Duvidar é preciso

Quantas vezes estagnei diante da dúvida.
Quantas vezes a dúvida me descontinuou. Quantas vezes me debati por dúvida, com dúvida, na dúvida. Quantas vezes imaginei que duvidar combinava demais com fraquejar, com desanimar, intimidar e empacar.
Quantas vezes, em tempos de juventude – de decisões imediatas, posições precisas, de eficiência e sagacidade – me questionei – em que povoado eu assentaria a dúvida?
E são tantas dúvidas que desafiam a juventude, que incomodam e desacomodam idéias, despedaçam evidências, que invariavelmente, não as queremos por perto.
Mas hoje eu falo de um outro lugar,
De um outro tempo, onde duvidar é preciso.
Mas acima de tudo de um tempo em que posso desejar que seja diferente, posso ir ao encontro de outras verdades, de novas combinações e muitas outras rimas.
Nestes tempos, duvidar rima com confiar, ponderar, fiar, questionar, honrar, limitar e com acreditar. E dessa maneira eu pude construir um novo abrigo para sentar a dúvida perto de mim.
Perto, ela pode lembrar-me todas as perdas que vivemos por “não duvidar”, não checar certezas, questionar atitudes e investigar convicções.
Pode mostrar-me que, presos nas evidências (lugar onde não se ajustam as dúvidas), nos cegamos de unilateralidade, desperdiçamos relacionamentos, ferimos e somos feridos, botamos vida fora.
A dúvida pode lembrar-me que “ponto de vista” é apenas a vista de “um ponto”, jamais contempla os dois lados da mesma moeda.
Lembrar-me que ela própria, é um convite ao silêncio, à parada reflexiva, ao descer a partes enrijecidas e inflexíveis de nós mesmos, e com isso quiçá, descobrirmos lucros inesperados na vida, para a vida.
A dúvida pode advertir-me que a razão afasta a emoção, a empatia e a compaixão. Que “Ter sempre razão” é fiar solidão, pois inexoravelmente razão e relação não co-habitam no coração.
Neste lugar, de outros tempos e novas percepções, compreendo que a dúvida é um sinal de que posso estar indo muito depressa (ou devagar demais), que não estou enxergando determinados aspectos, que preciso, posso e devo silenciar diante deste “cutucar”, que anuncia novas direções. Entendo a dúvida como uma grande aliada de novos tempos, e porque não dizer – de todos os tempos onde duvidar é preciso e é precioso.
Dúvidas no caminho? Guardo todas - “Um dia faço um castelo com elas” (Parafraseando Quintana em seu poema “A vida”, ao referir-se às pedras no caminho.)

-E quem disse que dúvidas não são pedras a serem resgatadas no caminho?

6 thoughts on “Duvidar é preciso

  1. Querida
    Amei te ler. Se torna um encontro.
    Duvidar é preciso.
    Sim, este sujeito nos leva de pequenos ou grande movimentos e sempre retorna.
    Estive um inúmeras encruzilhadas em que a dúvida voava sobre mim a procura de qual seria o verdadeiro caminho de minha alma.
    Razão ou emoção?
    Inúmeras foram as vezes que o caminho que tomei magoou a outrem.
    Intenta-se por estar atento, amoroso e fiel a si, mas há também o outro que também é você. O outro em si.
    A dúvida sempre estará entre nós e isto é bom.
    Beijo

    • Denise! Que bom ler as tuas palavras e podermos compartilhar também este espaço. É muito rico vermos os nossos pensares sendo multifacetados, multiplicados. Bj grande

  2. Cada dia mais profunda e leve ; mais sutil e didática…..Admiracao por tudo que és espelhado naquilo que escreves. Bjsss

    • Áurea! te ouvir (te ler) sempre é um incentivo à minhas reflexões. Obrigada sempre por esta viagem que vivemos juntas. Bj grande

  3. Lindas e essenciais as tuas colocações para nossas vidas : muito enriquecedoras !
    Nice, vc. sempre muito sábia e nos leva a pensar em aspectos importantes que vamos deixando de lado.
    Duvidar das dúvidas … anteriormente falando de “leveza” …

    E agora, na última crônica, nos faz analisar as “fronteiras” como “limites” : perfeito, adorei !
    É muito bom te ler , participar de tuas experiências, dividir a caminhada da vida contigo !!!

    • Ilka querida tuas palavras em meus textos me fazem pensar em continuar nesta aventura da escrita. Bj grande

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