A rua de duas mãos

Dia desses, andei escrevendo sobre o lugar onde moro: a moça da bicicleta, o rapaz da livraria, as árvores que se esparramam em múltiplas cores e o barulho do colégio em frente à minha casa, um exercício diário de paciência.
No entanto, naquela ocasião, não falei da “rua de duas mãos”, que desafia a minha atenção todos os dias, quando não, várias vezes no mesmo dia. E agora aqui estou para falar dela.
Rua perigosa, carros de lá, carros de cá, olhar atento, movimento intenso e inquietante, onde todo o cuidado é pouco enquanto se espera o momento exato para atravessá-la (de carro ou a pé).
Nada foi diferente aquela noite quando toda atenção e olhar — de lá e de cá — não impediram que meu coração disparasse junto ao movimento abrupto que fiz para não colidir o meu carro com o motoqueiro que trafegava com o farol apagado, na rua de duas mãos. Felizmente, ele, eu e as pessoas ao redor, saímos ilesos, apesar do enorme susto.
De imediato lembrei a minha proposta de andar mais a pé no lugar onde moro, o que ainda não saiu do projeto. Mas quem disse que andar a pé é garantia de não ser atropelada pela moto de farol apagado?
Perguntas sem respostas, gosto muito delas…
Fato é que a pé, de carro ou de moto os cruzamentos são muitos, são perigosos e estão por toda a parte nas tantas ruas de muitas mãos.
Mas não parei por aí. O alívio que senti pelo mal “não acontecido”, convidou-me à imaginação. Vislumbrei as esquinas da vida, os cruzamentos, as ruas de duas mãos, as imprudências e os perigos que são tantos e tão complexos que nem a imaginação dá conta.
No trânsito da vida, facilmente nos distraímos, invadimos pistas, ultrapassamos limites, adentramos semáforos. Conduzimos o veículo de nossas ideias e ideais como se fôssemos o senhor das pistas. Um carro de faróis altíssimos (ou apagados?), carregado de certezas, críticas e opiniões inquestionáveis, tudo isso cega a via por onde todos trafegam. O trânsito se enche de poderes engarrafados e condutores poderosos. Nada flui, as idas não deslancham, as vindas emperram, os (mau) humores atropelam-se e nessa frequência ninguém vai, ninguém vem.
No trânsito de muitas vias e sons, não ouvimos o outro nem consideramos que aquela buzina pode ser muito mais do que provocação ou impaciência. Pode ser o sinal de um perigo iminente. Aviso que estamos indo rápido demais ou devagar demais? Sinal que logo ali à frente vamos encontrar uma moto com o farol desligado? Ou ainda, que se aproxima uma rotatória de curvas bem fechadas, daquelas que a vida não sinaliza, enquanto, sem constrangimento altera o rumo e provoca novo prumo, queiramos ou não?
E assim é o trânsito da vida, na vida que levamos e que nos leva todos os dias para tantos lugares, para tantas histórias e mistérios. Parar, olhar e seguir com cuidado, parcimônia e delicadeza é o esperado na rua de duas mãos, na vida de tantas mãos e seus surpreendentes motoqueiros de faróis apagados.

