Uma segunda-feira sem domingo

Cedinho da manhã ela acordou ainda sonolenta o que não lhe causou espanto, afinal nunca morreu de amores por levantar muito cedo. Naquele desperta/dorme, levanta ou fica um pouco mais na cama, os seus pensamento sintonizaram de imediato à agenda do dia.
Com um esforço possível pulou da cama pois assim teria tempo suficiente para todos os afazeres programados para aquela manhã de segunda-feira. Marcar dentista, colocar roupas na máquina, preparar conteúdos para a próxima aula, ligar para a amiga que esteve em seus sonhos na noite anterior, dar um pulo no supermercado para as compras da semana, rever alguns horários da agenda ainda pendentes, dar uma passada no banco e quiçá ainda ter tempo para fazer exercícios. Ufa, tudo isto passava-lhe a cabeça enquanto tomava um banho rápido antes de iniciar a lista de afazeres, já quase esmagada no tempo que urgia.
Em meio aos pensamentos, à água morna do banho, perguntou-se sobre o domingo. Como havia mesmo sido o seu domingo? O almoço, o filme da tarde, a pizza do jantar? E então tudo se esclareceu. Aquela não era uma manhã de segunda-feira. Era domingo e ela estivera completamente equivocada. Ainda era cedo da manhã de domingo e ela já estava pronta para a maratona de segunda-feira.
Não acreditava no que estava se passando. Como pudera se enganar e elaborar tantos detalhes que desfilavam em pensamentos, ideias e decisões para aquele dia?Claro, sua vida andava um pouco atropelada nos últimos tempos e “atrapalhar os dias” pareceu-lhe consequência.
E neste momento o engano transformou-se em comprometimento consigo mesma. Certamente iria olhar com mais atenção e cuidado para todos os seus afazeres, seus atropelos e apelos, suas horas de sono, suas folgas e lazer pois ela bem o sabia que nesse combinado habitam a saúde, a qualidade e o sentido da vida.
Mas e agora o que fazer neste dia? Voltar para a cama e dar mais uma soneca? Não, não sentia o menor sono. Ignorar o acontecido e antecipar a lista da segunda-feira? De maneira alguma. Estaria traindo o domingo, o seu mais novo presente e negando o compromisso recém assumido consigo mesma. E a verdade mesmo é que ela estava muito encantada com o domingo não vivido que agora se apresentava espalhado em possibilidades. Antecipando o tempo estaria mais uma vez atropelando os seus dias. A decisão estava tomada, simplesmente deixaria as coisas acontecerem “em tempos de domingo”. Fora surpreendida pelo inesperado e bem o sabia que não é todo o dia que se “ganha um dia”. Ela decidiu que daria atenção especial à cada momento daquele domingo (e quiçá a todos os domingos e a todos os dias) e honraria o tempo para que ele não lhe escorresse entre os dedos, afinal ouvira certa feita que “ O tempo é o maior presente que se pode ganhar”. E ela o ganhara em embalagem de domingo. Não mais uma segunda-feira sem domingo pensou consigo mesma.

