A janta

Ela estava muito incomodada pelo fato do marido nunca ter a iniciativa de providenciar, fazer ou mesmo pensar na janta. Ele jogava esta e tantas outras responsabilidades sobre ela (ou ela as pegava pra si?) que, envolvida nos afazeres com as crianças, sentia-se exausta, sobrecarregada e sem nenhuma disposição para pensar na janta. Desde que teve as filhas gêmeas sua vida mudou muito, entrou numa roda viva de afazeres e em muitos momentos já nem se reconhecia mais. Amava as filhas, a maternidade, a família mas sentia-se distante demais de si mesma.
Contei a ela que um dia, após longa jornada de trabalho, eu e o meu marido chegamos juntos em casa, tão juntos quanto havíamos saído de manhã cedo. Ao botarmos a chave na porta, ele me olhou e perguntou: O que tem de janta? Ótima pergunta, pensei. Não tenho a menor ideia, já que ninguém estivera em casa durante o dia e milagres não acontecem, pelo menos não na minha casa. Assim sendo, não encontraríamos uma mesa posta nem comida quentinha no fogão.
E aí? Perguntou ela curiosamente
Abrimos a porta, entramos em casa e fomos combinar a janta para aquela noite.
E aí? Perguntou ela novamente, ansiosa para saber qual a solução (“a grande saída”) que tínhamos achado para o problema da janta.
Aí…(eu respondi), continuamos até hoje combinando a janta.
Mais cautelosamente ainda, temendo ser invasiva ela arriscou “E isso há quanto tempo…”?
Eu não tive problema algum em responder:
A contar do episódio “chave na porta”… mais de 20 anos.
Ela recostou-se na cadeira. Possivelmente buscava uma posição confortável para absorver a idéia de que as respostas que procurava não chegariam prontas; não são óbvias, nem definitivas. Precisaria compreender que as questões que a moviam (ou a paralisavam), faziam parte da sua natureza, e que a natureza segue suas próprias leis, dizia Heráclito.
Ela precisaria seguir os desafios da sua natureza e as intempéries trazidas por ela. Precisaria olhar para si mesma, possivelmente corrigir atitudes, questionar certezas, checar opiniões, se reposicionar frente a vida, e acima de tudo ter paciência e flexibilidade para entender que as “respostas” são simples estações de alívio, jamais um lugar de permanência. O que é resposta hoje, é dúvida amanhã. O que é a cura do hoje, pode envenenar o amanhã, e assim é a vida desde que o mundo é mundo.
Tudo isso é muito trabalhoso, mas onde há trabalho há vida. Requer tempo sim, disponibilidade e paciência mas também é a condição para as “combinações” que ela precisaria fazer com o marido, caso escolhesse seguir a vida ao seu lado.
Combinar, no cenário dos relacionamentos, é obra além da lógica, da praticidade e objetividade, da razão e da justiça. É obra de arte. A arte das vivências conscientes, da mistura harmoniosa (outras nem tão harmoniosas assim), das pequenas nuances, da empatia e simpatia, do toque sútil, da delicadeza e assertividade, dos nãos necessários e pedidos claros, da sinceridade e honestidade, das lágrimas que escorrem mas não inundam. É arte que vai das grandes decisões às pequenas concessões, e quem sabe ao sim – continuamos juntos- apesar da janta de cada noite.

8 thoughts on “A janta

  1. Adorei a definição-descrição: É obra de arte… e o que se segue. Obra de arte é inspirador. Não é nada pronto, acabado. Não tem fórmula. (Senão não seria arte exatamente.) Lindo texto, Nice.

  2. Adorei Nice!
    Muito perspicaz “respostas são simples estações de alívio, jamais um lugar de permanência”. Seria tão mágico, simples e confortável se as respostas fossem permanentes e iguais para todo mundo… mas talvez a “a obra” perdesse seu colorido se assim fosse e nada teríamos apreendido. Bjs querida!

    • Que linda expressão do teu pensar Claise, se chegue sempre que desejares para falar um pouquinho deste espaço por onde o texto te levou. Sempre é uma riqueza viajar com o outro por lugares incríveis. Bj grandev

  3. Como gostei do fato, mais que dá descrição : o colocar a chave na porta quase juntos . E a janta ?Milagres não acontecem … ao menos na minha casa !
    Combinar é obra de arte !
    Teus escritos são enriquecedores : lições de vida !
    É muito bom ler teus textos, Nice.
    Parabéns !!!

    • Amiga querida as tuas palavras incentivam muito esta vivência (da escrita) que vem encontrando caminhos lugares no mundo que estou observando muito, mas que hoje eh sei que está sendo “interessante” para mim e para pessoas como tu que têm sido atenciosas e cuidadosa em seu retorno. Isto faz muita diferença. Obrigada bjbj

  4. Nice, só hoje conheci seu blog (por meio de uma postagem da Corinta). Estou procurando saborear lentamente cada texto, em respeito à sensibilidade com a qual foram escritos. Não poderia deixar de parabenizá-la e nem de me confessar mexida pela definição de “combinar” no universo das relações interpessoais. Você ganhou mais uma leitora. Abraço fraterno

    • Sandra Mara fico muito feliz com a tua participação aqui no blog, pelas palavras de reconhecimento e incentivo. Será uma alegria te ter como leitora. Abç

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