Fale mais sobre mim

Uma manhã, ainda cedo, ele surpreendeu-me ao perguntar por que eu sempre deixava a pasta de dente aberta? E assim nasceu esta crônica, pois não consegui parar de pensar na questão. Não sei se é porque eu deveria mesmo escrever sobre o assunto, ou porque ainda continuava deixando a pasta de dente aberta…
Como assim? pensei na ocasião: esse era mesmo um (mau) hábito meu? Detalhe que eu até então não percebera? Desde sempre, como ele falara? Ou tratava-se de um daqueles deslizes que se desalinham através dos anos? Ou algo que somente agora o incomodara?
Meu Deus! São mais de quarenta anos juntos e ele ainda conseguia me surpreender mostrando-me algo novo sobre mim? Sim, podia não ser o melhor “algo novo sobre mim”, mas era algo surpreendente, inquietante e por que não dizer até irritante? Mas algo que certamente me pôs a pensar. E, afinal, quem é que disse que só as melhores coisas são surpresas e surpreendem? E que todas as surpresas são ótimas? E que boas ou más elas não conduzem a um propósito? E foi nesta lida que respondi: “eu não tenho a menor ideia se deixo a pasta de dente aberta ou não ”. De fato, o que eu estava dizendo era a verdade, a minha verdade.
O que fazer com isso era a segunda parte da questão, porque entre o isto ou o aquilo da revelação, a situação ganhava múltiplos cenários.
A começar, impressionou-me sobremaneira o quanto percebermos e sermos percebidos pelo outro é um fator dinâmico na vida e nas relações, independentemente do tempo e da intimidade que se tenha. E o resultado pode ser um emaranhado de atritos ou a renovação (de um, de outro, de ambos e quiçá da relação).
Outro cenário da situação foi: o que fazer diante da surpresa? Para isso, um instante de silêncio, de não-ação, uma leitura rápida (mas não rasa) da mesma, fizeram-se necessários e imprescindível.
Poderia defender-me? negar? corrigir (o outro ou a mim)? emburrar? esperar? Estas eram algumas das opções que se descortinavam à minha frente e estavam totalmente a meu dispor. Tudo isso, é claro, não esquecendo o humor, que segundo Schopenhauer é um atributo divino e a única coisa capaz de manter a alma em liberdade, e eu queria muito manter a minha alma em liberdade.
Escolhi então não explicar, não me defender ou justificar, nem tampouco ir atrás da razão e floreios que rebuscassem a verdade do fato. Iria pensar e observar.
E assim seguiram-se dias de mais atenção e menos re-ação, não se falou mais em pasta de dente (nem aberta, nem fechada). Contudo, a cena permaneceu ali, rodopiando meus pensares, o que possibilitou que eu me percebesse melhor e o que eu vi, pasmem, foi: eu deixando a dita pasta de dente aberta, quase que diariamente.
Mas que raios eu teria de aprender e empreender a partir deste cenário, a princípio tão simples e corriqueiro, perguntei-me? Sim! Prestar atenção aos detalhes, cuidar dos pequenos e grandes desafios, gentileza ao outro, à mim e à relação, que tantas vezes tropeça nas pequenas causas.
Mas, sobretudo (eu soube disto), precisava desenvolver a arte de ouvir, especialmente ouvir o que o outro “fala sobre mim”. Soube que “ouvir sobre mim” é um saber de grande valia, mas também um grande desafio, e por isso ensurdecemos. Os ruídos do desconhecido, do negado e rejeitado, do feio e do caótico em nós são francamente um convite à negação e à surdez. Não se quer ouvir. Antes, se quer gritar, espernear, jogar a bola fora, caia ela onde cair. E é exatamente aí que se perde o jogo. O jogo da vida em que o vencedor não é aquele que vence o outro, mas o que melhor reconhece e vence as próprias barreiras.
E a verdade nesta história é que eu realmente deixava a pasta de dente aberta, e que diante disso eu escolhi me colocar mais atenta, especialmente nos grandes desafios da vida: a rotina, a intimidade e a convivência.
Por fim, o que experimentei ao olhar o inusitado a partir de mim mesma e da minha responsabilidade, foi a mais pura sensação de liberdade com que vivi aquele momento. Um estado de ser, que nos deixa confortáveis para dizer ao outro “fale mais sobre mim”. E disso nos falou o filósofo Sêneca no século I: O que quer que um outro disser bem é meu, e que este bem seja visto como a forma de dizer e não como conteúdo, afinal a alma pede delicadeza.

*Esta crônica é dedicada ao Marcus, que há 42 anos divide a pasta de dente comigo.