A alma no tablado

De manhã ainda cedinho recebi um convite delicado de Maria, para assisti-la em uma apresentação de dança, que aconteceria logo mais à noite. Carinhosamente ela dizia que ficaria muito feliz com a minha presença entre os seus convidados. Nenhum impedimento dificultou que eu estivesse lá, e assisti-la foi um grande presente no meu dia.
Presenciei um belíssimo espetáculo e vibrei a cada instante com a performance dos bailarinos o profissionalismo da equipe e a qualidade impecável do show que foi preparado aqui mesmo em nossa terra. E pensar que tantas vezes não percebemos as belezas que existem tão perto de nós.
Foi uma noite linda, assisti-la dançar impecável em seu vestido de babados fartos, ao ritmo de um sapateado vibrante e harmonioso, o brilho nos olhos envoltos em maquiagem perfeita, a música , os cantos. Tudo um encanto.
Simultâneo ao espetáculo ocorreu um fato a princípio contraditório. Tão logo cheguei em casa, recebi o convite de “outra” Maria (são tantas “Marias” como retrata uma amiga artista), para eu “assisti-la” em um momento difícil de vida. Uma Maria que não pisava o tablado vibrante de bailarinos e sons, que não era aplaudida por uma plateia animada, que não enrolava-se entre os babados de um lindo vestido de bailado. Mas uma Maria que se atrapalhava entre roupas a lavar e passar, entre os brinquedos das crianças que passaram a noite espalhados no tapete da sala e ali permaneciam esperando que alguém os recolhesse, no preparo do almoço já atrasado. O seu tablado era o cenário do “tudo por fazer”. Neste espaço, Maria era uma bailarina sem brilhos, corpo de baile ou plateia. E eu era a única convidada a “assisti-la”.
Elas eram Marias tão semelhantes e tão diferentes. Enquanto uma levava a alma para bailar a outra levava a alma para faxinar, e é assim que a vida acontece. Hora no tablado da dança, da alegria do aplauso hora no tablado de cada dia, dos desafios e desafetos. Nada há de permanente e nada há que se possa fazer para impedir estas variações da vida, a não ser que se busque o passo certo, a atenção cuidadosa à orquestra que toca espetáculos ou rotinas, que se aceite o trabalho pesado, que se viva os desafios, reverencie os aplausos e suporte a solidão. Que se busque o foco do momento exato de subir ao palco e da hora precisa de descer à vida, às suas dificuldades e propósitos. Que se busque o foco da tarefa necessária, das inquietações e medos, mas também que se atente aos aplausos da plateia que vive em cada um de nós, ao espetáculo de cada vida, às pequenas alegrias e belezas que nos pertencem. É preciso que se dance a vida e que se viva a dança. “A vida te faz dançar” poetiza o maestro Antonio Gades, te faz girar, sapatear, esperar e seguir. Vivendo a dança de cada instante encontramos o movimento perfeito no passo a passo da alma de todas as Marias. E que dancem as Marias em cada um de nós, homens e mulheres, gordos e magros, negros, brancos, jovens e velhos! Em todos nós!

Tributo a um grande amor

Hoje é o aniversário de uma pessoa com quem experimentei a primeira e mais genuína forma de amor. A pessoa que me gerou, gestou, cuidou e ensinou como andar pelas trilhas da vida.
Não é um dia qualquer e nem posso comemorar como um dia-de-aniversário no qual escolhemos um presente e entregamos entre beijos, abraços e um “parabéns a você”.
Não, hoje o abraço é envolto em saudades, lembranças e emoções que se expressam aqui e acolá em incríveis nuances.
Hoje não posso me deliciar com salgadinhos e bolo mas posso saborear as lembranças e agradecimentos de uma história que honro, agradeço e escolhi para comemorar este aniversário.
E assim, início este presente agradecendo à acolhida incondicional de minha decisão, aos 13 anos de idade (talvez a primeira grande decisão de minha vida), quando naquela tarde quente de verão, último dia do ano escolar, eu cheguei do colégio joguei o uniforme no chão e disse, em tom decidido, que nunca mais voltaria para aquele lugar. Respeitosamente me deixastes explicar. Eu não era a aluna “mau elemento” do colégio, como fora acusada pela freira que cuidava da disciplina da escola. Certamente reivindiquei uma nota que achei injusta e lutei pelos meus direitos, mas isto, de maneira alguma comprometia a minha reputação. Quero te agradecer não só por me ouvires mas também por me possibilitares viver o ano dourado de minha adolescência. Escola nova, meninas e meninos na mesma sala, professores diferentes, mundo novo vida nova. Honro este momento porque fiz uma escolha, fui ouvida e respeitada e certamente carrego comigo os efeitos e afetos de tudo isto. O meu presente de aniversário hoje, é lembrar e honrar esse episódio do passado, certa que ele me forma e transforma todos os dias. Sou grata pela dignidade que incentivastes em mim.
Sou grata aos momentos em que me tornei mãe, e o teu olhar esteve, a cada momento, repleto de atenção às minhas necessidades, aos meus sentimentos, inseguranças, medos e ao meu sono. O sono, dizias sempre, é imprescindível à saúde. Espelhavas como ninguém as minhas necessidades, e isto me fez sentir viva e dar vida à minha existência.
Sou grata por me ensinares valores preciosos da existência humana, a respeitar, reconhecer e honrar a vida, a velhice e a morte. Obrigada por me permitires te cuidar tornando cada momento de tua despedida, experiências de empatia, compaixão e amor. Obrigada por me ensinares a ser uma pessoa que se comprometeu em fazer o melhor para aliviar a tua dor e a tua solidão. Obrigada pela paz que me deixastes em tua despedida.
Eu poderia colocar nesta caixa presente, incontáveis episódios de nossa caminhada juntas, mas vou ser fiel à estas memórias que “me escolheram” para vestir este dia de aniversário, e me despeço agradecendo sobremaneira por me mostrares que eu não sou “mau elemento” e que devo lutar sempre pela minha dignidade.

