Gentilidade

A pequeníssima sala de espera do consultório, uma mulher jovem (pouco mais de trinta anos) e o velho homem na casa dos oitenta. Cada um na sua. Enquanto um lê a revista da mesinha de centro, outro se mantém alheio no silêncio habitual que preenche uma sala de espera.
Cena absolutamente comum não fosse a mesmice ser interrompida pelo barulho do livro que de repente escorrega dos trazidos pela jovem mulher. O movimento de resgate foi espantosamente sincrônico entre eles. Ambos movimentaram-se no mesmo instante para resgatar o livro mas a jovem mulher recuou de imediato dando ao velho homem o privilégio de presentear-lhe com uma gentileza. O sorriso dele testemunhou o feito de cultuar o seu cavalheirismo, ali traduzido em gentileza. Não importava a idade nem as dores que podiam advir do agachar. As limitações do corpo do velho homem, eram ínfimas frente à grandiosidade da gentileza. Delicadamente ela agradeceu e a cena deu espaço ao correr da vida.
Vida que, aliás, tanto carece e se perde em faltas de gentileza (entre tantas outras faltas), de seres gentis, que tão bem ensaiaram os habitantes da pequena sala.
Ela se deixando presentear pela gentileza dele (o que também é um ato gentil para consigo mesma) e ele se renovando naquela atitude sutil de gentileza. Se fez cavalheiro na gentilidade do momento.
E são tantas “salas de espera” à espera de seres gentis – da gentileza e gentilidade.
Gentilidade ao corpo, à alma, às amizades, aos amores e desamores.
Gentilidade ao trânsito no ir e vir de todo instante – um desafio.
Gentilidade ao paciente no cuidado de cada encontro – zelo todos os dias.
Gentilidade ao elogio sincero – tantas vezes oculto no silêncio do orgulho, da timidez ou da inveja.
Gentilidade aos sonhos, fantasias e devaneios – o incognoscível à razão.
Gentilidade à casa – morada dos afetos e da intimidade – grande tarefa.
Gentilidade à natureza – em cada recanto um cosmos de possibilidades, da educação ao cuidado e reverência.
Assim, do velho homem à jovem mulher, da pequena sala de espera ao infinito de possibilidades, a gentilidade não tem idade. É lealdade, é arte do coração, e para a arte não há objeção.

2 thoughts on “Gentilidade

  1. Amiga.
    Já no título de teus escritos programei-me para lê-lo e escrevi poucas palavras no face. Mas a energia da ‘gentileza’ se reapresentou, e revi a semana gentil que estou tendo e sendo.
    Aí como forma de ficar atenta a mim, fui antes mesmo de ler ao teu escrever um pouco de gentileza.
    Está no meu blog.
    Agora lendo teu poema gentil, fico com o verso final: “É lealdade a arte do coração, e para a arte não há objeção”. É imperioso. ´
    E relendo saindo do perfume poético percebo o uso semelhante de palavras Natureza, coração e fico confiante que se olharmos ao redor ainda estamos rodeados de gentilezas, por que não acolhê-las mais como forma de agregar ‘curtidas’ nestes tão amorosos momentos que percebemos. Beijão

  2. Querida irmã, sou testemunha do quanto a gentileza e o cuidado fazem parte da tua vida. Acredito até que a “gentiledade” seja tua missão de vida e que realizas com o coração. Sou grata por ela.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>