A alma no tablado

De manhã ainda cedinho recebi um convite delicado de Maria, para assisti-la em uma apresentação de dança, que aconteceria logo mais à noite. Carinhosamente ela dizia que ficaria muito feliz com a minha presença entre os seus convidados. Nenhum impedimento dificultou que eu estivesse lá, e assisti-la foi um grande presente no meu dia.
Presenciei um belíssimo espetáculo e vibrei a cada instante com a performance dos bailarinos o profissionalismo da equipe e a qualidade impecável do show que foi preparado aqui mesmo em nossa terra. E pensar que tantas vezes não percebemos as belezas que existem tão perto de nós.
Foi uma noite linda, assisti-la dançar impecável em seu vestido de babados fartos, ao ritmo de um sapateado vibrante e harmonioso, o brilho nos olhos envoltos em maquiagem perfeita, a música , os cantos. Tudo um encanto.
Simultâneo ao espetáculo ocorreu um fato a princípio contraditório. Tão logo cheguei em casa, recebi o convite de “outra” Maria (são tantas “Marias” como retrata uma amiga artista), para eu “assisti-la” em um momento difícil de vida. Uma Maria que não pisava o tablado vibrante de bailarinos e sons, que não era aplaudida por uma plateia animada, que não enrolava-se entre os babados de um lindo vestido de bailado. Mas uma Maria que se atrapalhava entre roupas a lavar e passar, entre os brinquedos das crianças que passaram a noite espalhados no tapete da sala e ali permaneciam esperando que alguém os recolhesse, no preparo do almoço já atrasado. O seu tablado era o cenário do “tudo por fazer”. Neste espaço, Maria era uma bailarina sem brilhos, corpo de baile ou plateia. E eu era a única convidada a “assisti-la”.
Elas eram Marias tão semelhantes e tão diferentes. Enquanto uma levava a alma para bailar a outra levava a alma para faxinar, e é assim que a vida acontece. Hora no tablado da dança, da alegria do aplauso hora no tablado de cada dia, dos desafios e desafetos. Nada há de permanente e nada há que se possa fazer para impedir estas variações da vida, a não ser que se busque o passo certo, a atenção cuidadosa à orquestra que toca espetáculos ou rotinas, que se aceite o trabalho pesado, que se viva os desafios, reverencie os aplausos e suporte a solidão. Que se busque o foco do momento exato de subir ao palco e da hora precisa de descer à vida, às suas dificuldades e propósitos. Que se busque o foco da tarefa necessária, das inquietações e medos, mas também que se atente aos aplausos da plateia que vive em cada um de nós, ao espetáculo de cada vida, às pequenas alegrias e belezas que nos pertencem. É preciso que se dance a vida e que se viva a dança. “A vida te faz dançar” poetiza o maestro Antonio Gades, te faz girar, sapatear, esperar e seguir. Vivendo a dança de cada instante encontramos o movimento perfeito no passo a passo da alma de todas as Marias. E que dancem as Marias em cada um de nós, homens e mulheres, gordos e magros, negros, brancos, jovens e velhos! Em todos nós!

8 thoughts on “A alma no tablado

  1. Nice!! Maestria das tuas palavras , cadência neste escritos que me embalam a alma! Linda bailarina que tu és! Bailemos amiga! Sempre!❤️

    • Rosa! Te ter aqui neste espaço é sempre um convite a continuar acreditando que vale a pena, bj grande

  2. Parabéns minha irmã. Sei que danças lindamente a vida, na hora do bailar e na hora do faxinar. Love you.

  3. Nem sempre podemos escolher a música que a vida toca, mas podemos escolher o jeito de dançar!
    Lindo e reflexivo texto, Nice. Grata.

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