Vaguear

Aquele dia acordei “tocando” o silêncio ao meu redor. De início experimentei a sensação de um arrepio descendo (ou subindo) pela minha coluna. Senti um estranhamento, afinal os dias em minha vida não andavam tão tranquilos assim, a ponto de eu pensar em calmaria. Seria uma tempestade vindo dos arredores? De longe ou mais próxima do que eu poderia perceber? Ou não? Não seria nenhuma tempestade vindo, mas se tratava simplesmente da calma de um dia porvir de brechas, intervalos, mudanças de planos, afrouxamento na agenda, ideias rondando, chegando e brincando com este “a fazer”, ainda em perspectiva?
Aquele dia entendi que poderia dar liberdade às ideias que chegassem (sorrateiramente ou não), pois sabia que se elas se sentissem confortáveis comigo poderiam me presentear com belas surpresas.
Aquele dia entendi que poderia vaguear junto às minhas ideias. Pra onde elas me levassem eu iria, afinal eu sabia que elas – as minhas ideias – não me trairiam com desejos inalcançáveis e sonhos impossíveis. Eu sabia que elas me deixariam ao redor das minhas possibilidades, perto dos meus limites, do realizável daquele momento. Simples assim.
Segui as minhas ideias e o dia foi bacana. Nada de excepcional, tudo simples como perambular com uma amiga, com quem nos perdemos no tempo exatamente no momento em que deixamos o tempo nos levar.
Neste dia, entre abraços apertados (que são os melhores), idas e vindas de um passeio sem rumo, paradas para um gelado, livros e sol brilhante, vagueei e me encantei de ideias.
Entre o silêncio da manhã, brechas na agenda e o andar guiado pelo inesperado, compreendi que as ideias são inspirações da alma que deseja, por alguns momentos, se expressar livremente, driblar os compromissos, obrigações e a pressa. São inspirações da alma, anciã do tempo, qur sabr que amanhã o som da vida retorna, as horas se comprimem na agenda, os problemas voltam aos seus lugares mas que as ideias precisam se manter vivas.