O lugar onde vivo

O lugar onde vivo não é um bairro Hollywoodiano, nem encontro nas ruas Hugh Grant ou Julia Roberts. Não é “Um lugar chamado Notting Hill”, mas como num filme, vejo passear por aqui celebridades, protagonistas, coadjuvantes, diretores e espectadores. Vejo passar pessoas que vivem e fazem vida numa diversidade incrível, cenas e roteiros que alteram-se ininterruptamente.
O lugar onde vivo, traz consigo um espetáculo de árvores multicoloridas que, no degradê do roxo ao amarelo, passam suavemente pelo branco, deixando um toque sutil de leveza. Encantar-me ou não, é uma questão de presença e escolha.
O lugar onde vivo renova-me em curiosidades todos os dias: o que estará lendo hoje, o rapaz da pequena livraria, enquanto aguarda, sentado no pequeno banco em frente ao estabelecimento, abrirem-se as portas para mais um dia de trabalho? Ele que encontro todas as manhãs na mira da minha curiosidade, quando chego para mais um dia de trabalho: que leitura o absorve tanto? E que encantador é, deixar-se encantar de tal maneira numa leitura, enquanto espera-se algo, seja lá o algo que for?
O lugar onde vivo tem a “moça da bicicleta”. Por que ela insiste em atravessar a rua na contramão do trânsito? E dizer que mais de uma vez já fez isso em direção ao meu carro? E o dia em que carregava uma criança na carona e ainda assim atravessou na contramão? Por que ela não faz uso da faixa de segurança? Mesmo sem saber as respostas decidi redobrar os cuidados ao virar a esquina onde encontro a moça da bicicleta, e torço para que nada de mal lhe aconteça e que ela se torne mais responsável com a própria vida e com as de quem ela coloca em ameaça, inclusive a minha. No lugar onde vivo, as coisas acontecem em tempo dinâmico, não há espaço para novas tomadas e reprises. Em tempo real não se brinca de viver nem se vive de brincar. Talvez um dia a moça da bicicleta entenda isso.
O lugar onde vivo tem ruas planas que possibilitam ir e vir a pé (o que nem sempre faço ) pelos lugares cheios de cantos e encantos. Usufruir esta riqueza, de se pôr em movimento em calçadas planas e ruas arborizadas são múltiplos valores aqui presentes. Basta uma parada, um rápido olhar e uma escolha. Quiçá um dia eu escolha andar mais a pé no lugar onde vivo.
O lugar onde vivo me desafia todos os dias com o barulho e o movimento de carros (mal estacionados), crianças e pais, que chegam à escola em frente à minha casa. Se por um lado saboreio o silêncio dos finais de semana e das férias escolares, por outro, entendo que o burburinho é cenário vivo deste espaço de aprendizagem, educação e desenvolvimento das crianças e jovens que ali chegam. Paciência é arte e desafio.
O lugar onde vivo tem um rio que, generosamente, oferece sua margem à plateia que assiste o espetacular final de tarde, quando o sol, radiante e misterioso, se retira para o outro lado da terra. Estar ali é uma escolha, participar do espetáculo é um brinde.
O lugar onde eu vivo é o lugar que em mim vive, e somente enquanto assim o for, os personagens se farão celebridades, a natureza se mostrará multicolorida, a curiosidade transbordará em possibilidades e os fatos se tornarão narrativas. E tudo assim, é “o lugar onde eu vivo”.

Escada rolante, um convite ao devaneio

No deslizar de um andar ao outro,
uma parada em movimento.
Um nada a fazer.
Ou um muito a fazer?
Um muito a ser?
Esperar
Pensar
Inquietar
Programar
Desejar
Lembrar
Preparar
Fato é que
Entre o em cima e o embaixo ,
Entre o ainda não chegamos
E o não estamos mais no “de onde viemos”
Existe um estar sem estar
Um rolar entre espaços
Um não tempo de partidas e chegadas.
Um entre-linhas
Um entre-espaços de possibilidades,
E emoções
De quiçá, instantes “olho no olho”
De dizer “eu te amo”
De lembrar “como é bom estar contigo” (comigo)
De saudar a vida
De pegar na mão
De abraçar
De cheiro no cangote
E quem sabe da pausa para um beijo rápido?
Sim, tudo isso e tanto mais em segundos
Neste tempo de não-tempo, de não-apego
Pois simples assim, chegamos ao nosso destino
E rolam as escadas e rola a vida, que ganha uma escala a mais,
embalada em devaneios.

