Travessias – o meu jeito

O tema Travessias esteve comigo por muitos meses, desde que eu fui convidada, a participar desta mesa em homenagem aos candidatos que hoje celebram o encerramento da primeira etapa do Curso de Formação de Analista junguiano do IJBsb.

Um leque de possibilidades abriu-se à minha frente, e andei por muitos lugares buscando a melhor maneira de expressar a minha homenagem hoje a vocês.

Depois de vagar por muitas ideias, rascunhos, desistências e recomeços, decidi que a minha homenagem viria da minha própria travessia, embora ainda muito receosa com tudo o que passava na minha cabeça.

Mas…
Ontem, ganhei de vocês um moedor de sal e um delicado pote de sal do Himalaia, como agradecimento e símbolo da travessia nesse tempo de estudos, vivências e muitas trocas.
O sal simboliza a fixação, vocês me disseram, o conhecimento que fixa pela experiência. Emocionada compreendi que durante todos esses anos de Formação percorremos juntos não somente o caminho do conhecimento teórico/clínico mas uma travessia de experiências. A experiência que acontece quando o espírito encarna na matéria, na linguagem alquímica, quando o conhecimento se traduz na vida. É nessa psicologia que eu sempre acreditei, incondicionalmente. É nessa psicologia que eu acredito e credito todas as minhas fichas.
Se em algum momento eu tive dúvida sobre o que falaria nesse momento, naquele instante, eu tive a certeza que só poderia falar da minha experiência, do meu jeito.

Deixei as imagens surgirem espontaneamente em minha mente, e na sequência das cenas, a história foi se compondo
e começa assim

…………………
Há alguns meses tivemos o privilégio de receber no Instituto Junguiano de Bsb, o maestro Eduardo Ostergren, regente da orquestra sinfônica de Sorocaba, para um seminário que aconteceria durante todo um dia de sábado.

A princípio eu pensei:
Meu Deus!
O que eu estou fazendo aqui?
O que terá um maestro para dizer durante todo este dia?
O que ligaria o maestro à psicologia?
E eu queria saber sobre as atividades de um maestro?
Eu tinha tempo para isso?
Confesso que vivi minutos de curiosidade e muitas dúvidas com o vir a ser daquele dia.
Enfim, o maestro inicia a sua palestra contando o seguinte:
Um dia … perguntaram ao maestro:
O que faz um maestro?
Ao que o maestro respondeu:
“O maestro é aquele que
desperta no músico
o desejo de tocar o seu instrumento
da melhor maneira possível ”.

Sem mais perguntas, (eu pensei)
Já sei o que estou fazendo aqui
Esse é também o grande fazer do analista:
- Despertar no paciente o desejo de tocar a sua vida da melhor maneira possível.
Despertar no paciente o desejo de cuidar de si
Despertar no paciente, a paciência necessária ao tempo da alma e da Individuação.

O que o maestro falou, tocou-me profundamente, misturou-se aos ritmos da minha travessia e, a meu jeito, fui me encantando e criando combinações, nos sons, na clínica, na vida.

Sem desejo / sem orquestra
Sem desejo / sem análise
Essa é a mais pura verdade, soube disso.

O maestro falou dos sons, dos tons, das escalas, das partituras.
Tons graves, agudos, médios, fortes, bemóis, sustenidos, muitas composições.
Graves? O tom dos conflitos
Médios e neutros? O tom dos desânimos e dos desanimados.
Baixos? os tons melancólicos
Bemóis? as depressões
Fortes? são as opiniões,
Agudos? O som das críticas e das vítimas
A escala maior traz as sensações de alegria, enquanto a escala menor ressoa a tristeza.
O sol é uma nota livre, aberta, iluminada é uma nota que alegra.
O lá é nostálgico, lunar, fechado e entristece.
A nota dó (pensei eu) deve ser a nota do dó-de-si-mesmo. Quando nos sentimos vítimas, quando nos fazemos vítimas e não aceitamos a própria vida, entonamos o “dó de nós mesmos”.

Eros havia me flechado. Eu estava encantada pelos sons e absorvendo profundamente os ensinamentos do maestro e as minhas viagens sonoras borbulhavam em alto ritmo.
Segundo Von Franz, só aprendemos verdadeiramente uma matéria se estivermos apaixonados. Sem paixão apenas retemos o conhecimento utilitário, pronto para o descarte.
Talvez por isso mesmo eu não tenha me tornado uma pianista, apesar dos muitos anos de estudo, desde a infância. Eu não era apaixonada pelo piano, era apenas disciplinada e as pessoas confundiram com vocação.

Mas agora, o mundo dos sons voltava
com muita intensidade em minha vida e eu sabia que não era em consequência à minha carreira interrompida de pianista. Algo mais forte devia estar mexendo comigo desde a palestra do maestro e ainda que eu não tivesse a menor ideia do que era, aos poucos fui combinando fatos e desvendando novas faces da minha travessia.