Partidas e chegadas

Há alguns dias uma amiga querida perguntou-me se eu havia parado de escrever, disse carinhosamente que sentia falta dos meus textos. A pergunta reverberou em mim e imediatamente me transportou para uma imagem que surgiu em minha mente.
A imagem era a da sala de espera do aeroporto, quando estamos prontos para o embarque, apenas aguardando e checando o painel de informações sobre os voos, portões de embarque, pontualidade e atrasos. Tudo está certo até que inesperadamente o painel roda, nos moldes de uma roleta que em minutos vai anunciar a sorte de um ganhador ou o infortúnio do perdedor. Tudo se altera, os voos parecem sumir inexplicavelmente do painel e por segundos pensamos perder a viagem. É preciso um tempo de espera até que o painel role novamente nos trazendo as próximas orientações, enquanto ininterruptamente, os voos chegam e partem desaparecendo em segundos por entre as nuvens.
É incrível como as imagens encaixam-se tão admiravelmente à realidade humana, pensei eu, e neste momento elas me ajudavam a responder à minha amiga. Sim, os voos haviam sofrido uma forte alteração no painel da vida, e em tempos de tempestades, é preciso muita atenção para viver as mudanças que se fazem anunciar.
Eu continuava escrevendo, não em palavras escritas, mas em palavras vividas que comporiam a viagem de um outro capítulo da história. Neste, a saudade e a falta de quem se foi por entre as nuvens, num voo rápido e de rota inesperada era imensa, irrepresentável e indiscutível. Mas foi certamente em quem ficou e aterrissou num solo dilacerado pela dor e solidão, que assentei a minha atenção.
Era preciso muita atenção nos tempos porvir de quem espera os próximos voos. Atenção coberta de delicadeza reconhecendo e respeitando a força das emoções. Atenção intuitiva onde surgem inspirações sutis capazes de aliviar momentaneamente o peso da dor. Atenção amorosa que possibilita colocar no colo, abraçar e permanecer por tempo indeterminado com a respiração entrecortada pelo sofrimento, insegurança e medo. Atenção do coração que abre espaços e anuncia o momento preciso e precioso de encostar o rosto e deixar cair as lágrimas que se misturam numa mescla de experiências, afetos e amor incondicional.
Sim, respondi à minha amiga, estive escrevendo sim, por estes tempos, mas certamente entre partidas e chegadas de um painel que rodou abruptamente.

Grisalhar

O plano era este mesmo – grisalhar.
Sim, eu pensava em “um dia ”parar de pintar os cabelos, mas era um projeto remoto, mais próximo ou logo adiante dos meus 70 anos. A minha mãe morreu aos 85 anos e até bem próximo a este momento pintava os cabelos. Na verdade, sou uma das responsáveis por isso. Primeiro, por ter sido eu mesma que pintei os seus cabelos durante anos e segundo porque sempre que ela manifestava a vontade de deixar as tintas, eu era a primeira a dissuadi-la da idéia. Enfim, eram outros tempos e os meus tempos se alteraram completamente quando fiz 62 anos e me vi cansada das tintas, do tempo perdido retocando os fios brancos que teimavam em aparecer em períodos cada vez mais curtos, mas acima de tudo eu estava muito incomodada com a minha imagem delineada num tom castanho que já não me pertencia.
Gradualmente, numa mistura desajeitada de cores, cortes e visual, fui me movimentando entre fitas e coques que disfarçavam a confusão do vir a ser e enquanto me distanciava da velha imagem, ia me re-descobrindo. Comecei a gostar do que via no espelho, de ver a escova livre dos fios em queda, do castanho que ia dando lugar ao grisalho de fios mais saudáveis e brilhosos. Tudo indicava que as coisas iam bem, que eu tinha feito uma boa escolha.
Com o passar dos dias, percebi também algumas benfeitorias ao meu redor dando sinais de bons tempos. Ajuda para acomodar a bagagem nos voos, delicadezas, atenções e cuidados , amigas buscando dicas do “grisalhar”, a descoberta de novos produtos para fortalecer, dar brilho e não amarelar o branco. Sim, o fio branco é sensível, delicado e como todas as mudança na vida, “grisalhar” nos apresenta um novo universo que aceitei entrar e me surpreender com tantas novidades que suscitavam um olhar atento e cuidado refinado.
Neste universo “grisalho” me surpreendi ao ouvir que em tom castanho eu parecia muito mais nova do que agora em tempos de cabelos brancos. A minha surpresa não foi o que ouvi, isto eu mesma já o sabia. Mas o que me surpreendeu de fato, foi me dar conta que eu não tinha mais nenhum desejo de “parecer mais jovem”. Eu estava muito animada com a idade que tinha e com a idade que transparecia. A minha alma habitava exatamente os meus 62 anos, eu não brigava com isso e por isto ela podia se deliciar e me conectar com tantas possibilidades.
Em tempos de grisalhar, me percebi retirando do guarda-roupa todas as peças que desalinhavam com o meu momento, com o meu querer, com o meu gosto e conforto. Conforto era a ordem da vez. Nada mais iria me fazer sentir comprimida, apertada, amarrada pela cintura ou impedida de me movimentar livremente. Adeus às calças jeans, salto alto (só em ocasiões especialíssimas, de altura moderada e conforto máximo). Ah! A minha alma (e meu corpo) estavam se deliciando com isto, as minhas roupas deslizavam muito livremente em meu guarda-roupa (já escrevi sobre isto), e a cada dia a vida ficava mais simples, pelo menos no que dependia das minhas ações, escolhas e decisões. Quanto ao resto… bem, o resto é tema para outro pensar.
Outro fato aconteceu, nos últimos dias, que reverberou o grisalhar ainda mais. Uma colega mandou uma delicada mensagem de final de ano que dizia “Parabéns pelas transformações que tens vivido e pelos cabelos platinados”. Gostei da expressão “cabelos platinados”, e a delicadeza de suas palavras inspirou esta escrita. Compreendi que nenhuma transformação acontece de forma isolada, mas sim (literalmente) “da cabeça aos pés”, do externo ao interno (ou vice-versa) num movimento contínuo que não finaliza num ponto de chegada mas desliza por uma vida inteira e por muitos caminhos. Grisalhar era apenas um dos caminhos, e eu estava nele.
Mas…e o que dizer às amigas que me pediram dicas sobre o “grisalhar”? Bem, à elas uma citação do Dicionário Informal no Google – “ Uma pessoa que está começando a ficar com os cabelos brancos não é grisalho, é interessante”.