O Meu “Pé de Pitangueira”

Nos galhos altos de um “pé de pitangueira” (assim chamávamos o pé de pitangas), que reinava absoluto em meu quintal, eu me ocupava demais em minhas brincadeiras de infância e me deliciava com suculentas pitangas, para entender a atmosfera tensa que reinava entre os adultos ao meu redor. Eram os anos 60 e a primeira vez que eu ouvia falar em política, revolução, democracia, ditadura e tantas outras estranhezas.
À noite, já recolhidos, o assunto continuava, mas então na voz do Repórter Esso, noticiário histórico do rádio e da televisão brasileira, que foi apresentado do ano de 1952 até 1970.
O tom grave na voz do radialista me amedrontava e levava a pensar que muito em breve estouraria uma grande guerra em minha cidade. Aquela pequena cidade era todo o meu mundo e por minúscula que fosse, era o meu universo particular e tudo o que eu poderia sonhar. A possibilidade de vê-la em guerra era o pavor daquelas noites.
Muitas vezes fui pé ante pé, até o quarto dos meus pais para desligar o rádio que ficava ao lado da cama deles, com a esperança de que já estivessem dormido e nem percebessem. Na verdade, eu precisava silenciar o radialista para que as minhas fantasias (fantasmas) me deixassem dormir. Mas de imediato o meu pai dizia: estou acordado, e ligava o rádio novamente. Eu voltava frustrada para a cama, certa de que a guerra deveria estar muito próxima mesmo, afinal o meu pai vigiava incansavelmente os perigos anunciados pelo radialista. (Ou ele estaria dormindo como eu suspeitara? Ah … quantas dúvidas pairam no painel da nossa infância.)
Mas que alegria! A guerra não aconteceu e a minha pequena cidade permaneceu viva no reduto das minhas memórias e no interior do Rio Grande do Sul, e eu segui a minha vida, em busca de sonhos outros que não estiveram nos galhos (altos para mim) da pitangueira.
Lembranças à parte, hoje nos confrontamos com um outro cenário político. (Ou nem tão outro assim?) Eleições presidências e governamentais que acompanhamos ao vivo e a cores, notícias e noticiários, informações que chegam de todos os lados, mídias de altíssima complexidade (diferente dos tempos do Repórter Esso), resultados de pesquisas (nem sempre fidedignas) debates (nem sempre civilizados) de onde escolho a democracia para um olhar mais próximo.
Símbolo vivo nos sonhos de todos os tempos — de ideal político e civilidade, de educação e evolução do povo, de saúde social e da arte de falar e ouvir — a democracia hoje, assustadoramente assombra-nos em pesadelos. Contaminada por emoções fortes, ela tem-se distanciado de seu desígnio maior (a liberdade de expressão baseada no respeito), e assim adentra lares, consultórios, amizades, vida profissional e pessoal. Transfigura-se em fantasmas.
Contrário aos seus verdadeiros princípios, pratica-se desatinos causados pela unilateralidade com que muitas vezes defende-se pensamentos, opiniões e pontos de vista. A sombra humana enreda o verdadeiro intuito da democracia acorrentando-a em distorções, ressentimentos e impertinências. Tempos difíceis estes em que, distanciados da alma democrática (alma aqui que sugere flexibilidade, conexão, ligação e relação), não permitimos questionar as impertinências e impertinências são despropósitos, são exigências e inconveniências. Somos tomados de jeitos e gestos que ojerizam a democracia.
Tempos difíceis em que pensares tornam-se opiniões, necessárias sim, desde que sejam flexíveis e contemplem a diversidade, se abram à escuta, à moderação, ao respeito e à liberdade. Sem liberdade não há democracia, e sim o seu reverso, a contramão onde podemos colidir com a ditadura do pensar e agir, a possessão, o julgamento, o poder e com o adoecimento.
Desde que deixei a minha pequena cidade, preparei o meu tempo para o cuidado da saúde e das dores que ameaçam a vida humana — a doença das emoções —o vazio, (ou o barulho interno ensurdecedor?). Pouco me dediquei a aprofundar conhecimentos sobre a política dos sistemas governamentais, no entanto, olhar o ser humano sobre a perspectiva psíquica mostrou-me que o cenário externo é similarmente conecto ao cenário interno, subjetivo, que todos carregamos, (a contento ou que nos carrega à revelia). A política interna, os nossos órgãos governamentais individuais, são igualmente regidos por um sistema muito delicado e complicado de complexos e fantasmas pessoais, que se apresentam ao mundo ao seu modo e jeito, muitas vezes encharcados de emoções que criam guerra e ressecam solos.
Dedicar-me ao contexto psíquico mostrou-me que jamais será possível alcançar a regra número 1 da democracia (inspirar e expirar liberdade) enquanto o homem não re-visitar os seus mistérios e ministérios, não tiver consciência de suas reações, não curar cisões internas e externas, não escutar em profundidade seus humores, interesses, afetos e diversidades. Enquanto não souber de si e comprometer-se com o seu quinhão.
Penetrar profunda e primorosamente em sua individualidade, em sua responsabilidade ética é substancial para que o ser individual não desapareça no rebanho das massas, ou se isole em solidão para sobreviver.
É indispensável que as suas verdades sejam coerentes às suas atitudes, que se torne uma pessoa verdadeira e não um reformador massificado.
É vital que primeiro, cada indivíduo responsabilize-se com os próprios fantasmas, experimentando subjetivamente a democracia, se desejar estendê-la para a conquista de um mundo melhor. Rainer Rilke, num deslizar de palavras, poetiza que não há meio pior de atrapalhar o desenvolvimento humano do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo possa responder.
Talvez o meu pai já soubesse dessa verdade, lá nos anos 60. Talvez já soubesse, que mais cedo ou mais tarde, eu teria que me confrontar com as minhas assombrações se quisesse conquistar autonomia, a minha própria visão de mundo e alcançasse o que para mim, seria o mais puro sentido de democracia. Sou-lhe grata sempre, e ainda que hoje não possa mais voltar para debaixo das cobertas para encobrir o medo das notícias que ouço no meu dia a dia, confesso que (as vezes) é para lá que eu sonho voltar, pois pela manhã, lá estaria o “pé de pitangueira” a me esperar com suculentas pitangas. Mas … e à noite? Ah… à noite … quem sabe lá estaria o Repórter Esso e o meu pai?

