Oásis

A mensagem do meu amigo era sucinta: ouça a música da Maria Bethânia “Não mexe comigo”. De imediato fui tomada de enorme curiosidade e de fato ouvi-la, mexeu muito comigo.
Segundo Bethânia “Não mexe comigo”, foi uma profissão de fé escrita para protegê-la das dores, angústias e mágoas. Um testemunho de sua fé. E eu mergulhei na emoção das rimas de uma poesia que nos conduz ao profundo sagrado.
Bethânia canta e encanta: “Não mexe comigo que eu não ando só ,eu não ando só, eu não ando só, não mexe não … Eu tenho Zumbi, Besouro o chefe dos Cupidos, sou Tupinambá, mãos de cura, … A velocidade da luz no escuro da mata escura, o breu, o silêncio a espera. Eu tenho Jesus, Maria e José, todos os Pajés em minha companhia.”
Em sua jura de fé Bethânia reverencia entidades que a protegem em um espaço sagrado, o seu Oásis onde o mal não entra e ela não se mistura, não se dobra. É protegida por todas as forças. A rainha do mar anda de mãos dadas com ela e ensina-lhe o baile das ondas, e dança e dança. O menino Deus brinca e dorme em seus sonhos. Nada, nem ninguém ultrapassa o limiar deste espaço sagrado. Não há transgressão no Oásis de Bethânia e o medo não lhe alcança.
Seus versos me fizeram pensar: Quantas vezes somos “mexidos” pela vida? Quantos desafios sem sentido? Quantas vezes nos sentimos agredidos, traídos? Nos assustamos com o inesperado que a vida nos reserva e não preserva? Quantas vezes nos sentimos perdidos, insones-transeuntes de uma vida vazia? Quantas vezes adoecemos e adoecidos ficamos a deriva?
E ainda: Onde andam os nossos deuses? Quem olha por nós quando o veneno do mal e de tantos males acham passagem e atravessam o nosso coração? De que é feita a armadura que protege o nosso corpo, e garante a nossa dignidade e integridade frente aos desafios e desatinos da vida? Onde encontrar o bálsamo, ungüento suave que pode aliviar os nossos pés, facilitando o caminho?
“Quando os humanos não oram, os deuses enfraquecem”, diz o homem sábio. E enfraquecidos, eles viram doenças, se revestem nos “ismos” (e são tantos os fanatismos), se entorpecem em substâncias, se perdem em compulsões e excessos , paralisam em fobias, debilitam em pílulas (pra dormir, pra acordar e mais outra pra lembrar se é hora de dormir ou acordar), petrificam em depressões e se perdem nas (bi) polaridades. O sagrado lugar dos deuses foi preenchido de vazio, nossas “redes” se tornaram “sociais”. Substituímos abraços por “carinhas” virtuais.
Mas em “Não mexe comigo”, Bethânia poetiza um outro espaço, e em seu louvor reverencia os deuses que ali habitam, lhe protegem e vigiam. O seu Oásis. Lá, em comunhão com os deuses, ela se liberta do fel do outro e percebe que o outro fica tão mirrado que nem o diabo o ambiciona.
É no interior deste Oásis, que podemos encontrar as reservas necessárias para enfrentar a vida e a guia protetora que cura os nossos males. E cada um de nós pode viver o seu próprio Oásis, desde que seja hábil em “criá-lo” e quiçá como Bethânia poetar: “Não mexe comigo, eu não ando só e sou como a haste fina que qualquer brisa verga mas nenhuma espada corta”.

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