Um espaço interessante

Vou contar aqui, a história deste espaço (Blog), que nasceu de um sonho, ou mais especificamente, de uma série de sonhos, que se repetiram por anos.
“Eu entro no meu consultório para um dia de trabalho, e me surpreendo ao ver uma abertura (que não existe) na parede esquerda da sala. Curiosa, me aproximo e vejo que ali tem uma escada que conduz ao andar de cima. Subo as escadas e encontro um espaço desconhecido, amplo e com varias salas. Elas estão mobiliadas e prontas para serem usadas em aulas, palestras, grupos, enfim, elas eram minhas e eu poderia usá-las quando e como desejasse, por mais inusitado que me parecesse. Pasma, me pergunto como eu não sabia deste lugar tão cuidadosamente preparado e com tantas possibilidades. Fico longo tempo encantada, admirada, surpresa e feliz.” E assim terminava sonho.
Passa o tempo (anos)….e lá estava o espaço desconhecido novamente, o frio na barriga
pela surpresa e o encantamento em outro, outro e outros sonhos. Muitas análises circularam cada sonho, todas trazendo grande sentido para mim, pois no passar do tempo, também a minha vida e o meu trabalho ganhavam novas proporções, espaços, áreas de atuação, novas instituições, propostas e propósitos.Tudo parecia muito significativo e eu me via no exato compasso dos sonhos, “ampliando espaços”.
Foi neste movimento interno/externo, neste entre-sonhos de “novas possibilidades”, que nasceu a ideia de um espaço de escrita (blog) ainda que eu, em momento algum, o tivesse associado aos sonhos. De início um projeto acanhado, que se fez tateando e espiando o mundo, buscando conteúdos e formas de expressão, pilares teóricos e formais, temas práticos e vivenciais, apreendidos e surpreendidos. Um engatinhar que se transformou em primeiros passos, movimentando-se do impulso ao recuo, no ir e vir de criações e expressões, nas vivências e liberdade de expressão, mas acima de tudo de comprometimento, consciência e responsabilidade na partilha das minhas ideias. Mas ainda percebia um caminhar hesitante.
E enquanto isso, outro sonho …
“Eu estou entrando no consultório para mais um dia de trabalho e vejo a abertura na parede esquerda da sala (a mesma dos outros sonhos) ,penso: Ah! Já conheço este lugar. Lá em cima estão as salas…Mas ao olhar para a direita, vejo que lá também tem uma abertura na parede, e esta, eu desconhecia. Nossa! Eu penso admirada. Que lugar é este? Vou entrando, e percebo que era um lugar diferente do andar de cima revelado nos outros sonhos. Era um lugar de moradia, de intimidade e conforto, quarto, cozinha, área de serviço, banheiro. Eu ia examinando tudo, perplexa e encantada, quando num sobressalto, ouvi nitidamente uma voz que me dizia – “É o teu lugar de escrita”. Neste momento, eu já sentada na cama, compreendi com a emoção contagiante do sonho, que este lugar da escrita me pertencia (possivelmente desde a infância), e que se tratava de um lugar de intimidade onde eu poderia expressar a minha visão de mundo, dar forma, habitar e transitar num ritmo próprio. O sonho parecia dizer “Entre e sinta-se à vontade”, apresentando-me um espaço confortável e interessante. Sim, naquele instante compreendi que algo interno na minha relação com este espaço modificara, e eu só escreveria se tivesse algo interessante (na minha visão) a dizer e me sentisse confortável para fazê- lo e partilhar. De maneira simples, um sentimento de liberdade, responsabilidade e autoria tomou conta de mim, e com isso a possibilidade de brincar com as palavras construindo frases, de transformar pensamentos e ideias em pinceladas leves e quiçá coloridas e humoradas. Honrando e agradecida às imagens e emoções dos sonhos, percebi o quanto este espaço tornava a minha vida interessante e quem sabe pudesse levar algo interessante aos visitantes que aqui chegam. Afinal, como diz o psicanalista Contardo Calligaris – “Eu não quero ser feliz. Eu quero ter uma vida interessante”. E que cada um encontre a sua maneira.