O próximo Ato

A vida seguia feita em lamentos e queixas que respingavam por todos os lados, do amanhecer ao anoitecer dos seus dias. Nem mesmo os sonhos surpreendiam mais.
Acordar toda manhã – quase inevitavelmente na mesma hora – um cansaço.
Café da manhã, não vivia sem ele – mas saboreá-lo sem novidades – um tédio.
Levar os filhos para a escola – no piloto automático – desativado somente pelas buzinas ensurdecedoras do trânsito .
Lava louça, lava roupa, recolhe e guarda.
Arrumar as camas – mesmo sem grande esmero – mais um dia.
Colegas de trabalho, o chefe, relatórios, cobranças. Ah, e por falar nisso, as contas a pagar.
Os mesmos “sempres”.
O mercado, o jantar, e de volta à cama, e ao outro e mais outros dias quando a lista segue, dobra esquinas, amassa raivas, rumina ressentimentos, amarga lágrimas.
Mas um dia… as coisas podem mudar.
Uma inspiração atravessa o peito, e eis que abrem-se as cortinas para um novo Ato no cenário da vida e seu misterioso gradiente de tragédias, comédias, surpresas e sempres.
Neste Ato, a vida, antes tão árida, ganha companhia da imaginação podendo transformar-se no espetáculo desejado.
A imaginação afina tonalidades e prepara os próximos passos e compassos. Sugere novos lugares (ainda que no mesmo espaço). Altera o olhar de, e para cada papel vivido. Transforma certezas em reticências com infinitas possibilidades, tal como a própria vida.
Acompanhadas da imaginação as perguntas perdem a urgência por respostas imediatas e ganham o tempo do devaneio. Ganham calma, profundidade e se tornam tão interessantes que praticamente nem precisam respostas.
Ao lado da imaginação a vida lucra em proporção e perspectiva (uma nova história dentro da mesma história).
A imaginação transforma as repetições automatizadas e automatizantes em criatividade plurifacetada de um novo vir a ser. E no palco da vida passamos de atores cansados e desbotados a autores de um enredo instransferivelmente nosso.