E assim começa uma nova parte da história
Há alguns anos atrás, após uma pesquisa muito longa e incansáveis exames eu fui diagnosticado de perda severa de audição no ouvido esquerdo. Jamais passou em minha cabeça a possibilidade de perder um órgão do sentido e o momento exato do diagnóstico definitivo e irreversível ainda hoje reverbera em mim.
Anos de luta, adaptação de aparelho auditivo, inúmeros constrangimentos, vergonha e preconceito. Muito preconceito. Não das pessoas, mas o meu próprio preconceito. Eu também jamais imaginei que poderia haver tanto preconceito dentro de mim. É lindo usar óculos, (eu pensava), permite mudar e renovar o visual e isso é bem legal. Mas aparelho auditivo?
Sem palavras…
Incansavelmente testei muitos aparelhos, na busca desesperada de uma escuta minimamente parecida com a que eu perdera. No entanto, a meu tempo eu entendi que isso era impossível de acontecer e a meu jeito venho aprendendo a lidar todos os dias com isso.
Eu não tinha opção quanto à perda auditiva mas tinha a opção de não me entregar à tristeza e de não perder a minha alegria. Optei por isso, não perder a minha alegria.
Alegria é uma coisa, tristeza é outra pensei, e elas podem sim conviver em harmonia, desde que eu faça a meu jeito.
Muitos desafios se passam por esses tempos, entre eles também, o cuidado continuo com o equilíbrio, pois ele tenta me tirar da linha reta dos meus caminhos. Interessante isso, mexer com o equilíbrio, cuidar o equilíbrio e viver diariamente, o desafio do desequilíbrio.
Enfim, sem respostas. Só perguntas.

Voltando à travessia
Hoje, sinto uma conexão incrível entre a linguagem musical aprendida com o maestro e a minha escuta. Como se, uma cuidando da outra, seguissem juntas na minha travessia.

Escutar delicadamente os sons do mundo, da clínica, dos alunos, da vida, tem feito enorme diferença em tudo que faço e vivo. Tem me transformado como pessoa e a analista em mim me mostrado que a travessia se faz todos os dias naquilo que está posto e compõe a história de cada um, desde que enxerguemos e façamos as combinações possíveis.
Então queridos colegas, essa é a mensagem que deixo a vocês.
Que despertem em si mesmo o desejo de cuidar e levar a vida da melhor maneira possível e, a seu jeito.
Que cada um reverencie a sua trajetória transformando fatos em vivências, vivências em experiências com uma pitada de sal e amor incondicional.
Que ouçam o som da vida, do mundo, do coração.
E para concluir os convido a escutar o som que eu escolhi para representar esse momento.
My Way Elvis Presley

Dia do Psicólogo, hoje escolhi a gratidão

Hoje escolhi a gratidão para homenagear a psicóloga que vive em mim.
Gratidão à psicóloga que, ainda insipiente, habitou a minha escolha profissional, sem que eu mesma imaginasse para onde, ela e eu, estávamos nos conduzindo.
Gratidão à psicóloga em mim que soube esperar por mais de 15 anos enquanto precisei sair pelo mundo, vivendo experiências outras que nem a incluíam.
Gratidão à psicóloga em mim que participou ativa e silenciosamente de uma grande crise, que por fim, a traria de volta à minha vida.
Gratidão à psicóloga em mim que, como um amálgama aproxima-me, a cada instante, das pérolas que encontro no caminho.
Gratidão à psicóloga em mim que mostra-me que escolha é autoria, é liberdade e determinação. Que de maneira alguma é vitimização e submissão.
Gratidão à psicóloga em mim que presentea-me com lucros inesperados como uma profissão renovada em vocação e auto-realização.
Gratidão à psicóloga em mim que conduz-me sempre e de novo a novos caminhos, lugares e experiências.
Gratidão à Psicóloga em mim que possibilita o encontro com alunos, colegas e pessoas que confiam à mim as suas histórias.
Gratidão à psicóloga em mim que mostra à minha filha, também psicóloga, que é possível sim, vivenciar aos 64 anos uma vida rica em possibilidades, desafios e envolvimento.
Gratidão à psicóloga em mim que mostra-me todos os dias que a Psicologia pode ampliar-se para além dos consultórios e instituições e tornar-se delicadamente uma maneira de viver.
Gratidão à psicóloga em mim que não me abandona, e a par e passo dança comigo esta grande aventura chamada vida.