A janta

Ela estava muito incomodada pelo fato do marido nunca ter a iniciativa de providenciar, fazer ou mesmo pensar na janta. Ele jogava esta e tantas outras responsabilidades sobre ela (ou ela as pegava pra si?) que, envolvida nos afazeres com as crianças, sentia-se exausta, sobrecarregada e sem nenhuma disposição para pensar na janta. Desde que teve as filhas gêmeas sua vida mudou muito, entrou numa roda viva de afazeres e em muitos momentos já nem se reconhecia mais. Amava as filhas, a maternidade, a família mas sentia-se distante demais de si mesma.
Contei a ela que um dia, após longa jornada de trabalho, eu e o meu marido chegamos juntos em casa, tão juntos quanto havíamos saído de manhã cedo. Ao botarmos a chave na porta, ele me olhou e perguntou: O que tem de janta? Ótima pergunta, pensei. Não tenho a menor ideia, já que ninguém estivera em casa durante o dia e milagres não acontecem, pelo menos não na minha casa. Assim sendo, não encontraríamos uma mesa posta nem comida quentinha no fogão.
E aí? Perguntou ela curiosamente
Abrimos a porta, entramos em casa e fomos combinar a janta para aquela noite.
E aí? Perguntou ela novamente, ansiosa para saber qual a solução (“a grande saída”) que tínhamos achado para o problema da janta.
Aí…(eu respondi), continuamos até hoje combinando a janta.
Mais cautelosamente ainda, temendo ser invasiva ela arriscou “E isso há quanto tempo…”?
Eu não tive problema algum em responder:
A contar do episódio “chave na porta”… mais de 20 anos.
Ela recostou-se na cadeira. Possivelmente buscava uma posição confortável para absorver a idéia de que as respostas que procurava não chegariam prontas; não são óbvias, nem definitivas. Precisaria compreender que as questões que a moviam (ou a paralisavam), faziam parte da sua natureza, e que a natureza segue suas próprias leis, dizia Heráclito.
Ela precisaria seguir os desafios da sua natureza e as intempéries trazidas por ela. Precisaria olhar para si mesma, possivelmente corrigir atitudes, questionar certezas, checar opiniões, se reposicionar frente a vida, e acima de tudo ter paciência e flexibilidade para entender que as “respostas” são simples estações de alívio, jamais um lugar de permanência. O que é resposta hoje, é dúvida amanhã. O que é a cura do hoje, pode envenenar o amanhã, e assim é a vida desde que o mundo é mundo.
Tudo isso é muito trabalhoso, mas onde há trabalho há vida. Requer tempo sim, disponibilidade e paciência mas também é a condição para as “combinações” que ela precisaria fazer com o marido, caso escolhesse seguir a vida ao seu lado.
Combinar, no cenário dos relacionamentos, é obra além da lógica, da praticidade e objetividade, da razão e da justiça. É obra de arte. A arte das vivências conscientes, da mistura harmoniosa (outras nem tão harmoniosas assim), das pequenas nuances, da empatia e simpatia, do toque sútil, da delicadeza e assertividade, dos nãos necessários e pedidos claros, da sinceridade e honestidade, das lágrimas que escorrem mas não inundam. É arte que vai das grandes decisões às pequenas concessões, e quem sabe ao sim – continuamos juntos- apesar da janta de cada noite.

