A rua de duas mãos

Dia desses, andei escrevendo sobre o lugar onde moro: a moça da bicicleta, o rapaz da livraria, as árvores que se esparramam em múltiplas cores e o barulho do colégio em frente à minha casa, um exercício diário de paciência.
No entanto, naquela ocasião, não falei da “rua de duas mãos”, que desafia a minha atenção todos os dias, quando não, várias vezes no mesmo dia. E agora aqui estou para falar dela.
Rua perigosa, carros de lá, carros de cá, olhar atento, movimento intenso e inquietante, onde todo o cuidado é pouco enquanto se espera o momento exato para atravessá-la (de carro ou a pé).
Nada foi diferente aquela noite quando toda atenção e olhar — de lá e de cá — não impediram que meu coração disparasse junto ao movimento abrupto que fiz para não colidir o meu carro com o motoqueiro que trafegava com o farol apagado, na rua de duas mãos. Felizmente, ele, eu e as pessoas ao redor, saímos ilesos, apesar do enorme susto.
De imediato lembrei a minha proposta de andar mais a pé no lugar onde moro, o que ainda não saiu do projeto. Mas quem disse que andar a pé é garantia de não ser atropelada pela moto de farol apagado?
Perguntas sem respostas, gosto muito delas…
Fato é que a pé, de carro ou de moto os cruzamentos são muitos, são perigosos e estão por toda a parte nas tantas ruas de muitas mãos.
Mas não parei por aí. O alívio que senti pelo mal “não acontecido”, convidou-me à imaginação. Vislumbrei as esquinas da vida, os cruzamentos, as ruas de duas mãos, as imprudências e os perigos que são tantos e tão complexos que nem a imaginação dá conta.
No trânsito da vida, facilmente nos distraímos, invadimos pistas, ultrapassamos limites, adentramos semáforos. Conduzimos o veículo de nossas ideias e ideais como se fôssemos o senhor das pistas. Um carro de faróis altíssimos (ou apagados?), carregado de certezas, críticas e opiniões inquestionáveis, tudo isso cega a via por onde todos trafegam. O trânsito se enche de poderes engarrafados e condutores poderosos. Nada flui, as idas não deslancham, as vindas emperram, os (mau) humores atropelam-se e nessa frequência ninguém vai, ninguém vem.
No trânsito de muitas vias e sons, não ouvimos o outro nem consideramos que aquela buzina pode ser muito mais do que provocação ou impaciência. Pode ser o sinal de um perigo iminente. Aviso que estamos indo rápido demais ou devagar demais? Sinal que logo ali à frente vamos encontrar uma moto com o farol desligado? Ou ainda, que se aproxima uma rotatória de curvas bem fechadas, daquelas que a vida não sinaliza, enquanto, sem constrangimento altera o rumo e provoca novo prumo, queiramos ou não?
E assim é o trânsito da vida, na vida que levamos e que nos leva todos os dias para tantos lugares, para tantas histórias e mistérios. Parar, olhar e seguir com cuidado, parcimônia e delicadeza é o esperado na rua de duas mãos, na vida de tantas mãos e seus surpreendentes motoqueiros de faróis apagados.

2 thoughts on “A rua de duas mãos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>