Con-versar

Con-versar
Conta o conto que duas mulheres estiveram presas na mesma cela de uma penitenciária por 30 anos e, por coincidência, foram soltas no mesmo dia e hora . No momento tão esperado, frente ao portão que se abriria para a liberdade, uma olhou para a outra e perguntou: O que você vai fazer hoje à tarde?
- Ainda não sei, ao que a interlocutora arguiu: então passa lá em casa, eu tenho uma coisa para con-versar com você. Parece que o convite foi aceito e tudo indica que elas iriam con-versar por muitos outros anos, tal como o fizeram na cela da penitenciária.
Dia desses aconteceu algo que me fez lembrar as amigas do conto. Num daqueles presentes do acaso em que o universo mexe os dados a nosso favor, me vi num táxi com uma amiga* querida, que eu não via há alguns anos. No mesmo instante tivemos certeza que a distância não mudara em nada o carinho e admiração que sentíamos uma pela outra; e por poucos trinta minutos con-“versamos” histórias de nossas vidas. Alinhamos lembranças, atualizamos capítulos perdidos, revelamos novos projetos, dramas (sim, eles estiveram ali), lembramos amigos em comum. Recordamos as vezes que assistimos e apreciamos o trabalho uma da outra. Rimos e nos emocionamos. A saudade se fez presente, os minutos se foram. A despedida.
Inacreditável, pensei: Como podemos estar e con-“versar” com uma pessoa por tão pouco tempo (cronológico) e experimentarmos uma sensação tão forte de que o dia vais ser diferente? Que ganhou beleza e colorido especial? Que nos sentimos mais animados? Que experimentamos felicidade?
Diferentemente das amigas do conto, nós só tivemos aqueles trinta minutos no interior do táxi para con-“versar”, e nem mesmo podíamos nos ver à tarde pois estávamos longe demais de nossas casas para marcarmos novo encontro.
Mas naquele momento eu soube que em tempos de se estar verdadeiramente com alguém, em tempos de inteireza e intensa presença, o tempo não tem horas, conversa vira verso, vira poesia e arte. Mergulhamos na arte de con-“versar”, de revirar e voltar os fatos, de por em versos a história em prosa. Compreendi que conversa sem verso é perda de tempo, é protocolo, é necessidade, mas conversa em verso vira poesia e poetizados podemos nos perder (ou nos achar) no tempo de cada instante. E assim…passarmos dias, meses e anos envoltos na poesia do viver.

* Este texto é uma homenagem a todas amigas e amigos com quem tenho a graça de con-“versar” por muitos ou pequeníssimos instantes em minha vida.