Manteiga / margarina

Assim que abri a porta, fui inundada pelo inebriante aroma do creme de aspargos, que aquela noite, escolhi para jantar no quarto do hotel. O creme fumegante, o queijo ralado e as torradinhas com manteiga compunham o cardápio perfeito para aquele momento. No entanto, uma surpresa mudou o cenário, a manteiga foi substituída por margarina e eu não tolero margarina. Frustração e um pedido de troca nada resolveu. O hotel havia mudado o produto, o fornecedor, ou sei lá o que. O fato é que estávamos ali, a margarina e eu, como em tantos outros momentos, uma frente à outra, sem nos tocarmos.
Uma viagem no tempo me transportou de imediato à minha infância, ao lugar onde tantas vezes a minha irmã se empenhou na árdua tarefa de provar que “não gostar de margarina” era fricote meu, que eu nem percebia a diferença. Isso acontecia geralmente à noite quando nos revezávamos em buscar o pão na cozinha, para um último lanche antes de dormirmos. Nestas noites, ela costumava passar margarina no meu pão, cobrir com uma farta porção de mel ou geleia e me garantia que era manteiga. Foram várias tentativas em vão, mas a verdade é que eu nunca comi “margarina por manteiga” e a minha irmã nunca provou a sua tese.
De volta ao presente … ao jantar no hotel …
Impossível não pensar na importância das lembranças e no valor que elas carregam ao nos acompanhar, fazer rir, chorar, reciclar, parar ou impulsionar a vida.
Impossível não pensar nos gostos e sabores (traços e perfis) que carregamos e que “nos carregam“ desde a infância. Quantos podemos mudar, e quantos não mudam jamais? É com estes certamente, que precisamos nos ocupar e comprometer sobremaneira, assumir responsabilidades e a tarefa de conduzi-los a cada instante da vida. Naqueles tempos de infância, a escolha já era minha e eu precisava me comprometer com o meu des-sabor. Ou eu buscava meu próprio pão (com manteiga) ou dormia sem o lanche. Simples assim, até que a minha irmã se convencesse de que eu, definitivamente, não comeria a margarina e voltássemos a nos revezar na busca do pão.
Impossível não pensar que a manteiga acresce sabor, leveza e liga perfeita aos alimentos. Entre o pão e a geleia (ou sem geleia), lá está ela, discreta, unindo e ressaltando os gostos numa perfeita combinação.
Impossível não associar estas delícias – de lembranças e sabores – com as emoções que
mesclam os dias e como amálgama conectam a vida à profundidade, à intensidade e ao sentido.
Impossível não pensar na vida árdua e árida que levamos, quando não orquestramos as nossas emoções. Experimentamos secura, ressentimentos, frieza e esterilidade, vivências sem experiências, pão sem manteiga e tantos dissabores.
Reconhecer gostos, aromas, preferências, descobrir o mistério que une o mutável e o constante, diferenciar sutilezas, assumir novas atitudes, cuidados e responsabilidades, se envolver nas lembranças e devaneios, nas saudades e emoções, tudo isso … gerando uma grande composição na orquestra da vida.
E no impasse entre a margarina, a manteiga, eu e a minha irmã, surgiu uma nova possibilidade – margarina derretida na farinha se transformando em deliciosa farofa – e isso me agradou muito.
O creme de aspargos estava delicioso, as lembranças me fizeram companhia e a margarina continuou intocada no pote, como sempre. Quem sabe um dia a manteiga retornaria ao cardápio do hotel? Ou às minhas fantasias? Torci por isso!

