundar conhecimentos sobre a política dos sistemas governamentais, no entanto, olhar o ser humano sobre a perspectiva psíquica mostrou-me que o cenário externo é similarmente conecto ao cenário interno, subjetivo, que todos carregamos, (a contento ou que nos carrega à revelia). A política interna, os nossos órgãos governamentais individuais, são igualmente regidos por um sistema muito delicado e complicado de complexos e fantasmas pessoais, que se apresentam ao mundo ao seu modo e jeito, muitas vezes encharcados de emoções que criam guerra e ressecam solos.
Dedicar-me ao contexto psíquico mostrou-me que jamais será possível alcançar a regra número 1 da democracia (inspirar e expirar liberdade) enquanto o homem não re-visitar os seus mistérios e ministérios, não tiver consciência de suas reações, não curar cisões internas e externas, não escutar em profundidade seus humores, interesses, afetos e diversidades. Enquanto não souber de si e comprometer-se com o seu quinhão.
Penetrar profunda e primorosamente em sua individualidade, em sua responsabilidade ética é substancial para que o ser individual não desapareça no rebanho das massas, ou se isole em solidão para sobreviver.
É indispensável que as suas verdades sejam coerentes às suas atitudes, que se torne uma pessoa verdadeira e não um reformador massificado.
É vital que primeiro, cada indivíduo responsabilize-se com os próprios fantasmas, experimentando subjetivamente a democracia, se desejar estendê-la para a conquista de um mundo melhor. Rainer Rilke, num deslizar de palavras, poetiza que não há meio pior de atrapalhar o desenvolvimento humano do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo possa responder.
Talvez o meu pai já soubesse dessa verdade, lá nos anos 60. Talvez já soubesse, que mais cedo ou mais tarde, eu teria que me confrontar com as minhas assombrações se quisesse conquistar autonomia, a minha própria visão de mundo e alcançasse o que para mim, seria o mais puro sentido de democracia. Sou-lhe grata sempre, e ainda que hoje não possa mais voltar para debaixo das cobertas para encobrir o medo das notícias que ouço no meu dia a dia, confesso que (as vezes) é para lá que eu sonho voltar, pois pela manhã, lá estaria o “pé de pitangueira” a me esperar com suculentas pitangas. Mas … e à noite? Ah… à noite … quem sabe lá estaria o Repórter Esso e o meu pai?