Oásis

A mensagem do meu amigo era sucinta: ouça a música da Maria Bethânia “Não mexe comigo”. De imediato fui tomada de enorme curiosidade e de fato ouvi-la, mexeu muito comigo.
Segundo Bethânia “Não mexe comigo”, foi uma profissão de fé escrita para protegê-la das dores, angústias e mágoas. Um testemunho de sua fé. E eu mergulhei na emoção das rimas de uma poesia que nos conduz ao profundo sagrado.
Bethânia canta e encanta: “Não mexe comigo que eu não ando só ,eu não ando só, eu não ando só, não mexe não … Eu tenho Zumbi, Besouro o chefe dos Cupidos, sou Tupinambá, mãos de cura, … A velocidade da luz no escuro da mata escura, o breu, o silêncio a espera. Eu tenho Jesus, Maria e José, todos os Pajés em minha companhia.”
Em sua jura de fé Bethânia reverencia entidades que a protegem em um espaço sagrado, o seu Oásis onde o mal não entra e ela não se mistura, não se dobra. É protegida por todas as forças. A rainha do mar anda de mãos dadas com ela e ensina-lhe o baile das ondas, e dança e dança. O menino Deus brinca e dorme em seus sonhos. Nada, nem ninguém ultrapassa o limiar deste espaço sagrado. Não há transgressão no Oásis de Bethânia e o medo não lhe alcança.
Seus versos me fizeram pensar: Quantas vezes somos “mexidos” pela vida? Quantos desafios sem sentido? Quantas vezes nos sentimos agredidos, traídos? Nos assustamos com o inesperado que a vida nos reserva e não preserva? Quantas vezes nos sentimos perdidos, insones-transeuntes de uma vida vazia? Quantas vezes adoecemos e adoecidos ficamos a deriva?
E ainda: Onde andam os nossos deuses? Quem olha por nós quando o veneno do mal e de tantos males acham passagem e atravessam o nosso coração? De que é feita a armadura que protege o nosso corpo, e garante a nossa dignidade e integridade frente aos desafios e desatinos da vida? Onde encontrar o bálsamo, ungüento suave que pode aliviar os nossos pés, facilitando o caminho?
“Quando os humanos não oram, os deuses enfraquecem”, diz o homem sábio. E enfraquecidos, eles viram doenças, se revestem nos “ismos” (e são tantos os fanatismos), se entorpecem em substâncias, se perdem em compulsões e excessos , paralisam em fobias, debilitam em pílulas (pra dormir, pra acordar e mais outra pra lembrar se é hora de dormir ou acordar), petrificam em depressões e se perdem nas (bi) polaridades. O sagrado lugar dos deuses foi preenchido de vazio, nossas “redes” se tornaram “sociais”. Substituímos abraços por “carinhas” virtuais.
Mas em “Não mexe comigo”, Bethânia poetiza um outro espaço, e em seu louvor reverencia os deuses que ali habitam, lhe protegem e vigiam. O seu Oásis. Lá, em comunhão com os deuses, ela se liberta do fel do outro e percebe que o outro fica tão mirrado que nem o diabo o ambiciona.
É no interior deste Oásis, que podemos encontrar as reservas necessárias para enfrentar a vida e a guia protetora que cura os nossos males. E cada um de nós pode viver o seu próprio Oásis, desde que seja hábil em “criá-lo” e quiçá como Bethânia poetar: “Não mexe comigo, eu não ando só e sou como a haste fina que qualquer brisa verga mas nenhuma espada corta”.

Gentilidade

A pequeníssima sala de espera do consultório, uma mulher jovem (pouco mais de trinta anos) e o velho homem na casa dos oitenta. Cada um na sua. Enquanto um lê a revista da mesinha de centro, outro se mantém alheio no silêncio habitual que preenche uma sala de espera.
Cena absolutamente comum não fosse a mesmice ser interrompida pelo barulho do livro que de repente escorrega dos trazidos pela jovem mulher. O movimento de resgate foi espantosamente sincrônico entre eles. Ambos movimentaram-se no mesmo instante para resgatar o livro mas a jovem mulher recuou de imediato dando ao velho homem o privilégio de presentear-lhe com uma gentileza. O sorriso dele testemunhou o feito de cultuar o seu cavalheirismo, ali traduzido em gentileza. Não importava a idade nem as dores que podiam advir do agachar. As limitações do corpo do velho homem, eram ínfimas frente à grandiosidade da gentileza. Delicadamente ela agradeceu e a cena deu espaço ao correr da vida.
Vida que, aliás, tanto carece e se perde em faltas de gentileza (entre tantas outras faltas), de seres gentis, que tão bem ensaiaram os habitantes da pequena sala.
Ela se deixando presentear pela gentileza dele (o que também é um ato gentil para consigo mesma) e ele se renovando naquela atitude sutil de gentileza. Se fez cavalheiro na gentilidade do momento.
E são tantas “salas de espera” à espera de seres gentis – da gentileza e gentilidade.
Gentilidade ao corpo, à alma, às amizades, aos amores e desamores.
Gentilidade ao trânsito no ir e vir de todo instante – um desafio.
Gentilidade ao paciente no cuidado de cada encontro – zelo todos os dias.
Gentilidade ao elogio sincero – tantas vezes oculto no silêncio do orgulho, da timidez ou da inveja.
Gentilidade aos sonhos, fantasias e devaneios – o incognoscível à razão.
Gentilidade à casa – morada dos afetos e da intimidade – grande tarefa.
Gentilidade à natureza – em cada recanto um cosmos de possibilidades, da educação ao cuidado e reverência.
Assim, do velho homem à jovem mulher, da pequena sala de espera ao infinito de possibilidades, a gentilidade não tem idade. É lealdade, é arte do coração, e para a arte não há objeção.