Na Ciranda das amigas – os dias eram assim.

Desde a primeira refeição que fizeram juntas naquele “encontro das amigas”, uma idéia já lhe ficou clara, alguns ou muitos assuntos ficariam inacabados, sem desfecho, pois as prosas se misturariam às inúmeras perguntas e comentários que brotariam de todos os lados da ciranda. Mas também não se importaria com a falta de desfechos pois o que importava de verdade, eram as conversas animadas saltitando entre as delícias e a beleza de cada mesa posta. Ali teriam flores, cores e muita delicadeza as esperando a cada manhã. Era como um belo sonho lhes oferecendo um toque de magia para que vivessem aquele ritual de amizade num “outro tempo” e num “outro espaço” – à revelia da vida e realidade de cada uma.

Elas desejavam somente, que o tempo passasse bem devagar, que as refeições se prolongassem, que os assuntos aprofundassem e que as suas almas não vagassem distantes umas das outras. Vaguearem juntas era o grande propósito naqueles dias.

A “Abertura do encontro” naturalmente se tornara um ritual e certamente o momento mais esperado por elas. As roupas bonitas, perfumes, batons coloridos e muita alegria se misturavam às palavras de carinho, dedicatórias e presentes que se ofertavam. Momentos de intensa emoção em que celebravam e agradeciam à vida por mantê-las unidas há tantos anos.

Mas, os dias seguiam seu curso …, e os grandes assuntos entraram em pauta. As amigas andaram pelo passado da cidade pequena onde nasceram e se conheceram, passearam por suas lembranças e saudades, partilharam histórias, conquistas, ganhos e perdas, aprendizados e medos. Mas, acima de tudo, passearam pelo sentido da vida. Ah, que questão interessante esta, do sentido da vida, quando lançada entre amigas de longa estrada.

Honrar a vida, a saúde, os propósitos e limites. Olhar e ouvir os medos bem de perto para que não se tornem fantasias monstruosas. Cuidar as expectativas para que não se transformem em frustrações. A busca da leveza, de corpo e de alma, das críticas e preconceitos. Receitas de culinária à cosméticos – conceitos de estética, beleza e conforto.
Usar salto alto somente em ocasiões muito especiais, todas queriam conforto. As varias formas de expressões da arte, a música, a fotografia, a escrita, a decoração, mas acima de tudo, elas pontuaram a arte como uma maneira de levar a vida. Dos mistérios do humor, do amor, e da alegria. Da dança às novas formas de divertir-se e de curtir a vida. Da mudança significativa da atenção – do “mundo fora” para o “mundo dentro”.Do minhocário ao cultivo de flores e jardins.Da partilha do Deus individual às mais variadas expressões da alma, do espírito e de suas crenças (ou não). Das raizes à liberdade de ser único.

Enfim, incontáveis assuntos cirandaram naqueles dias em que, dormiram muito pouco e sonharam acordadas. Algumas sonecas aqui e acolá e já estavam de volta à ciranda.

O tempo passa… e na janela da varanda, o som da chuva parecia rimar com as melodias selecionadas para aquela última manhã do encontro das amigas. O chimarrão seguia a roda enquanto as mulheres se distraiam em seus afazeres estéticos. O esmalte vermelho usado para retocar as unhas descascadas, não era exatamente igual ao usado por ela, mas isto nem era tão importante assim. Tantas coisas tinham vivido naqueles dias, que isso nem tinha significado. Retocar as sobrancelhas, as risadas e emoções, a cumplicidade, tudo estava ali. E a roda de sonhos acontecia enquanto os cogumelos eram delicadamente preparados para o almoço.

E assim, tudo ao mesmo tempo mas não necessariamente nesta ordem, foram vivendo o último dia do encontro das amigas e as despedidas. Levariam para casa o sabor daqueles dias, os propósitos, a saudade, os entendimentos e as gentilezas. Além da certeza de que na “Ciranda das amigas – os dias eram assim”. E elas bem o sabiam.