Duvidar é preciso

Quantas vezes estagnei diante da dúvida.
Quantas vezes a dúvida me descontinuou. Quantas vezes me debati por dúvida, com dúvida, na dúvida. Quantas vezes imaginei que duvidar combinava demais com fraquejar, com desanimar, intimidar e empacar.
Quantas vezes, em tempos de juventude – de decisões imediatas, posições precisas, de eficiência e sagacidade – me questionei – em que povoado eu assentaria a dúvida?
E são tantas dúvidas que desafiam a juventude, que incomodam e desacomodam idéias, despedaçam evidências, que invariavelmente, não as queremos por perto.
Mas hoje eu falo de um outro lugar,
De um outro tempo, onde duvidar é preciso.
Mas acima de tudo de um tempo em que posso desejar que seja diferente, posso ir ao encontro de outras verdades, de novas combinações e muitas outras rimas.
Nestes tempos, duvidar rima com confiar, ponderar, fiar, questionar, honrar, limitar e com acreditar. E dessa maneira eu pude construir um novo abrigo para sentar a dúvida perto de mim.
Perto, ela pode lembrar-me todas as perdas que vivemos por “não duvidar”, não checar certezas, questionar atitudes e investigar convicções.
Pode mostrar-me que, presos nas evidências (lugar onde não se ajustam as dúvidas), nos cegamos de unilateralidade, desperdiçamos relacionamentos, ferimos e somos feridos, botamos vida fora.
A dúvida pode lembrar-me que “ponto de vista” é apenas a vista de “um ponto”, jamais contempla os dois lados da mesma moeda.
Lembrar-me que ela própria, é um convite ao silêncio, à parada reflexiva, ao descer a partes enrijecidas e inflexíveis de nós mesmos, e com isso quiçá, descobrirmos lucros inesperados na vida, para a vida.
A dúvida pode advertir-me que a razão afasta a emoção, a empatia e a compaixão. Que “Ter sempre razão” é fiar solidão, pois inexoravelmente razão e relação não co-habitam no coração.
Neste lugar, de outros tempos e novas percepções, compreendo que a dúvida é um sinal de que posso estar indo muito depressa (ou devagar demais), que não estou enxergando determinados aspectos, que preciso, posso e devo silenciar diante deste “cutucar”, que anuncia novas direções. Entendo a dúvida como uma grande aliada de novos tempos, e porque não dizer – de todos os tempos onde duvidar é preciso e é precioso.
Dúvidas no caminho? Guardo todas - “Um dia faço um castelo com elas” (Parafraseando Quintana em seu poema “A vida”, ao referir-se às pedras no caminho.)

-E quem disse que dúvidas não são pedras a serem resgatadas no caminho?

Hoje eu chorei por Maria

Hoje chorei por Maria.Por uma Maria que aos 90 anos, nos deixou nas primeiras horas do dia, vencida por uma infecção que rendeu-lhe as forças. Hoje eu chorei por uma Maria que, ao lado de um companheiro, atravessou mais de 60 anos de vida, entre altos e baixos, alegrias e tristezas e todos os desafios de um longo benquerer, que de tão longo se perdeu no nome (amor, companheirismo, amizade, parceria, cumplicidade, costume, tudo isso e tantos outros?)

Hoje eu chorei por uma Maria que pariu seis filhos, cuidou, nutriu, educou e amou, se desapontou, se feriu, se iludiu e desiludiu, mas acima de tudo, amou.
Hoje eu chorei por uma Maria que não mediu forças e esforços para tudo e para todos.
Hoje eu chorei por uma Maria que intimidou as intempéries da vida com raça e coragem, que enfrentou cada dia de sua vida como se fosse o único.
Hoje eu chorei por uma Maria que enfrentou a maior dor humana – a de perder um filho – com uma dignidade indizível.
Hoje eu chorei por uma Maria que viveu dores, crises, brigas, avenças e desavenças entre seus maiores amores, mostrando-lhes sempre os caminhos do perdão, da amizade, da generosidade e da alegria. Nunca faltou-lhe o sorriso nos lábios, nem o humor.
Hoje eu chorei por uma Maria que enfrentou com bravura cada turbulência e desvio de rota que a vida lhe apresentou ao longo dos anos. E foram tantos desafios, e tantos anos e tanta coragem.
Hoje eu chorei por uma Maria que atravessou o século, viveu crises sociais, políticas, econômicas e financeiras, posicionando-se numas, ignorando tantas outras, não por alienação mas por ocupação, estava sempre demasiadamente ocupada nas lidas da vida. Mulher brava e corajosa, de inteligência ímpar.
Hoje eu chorei por uma Maria–avó, que deixou tesouro inestimável para todos os seus descendentes. Que rico legado ela deixou para ser lembrado, honrado e re-contado.
Hoje eu chorei por uma Maria com quem tive o prazer de conviver e aprender. Uma Maria que apetecia a vida.
Hoje eu chorei por uma Maria que, desde sempre, acreditou e reverenciou o seu Deus, absorvendo Dele um amor incondicional.
Mas hoje eu não chorei só de tristeza.
Hoje eu também chorei de emoção, num misto de leveza, fluidez e carinho que invadiu meu coração toda vez que lembrei dela.
Hoje eu chorei por imaginá-la leve e livre de todas as amarras e apegos, lançando-se num voo próprio, num novo caminho, numa nova chegada e quem sabe… Numa nova história.
Hoje eu chorei de emoção por esta, e por tantas outras Marias que aqui chegam, aprendem, ensinam, fertilizam, acertam, erram, riem e choram mas que sobretudo vivem e amam incondicionalmente, e que um dia partem nos deixando na alma um sabor de

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