Vida alagada

Os dias eram assim, as dores no corpo se repetiam sem trégua, insônia, ansiedade e as lágrimas escorriam sem parar tornando-a absolutamente suscetível. As queixas afogadas em lágrimas punham em risco o solo que a sustentava e traduzidas em palavras viravam lamentos transformados em opiniões. Opinava e emitia pareceres e julgamentos absolutamente fechados sobre tudo, ainda que da vida muito pouco conhecesse. A raiva fervia-lhe as faces, o ressentimento arranhava a sua jovialidade. Era um corpo jovem carregando e sendo carregado por uma alma velha, ressentida e amargurada.
As opiniões – críticas de modo geral – a conduziam com punhos de ferro pelo interior de suas relações, afetos e profissão. Por melhor que imaginasse o porvir, o final se repetia incansavelmente em amarguras e ressentimentos. Um pequeno deslize (do outro), uma atitude inesperada ou a mínima contrariedade, e lá estava ela enfurecida, consumida pelas ruminações multiplicadas de cada detalhe. E ela era ainda tão jovem, tão insipiente em uma história a ser vivida. Tão pouco sabia do mundo e de si mesma para estar assim aprisionada às mazelas das certezas inquestionáveis.
“Chore, mas chore andando” é um ditado de uso próprio que simboliza o continuo movimento da vida e o rolar das lágrimas, e que para ela significava um sinal de alerta. Chorava andando e andava chorando pelos quatro cantos de sua vida. O que para uma pessoa é remédio para outra é veneno, isso já o sabemos há muito tempo e combina por demais nesta história.
Era preciso transformar as lágrimas em reflexões, não esquecer que toda a verdade carrega um núcleo interior de possibilidades, de meias verdades, de contradições e de pontos de vista diferentes. Que nem sempre afirmar verdades significa ser verdadeiro no que se diz. Que as opiniões são verdades a serem postas a prova. Que verdades absolutas são paradigmas a caminho do morrer ou do matar, da literalidade e do adoecimento. Que a ideia que temos das coisas não são necessariamente as coisas em si, senão a subjetividade (ou subjetivismo) de um conteúdo se expressando na linguagem própria de um tempo específico.
E assim sendo, assistiríamos o rejuvenescer da alma estando ela em corpo jovem ou ancião, pois para a alma isto pouco importa. Entenderíamos que tudo “que vive” pode e deve; passar pelo trabalho delicado da diferenciação, da consciência ampliada na consideração ao outro mas acima de tudo entenderíamos que podemos desenvolver a sutileza da empatia e o privilégio da compaixão.
Esta é uma obra difícil, talvez de uma vida toda mas certamente é a maneira de secar os excessos – de lágrimas, de sintomas e desatinos – de libertarmos a alma do aprisionamento nas certezas, rumo a uma vida “animada”, rica em significado e saúde.
Há que se pensar que no interior de opiniões cerradas vive uma alma aprisionada, uma vida alagada e um coração dilacerado, que urgem por liberdade.